Poucos diretores brasileiros conseguiram construir, em tão pouco tempo, uma filmografia tão reconhecível e debatida quanto Kleber Mendonça Filho (KMF). Entre o cinema de autor e o diálogo direto com o público, suas obras combinam crítica social, memória urbana, tensão política e um olhar afiado para as relações de classe no Brasil, quase sempre a partir do cotidiano, de espaços aparentemente comuns e de personagens marcados por silêncios e conflitos subterrâneos.
Assim como seu novo longa, O Agente Secreto, grande parte da filmografia de KMF é ambientada em Recife, cidade onde nasceu e que frequentemente aparece em seus filmes não apenas como cenário, mas como personagem.
Formado em Jornalismo, ele começou a carreira como crítico de cinema antes de migrar, ainda nos anos 1990, para a realização audiovisual, passando por documentários, videoclipes e curtas de ficção. Desde então, consolidou-se como um dos principais nomes do cinema brasileiro contemporâneo, com obras premiadas e celebradas internacionalmente — incluindo o Prêmio do Júri no Festival de Cannes por “Bacurau” em 2019, co-dirigido Juliano Dornelles; e o Prêmio da Crítica (FIPRESCI) por “Aquarius”, em 2016, além de presenças recorrentes em grandes festivais como Cannes e Berlim.
Para quem quer entender a força do cinema de Mendonça Filho, alguns filmes funcionam como portas de entrada essenciais. Mais do que uma lista de títulos “obrigatórios”, estes são trabalhos que revelam suas principais obsessões estéticas e temáticas, ajudando a mapear como o diretor se consolidou como uma das vozes mais importantes do cinema contemporâneo brasileiro.
7. Eletrodoméstica (2005)

Em Eletrodoméstica, KMF transforma um acontecimento banal — a chegada de uma TV de 29 polegadas à casa de uma família pernambucana — em ponto de partida para observar o cotidiano com atenção quase hipnótica. Enquanto o novo aparelho promete modernidade e entretenimento, a narrativa acompanha uma dona de casa em meio a tarefas domésticas repetitivas, marcada por uma ansiedade silenciosa: a espera pelo fim do ciclo da máquina de lavar. Com humor sutil e olhar crítico, o curta revela como objetos e rotinas moldam o tempo, o espaço e as relações dentro de casa, antecipando temas que o diretor aprofundaria em seus longas.
O curta pode ser encontrado no Youtube.
6. Recife Frio (2009)

Em Recife Frio, Mendonça Filho aposta em um curta de ficção científica e comédia para construir uma sátira inteligente sobre a cidade e suas contradições. A partir da queda de um meteorito, Recife passa a enfrentar temperaturas baixíssimas e deixa de ser tropical, a ponto de ver pinguins circulando pela região. Com um tom de humor constante, quase como uma reportagem absurda sobre um fenômeno impossível, o filme usa o exagero e o estranhamento para transmitir uma mensagem crítica, revelando como mudanças drásticas podem expor desigualdades, hábitos e tensões sociais que já estavam presentes no cotidiano.
O curta pode ser encontrado no Youtube e Embaúba Play
5. Vinil Verde (2004)

Em Vinil Verde, o cineasta constrói um curta marcado por um clima de fábula sombria, em que o encanto da infância se mistura a uma tensão crescente. A história acompanha uma menina que ganha vinis coloridos e se deslumbra tanto com as cores quanto com as músicas tocadas na vitrola, descobrindo um universo de fascínio e imaginação.
Mas a proibição de ouvir justamente o vinil verde, o mais misterioso de todos, transforma a curiosidade em inquietação, conduzindo o filme por um caminho de suspense e estranhamento. Com simplicidade narrativa e atmosfera perturbadora, o curta revela o talento do diretor para transformar o cotidiano em algo ameaçador e simbólico.
O curta pode ser encontrado no Embaúba Play
4.Bacurau (2019)

Em Bacurau, KMF, em co-direção com Juliano Dornelles, entrega um dos filmes brasileiros mais impactantes e discutidos dos últimos anos, misturando faroeste, ficção científica e thriller político em uma narrativa eletrizante.
Ambientado em um pequeno povoado do sertão, o longa acompanha uma comunidade que, após a morte de uma moradora importante, começa a perceber acontecimentos estranhos: a cidade some do mapa, a comunicação falha e ameaças externas se aproximam.
Com tensão crescente e forte carga simbólica, Bacurau transforma resistência em protagonista e usa a violência — física e histórica, para discutir poder, colonialismo e desigualdade no Brasil contemporâneo, sem abdicar do humor ácido e do espetáculo cinematográfico. O longa ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, marcando a primeira vitória do Brasil nesta categoria.
O filme pode ser encontrado na Telecine, Globoplay e Netflix.
3. Retratos Fantasmas (2023)

Retratos Fantasmas marca um novo capítulo na obra do diretor ao buscar, pela primeira vez em longo documentário, uma reflexão íntima e histórica sobre o cinema e o espaço urbano de Recife, sua cidade natal. O filme revisita, por meio de imagens de arquivo, fotografias e memórias pessoais, as grandes salas de cinema que, ao longo do século XX, foram centros de convívio social e cultural no centro da cidade, e que hoje estão fechadas ou quase desaparecidas, funcionando como “fantasmas” da memória coletiva.
A obra estreou na 76ª edição do Festival de Cannes, em 2023, na seção Special Screenings, e teve um percurso expressivo em festivais internacionais, incluindo o Festival de Cinema de Lima, onde conquistou o prêmio de Melhor Documentário, e o 2º Prêmio na seção Tiempo de Historia no Festival de Valladolid.
O documentário pode ser encontrado na Netflix.
2. O Som ao Redor (2012)

O Som ao Redor marca a estreia de KMF nos longas com um retrato afiado da vida em uma rua de classe média do Recife, onde a aparente normalidade é atravessada por tensões invisíveis. A chegada de uma empresa de segurança privada altera a rotina dos moradores e expõe, pouco a pouco, relações marcadas por medo, vigilância e conflitos de classe, tudo embalado por um desenho de som inquietante, que transforma ruídos cotidianos em ameaça. Com narrativa fragmentada e atmosfera crescente de desconforto, o filme já revela o estilo do diretor: um cinema político sem panfletos, que usa o cotidiano para falar de heranças históricas e desigualdades profundas.
O filme pode ser encontrado na Netflix.
1. Aquarius (2016)

Já em Aquarius, Mendonça Filho acompanha Clara (Sônia Braga), uma mulher que resiste a deixar seu apartamento em um edifício antigo à beira-mar no Recife, alvo da pressão de uma construtora interessada em “renovar” a área.
O filme transforma essa disputa aparentemente privada em um conflito maior, sobre memória, especulação imobiliária, envelhecimento e poder, com uma protagonista forte e um tom ao mesmo tempo, íntimo e combativo. Aclamado internacionalmente, Aquarius foi selecionado para competir pela Palma de Ouro em Cannes e consolidou o diretor como um dos principais nomes do cinema contemporâneo, além de reforçar sua capacidade de fazer da cidade e de seus espaços um campo de batalha simbólico.
O longa pode ser encontrado na Netflix e Globoplay.
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