Este é o primeiro compilado do Conecta Geek nas produções da 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Nesta seleção temos três longas marcados por uma exploração da narrativa contemporânea e dos desafios da arte cinematográfica.
O que une Nova ‘78, After This Death e Urchin é a tentativa de explorar e reconfigurar realidades sociais, culturais e pessoais. Apesar das boas intenções, nenhum consegue criar um impacto duradouro ou mesmo relevante.
Cada filme tenta de alguma forma lidar com questões profundas, mas os resultados variam de forma consideravelmente decepcionante. Todos deixam a sensação de que poderiam ter explorado seus temas de maneira mais envolvente e significativa.
Nova ‘78
Nova ‘78 é uma cápsula do tempo reencontrada, mais relevante como peça arqueológica do que como obra cinematográfica plena. O resgate de imagens raras da Nova Convention tem força bruta, textura e ritmo, e a montagem inteligente tenta fazer do caos uma celebração estética.
A paixão por arte, música e transgressão é evidente — não há como negar o pulso vivo do material —, mas o filme não se esforça em dialogar com quem chega agora. Para quem conhece o terreno, é um deleite sensorial. Para o restante das pessoas, é como observar um ritual de fora, admirando os gestos, mas sem entender o idioma.

A falta de contexto pesa. Há figuras emblemáticas em cena, falas marcantes e um discurso potente em sua intenção, mas que se torna autorreferente ao ponto de excluir. O documentário assume um tom que flerta com o elitismo, embora negue isso em palavras. Ao fazer isso, ele entrega a chave apenas para quem já está dentro da casa. A figura de Burroughs, reverenciada como entidade, nunca se constrói por méritos mostrados, apenas pela devoção alheia. Falta mediação, falta tradução – não do idioma, mas da ideia.
A estrutura do filme é mais atmosférica do que explicativa. A imersão é real, mas rasa em termos de compreensão, deixando o espectador às cegas para decodificar um tempo, um espaço e uma cultura que se recusam a serem acessíveis.
Isso não invalida a experiência – pelo contrário, há momentos de beleza rara, como a versão musicada de “The Tyger”, que eleva a experiência. Mas isso se dá em lampejos, não em continuidade.
É uma obra que vibra, mas não acolhe. Que grita revolução, mas só é ouvida por quem já tem o ouvido treinado. Fascinante, sim. Mas bom? Nem todo resgate histórico precisa ser. E tudo bem.
After This Death

After This Death é um desastre disfarçado de cinema experimental. Sabe aquele filme que acredita tanto em sua própria pretensão que esquece de contar uma história minimamente envolvente?
O que se vê é uma produção feita sob medida para quem gosta de fingir que entendeu algo profundo, quando na verdade está apenas tentando dar sentido a um roteiro preguiçoso, incoerente e vago por opção.
O filme começa com promessas de tensão e estética perturbadora. Infelizmente, ele mergulha em um mar de diálogos vazios, simbolismos gratuitos e cenas que mais parecem esquetes de improviso entre atores perdidos.
Mía Maestro faz o possível com o pouco que lhe oferecem . Ela vive uma personagem grávida que trai o marido e se envolve com um guru indie ridículo interpretado por Lee Pace, cuja atuação repete o mesmo arquétipo do homem de meia-idade preso na adolescência, agora com mais pompa e menos propósito.
Gwendoline Christie é a única que parece entender que está num circo e entrega uma performance carismática e fora da curva. Já Rupert Friend é tão irrelevante que poderia ser substituído por um objeto inanimado sem prejuízo ao enredo.
A direção de Lucio Castro parece acreditar que bastam planos longos, metáforas desconexas e fetichismo aleatório para alcançar profundidade. O resultado é um desfile de cenas que se arrastam sem rumo, com personagens que conversam sobre o vazio existencial como quem discute o clima. O filme tenta ser arte, mas soa como paródia – e uma que se leva absurdamente a sério.
É o típico caso de cinema onde qualquer tentativa do espectador de encontrar sentido diz mais sobre sua paciência do que sobre o mérito da obra.
Urchin

Urchin é um filme que tenta se distanciar do peso melancólico típico do cinema de realismo social, mas cai em uma fórmula sem grandes surpresas. Harris Dickinson, estreando como diretor de longas, busca retratar o ciclo de abandono nas ruas com um humor irônico. A escolha garante alguns momentos de leveza, mas não aprofunda sua exploração do tema.
O personagem principal, Mike (Frank Dillane), é cativante, mas a narrativa nunca busca mostrar a real experiência de quem vive à margem da sociedade. Em vez disso, a trama segue um caminho previsível, com personagens estereotipados e uma abordagem superficial sobre pobreza e saúde mental.
A dinâmica entre Mike e o sistema é um ponto central, mas a transição rápida de sua prisão para um “novo começo” soa forçada. O roteiro não explora as dificuldades reais que um ex-presidiário e morador de rua enfrentaria ao tentar recomeçar.
O filme oscila entre momentos que tentam ser engraçados e outros que buscam uma reflexão mais profunda, mas falha em equilibrar ambos de maneira convincente. Apesar da boa cinematografia, que utiliza cores interessantes, o filme se arrasta com cenas desnecessárias e diálogos vazios. Essas falhas tornam difícil se conectar com qualquer um dos personagens.
Em termos de crítica social, Urchin não vai muito além de um retrato genérico. Vemos aqui um homem que se recusa a assumir responsabilidades, usando a pobreza como pano de fundo para uma narrativa sobre egoísmo e auto-sabotagem.
A falta de um olhar mais cuidadoso e consciente sobre as condições de vida das pessoas em situação de rua é palpável. Ao final, tem-se a impressão de que o filme está mais preocupado com seu tom irônico do que analisar genuinamente a realidade que tenta representar.
A atuação de Dillane é marcada, mas não transmite a complexidade do personagem ou a gravidade de sua situação. A sensação de que o filme é uma tentativa superficial de abordar temas como saúde mental e vícios é constante. O filme se limita a um retrato raso e formulaico, o que o torna esquecível. Mesmo os momentos de humor não conseguem suavizar a falta de um real impacto emocional.
O resultado é um filme que se perde entre suas boas intenções e a falta de uma execução mais refinada. Urchin não entrega o impacto esperado e se sente como mais um clichê do cinema de “realismo social”, sem inovação na forma ou no conteúdo. A falta de profundidade e a abordagem inconsistente deixam uma sensação de frustração, especialmente para quem esperava algo mais envolvente e significativo.
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