A relação entre videogames e animes nunca foi apenas comercial. Desde os anos 1990, quando franquias populares começaram a atravessar mídias, animes inspirados em jogos passaram a funcionar como extensões de universos já queridos pelo público, aprofundando personagens, criando novas perspectivas narrativas e, em alguns casos, apresentando mundos inteiros para quem jamais segurou um controle.
Esse diálogo é natural: ambos os formatos compartilham linguagem visual estilizada, senso de progressão dramática e construção de universos altamente imaginativos.
Com o passar das décadas, essas adaptações deixaram de ser apenas estratégias de marketing e ganharam relevância própria. Algumas tornaram-se portas de entrada para novas gerações, enquanto outras expandiram o material original, oferecendo camadas dramáticas e filosóficas que os jogos não tinham tempo ou formato para explorar. Há também casos em que o sucesso do anime retroalimentou a popularidade do game, criando ciclos culturais difíceis de separar.
Trouxemos então sete animes que vieram do mundo dos games e que, diferente de alguns casos esquecíveis, são bons títulos para serem maratonados atualmente, independente de quando foram lançadas.
Sonic X
Ano de lançamento: 2003
Onde assistir: Netflix e Prime Video
Quando a velocidade encontrou a narrativa seriada, nasceu Sonic X, uma adaptação que tentou capturar o espírito frenético da franquia da SEGA enquanto introduzia elementos dramáticos e relacionais que os jogos apenas sugeriam. A série acompanha Sonic e seus aliados transportados para a Terra, convivendo com humanos e enfrentando o clássico antagonismo do Dr. Eggman, criando um choque entre cotidiano e fantasia tecnológica.
O personagem surgiu originalmente nos jogos de plataforma da SEGA e se tornou um dos mascotes mais reconhecidos da indústria, sendo criado para rivalizar com ícones do mercado e simbolizar agilidade e atitude rebelde. A adaptação animada expandiu esse conceito ao explorar vínculos emocionais e conflitos mais introspectivos, algo menos presente na experiência direta de gameplay.
Sonic X exemplifica um tipo de adaptação comum nos anos 2000: a tentativa de contextualizar personagens de ação dentro de histórias episódicas que pudessem dialogar com públicos variados. Ao fazer isso, não apenas manteve o dinamismo da franquia como também ofereceu um espaço onde identidade, amizade e pertencimento eram discutidos sob a ótica de um herói que nunca para de correr.

Castlevania
Ano de lançamento: 2017
Onde assistir: Netflix
Entre todas as adaptações contemporâneas, poucas alcançaram a maturidade narrativa vista em Castlevania. Baseada na série de jogos que começou nos anos 1980, a animação da Netflix mergulha em temas de violência, religião e decadência humana enquanto acompanha caçadores de vampiros enfrentando forças sobrenaturais.
Os games originais já giravam em torno da luta contra Drácula e criaturas das trevas, estabelecendo uma atmosfera gótica influenciada por literatura clássica de horror. A versão animada amplia esse imaginário, desenvolvendo personagens com conflitos morais complexos e explorando tragédias pessoais que transcendem a simples batalha contra o mal.
Nesse caso, a adaptação mostra como um material originalmente focado em progressão de fases pode sustentar uma narrativa densa, quase teatral. Castlevania funciona como prova de que adaptações podem dialogar com públicos adultos e transformar universos jogáveis em dramas existenciais sobre vingança, fé e humanidade.

Pokémon
Ano de lançamento: 1997
Onde assistir: Netflix e Prime Video
Talvez nenhum exemplo represente melhor o impacto cultural das adaptações do que Pokémon. Originada como uma série de jogos lançada na década de 1990, a franquia cresceu até se tornar uma marca global multimídia que inclui animações, filmes e produtos diversos.
O anime acompanha treinadores que capturam e treinam criaturas para batalhas, refletindo a proposta central dos jogos de explorar, colecionar e evoluir companheiros digitais. Ao transportar essa mecânica para a televisão, a obra transformou sistemas de progressão em jornadas emocionais, enfatizando amizade, superação e descoberta.
A série também demonstra como uma adaptação pode redefinir a percepção do público. Para muitos espectadores, o anime foi o primeiro contato com a franquia, consolidando personagens e conceitos que depois influenciariam a própria evolução dos jogos. Pokémon mostra que, quando bem executada, a relação entre mídias deixa de ser hierárquica e se torna simbiótica.

Devil May Cry
Ano de lançamento: 2025
Onde assistir: Netflix
Devil May Cry leva para a animação o estilo exagerado e estilizado que consagrou a franquia nos videogames. A história gira em torno de Dante, caçador de demônios cuja personalidade sarcástica e habilidade em combate definiram a identidade da série desde sua estreia.
Nos jogos, a narrativa se apoia na ação veloz e em confrontos coreografados; na adaptação, o ritmo desacelera para explorar a solidão do protagonista e a melancolia por trás da postura confiante. Esse contraste revela uma característica interessante das adaptações: a possibilidade de iluminar nuances psicológicas que passam despercebidas durante a experiência interativa.
O anime preserva o tom sombrio e estilizado, mas transforma combates em metáforas de isolamento e propósito. Ao fazer isso, mostra como personagens construídos para ação podem sustentar reflexões sobre identidade e destino quando deslocados para outro formato narrativo.

Digimon Adventure
Ano de lançamento: 1999
Onde assistir: Crunchyroll
Lançada no fim dos anos 1990, Digimon Adventure acompanha crianças transportadas para um mundo digital habitado por criaturas que evoluem durante batalhas. O anime surgiu em paralelo à expansão da franquia de jogos e brinquedos digitais, consolidando uma narrativa focada em crescimento pessoal e cooperação. Recentemente, a obra recebeu um remake, que também vale ser conferido.
A série enfatiza relações entre parceiros humanos e digitais, transformando a progressão de níveis típica dos games em metáfora para amadurecimento emocional. Ao contrário de experiências competitivas, o anime aposta na coletividade e na descoberta individual dentro de um grupo diverso.
Esse aspecto fez com que Digimon se tornasse referência para histórias de aventura juvenil que abordam temas como responsabilidade e identidade. A adaptação demonstra como a lógica de evolução mecânica pode ser reinterpretada como jornada psicológica e social.

Tekken: Bloodline
Ano de lançamento: 2022
Onde assistir: Netflix
Mais uma obra da Netflix, a adaptação de Tekken traduz o universo dos torneios de luta para uma narrativa focada em legado familiar e rivalidade. Inspirada na franquia de jogos conhecida por combates intensos e personagens diversos, a série acompanha o treinamento e as disputas de Jin Kazama em meio a conflitos intergeracionais.
Nos games, a trama serve como pano de fundo para batalhas; no anime, torna-se o eixo principal, explorando relações familiares e questões de herança e destino. Essa mudança de foco evidencia a liberdade criativa que adaptações possuem para reorganizar prioridades narrativas.
Tekken: Bloodline mostra que histórias centradas em competição podem ganhar profundidade emocional quando reestruturadas para acompanhar motivações e dilemas internos, transformando confrontos físicos em confrontos psicológicos.

Dragon Quest
Ano de lançamento: 1991
Onde assistir: Não disponível atualmente em streaming
Baseado em uma das franquias de RPG mais influentes do Japão, Dragon Quest: As Aventuras de Dai adapta o espírito heroico dos jogos para uma narrativa clássica de fantasia. Conhecido no Brasil como Fly: O Pequeno Guerreiro, o anime acompanha um jovem que aspira tornar-se herói, enfrentando forças malignas e descobrindo seu próprio potencial.
A franquia original consolidou conceitos que definiram o gênero RPG eletrônico, incluindo progressão de habilidades, exploração e confrontos contra criaturas fantásticas. No anime, essas estruturas se traduzem em jornadas de autodescoberta e coragem, reforçando arquétipos mitológicos presentes tanto em jogos quanto em narrativas épicas.
Essa adaptação destaca o potencial do gênero para dialogar com tradições literárias e cinematográficas, mostrando como aventuras interativas podem se transformar em sagas heroicas carregadas de emoção e simbolismo.

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