Crítica | Boa premissa é suficientes para prender o espectador em 'Confinado'
Paramount Pictures/Divulgação

Crítica | Boa premissa é suficientes para prender o espectador em ‘Confinado’

Há prisões que não precisam de grades. Basta um carro com trava automática, um dono vingativo e um sistema de som que toca yodeling no volume máximo. Confinado tenta ser exatamente isso: um thriller claustrofóbico onde o SUV luxuoso vira uma cela de alta tecnologia, controlada por um homem invisível (Anthony Hopkins) que parece ter assistido a muitos episódios de “Black Mirror” e decidiu replicá-los no mundo real. A premissa é fascinante — um ladrão (Bill Skarsgård) fica preso em um veículo que se transforma em sua própria sentença — mas o filme, assim como seu protagonista, não consegue escapar das limitações do próprio conceito.

A metáfora do carro como prisão é óbvia, mas poderia render muito mais. Um veículo moderno, cheio de sensores, câmeras e controle remoto, é praticamente uma extensão do panóptico digital em que vivemos hoje. O problema é que Confinado não explora isso com a profundidade que merece. Em vez de mergulhar nas implicações de vigilância e controle, o roteiro prefere ficar na superfície, com Hopkins soltando frases de efeito sobre “a geração mimada” e Skarsgård batendo no painel como um rato enjaulado. É uma dinâmica que poderia ser eletrizante, mas acaba repetitiva — como se o filme também estivesse preso em um loop, sem saber como avançar.

Crítica | Boa premissa é suficientes para prender o espectador em 'Confinado'
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Dentro do SUV, a direção de fotografia faz milagres. O espaço é mínimo, mas a câmera se espreme entre os bancos, aproxima-se do rosto suado de Skarsgård, enquadra seus olhos arregalados no retrovisor. Há um uso inteligente das luzes do painel, que piscam em tons azulados e vermelhos, quase como se o próprio carro estivesse vivo — um Hal 9000 sobre rodas. A iluminação noturna, especialmente, cria um clima de pesadelo tecnológico, onde cada botão pressionado pode ser uma armadilha.

Crítica | Boa premissa é suficientes para prender o espectador em 'Confinado'

No entanto, toda essa atmosfera cuidadosamente construída esbarra em um roteiro que não sabe o que fazer com ela. O conflito principal — um jovem ladrão contra um velho justiceiro — é promissor, mas as conversas entre os dois rapidamente caem no lugar-comum. Hopkins, mesmo com sua voz imponente, não tem muito além de discursos genéricos sobre “os jovens de hoje não respeitam nada”. Skarsgård, por sua vez, faz o que pode com um personagem que oscila entre “coitadinho” e “irritantemente burro” (quem, em sã consciência, tenta arrombar um vidro de carro com os punhos?).

A montagem tenta disfarçar a estagnação com flashbacks da filha do protagonista e cenas de Nova York, mas esses momentos parecem mais enfeites do que elementos narrativos essenciais. Em um filme como “Enterrado Vivo”, onde Ryan Reynolds está… enterrado vivo, cada segundo de tela é usado para aumentar o desespero. Aqui, porém, as interrupções só quebram o ritmo, como se David Yarovesky, diretor do projeto, não confiasse que a história principal fosse suficiente.

Anthony Hopkins é um dos melhores atores vivos, mas Confinado não exige nada perto do que ele fez em “O Silêncio dos Inocentes”. Seu personagem, William, é um vilão que parece ter saído de um thread de Twitter — raivoso, cheio de frases de impacto, mas sem profundidade real. Em certo momento, ele justifica suas ações com um “porque sim”, o que soa menos como um psicopata calculista e mais como um roteirista sem ideias.

Crítica | Boa premissa é suficientes para prender o espectador em 'Confinado'
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Já Bill Skarsgård, sempre intenso, tenta carregar o filme nas costas. Seu personagem, Eddie, é um típico “anti-herói com coração mole” — rouba, mas ama a filha; é violento, mas dá água para um cachorro preso em outro carro (sim, a ironia é óbvia). Skarsgård transpira, grita, sangra e até bebe a própria urina (porque todo filme de sobrevivência precisa de um momento nojento desses), mas o roteiro não lhe dá nada realmente novo para trabalhar. Aqui, porém, ele está preso em um ciclo de raiva e desespero que não evolui.

Uma escolh, no mínimo curiosa de Yarovesky é em mostrar a “sujeira”e a desigualdade social de Nova York por meio de suas câmeras em diversos momentos, sobretudo no primeiro ato. Sinceramente, não sei se isso só serve como justifica para mostrar o quão perigosa a cidade é — essa é a motivação dessa armadilha criada pelo personagem de Hopkins — mas dá a impressão que esse elemento poderia trazer um dialogo maior sobre a necessidade e o crime. No entanto, só forçando muito a barra tirarmos algo que o filme não faz questão nenhuma de se aprofundar.

Sem entrar no campo dos spoilers, o desfecho de Confinado confirma que não existia substância o suficiente para essa história se tornar um longa-metragem. Seu final é tão convencional que chega a ser decepcionante pelo nível de previsibilidade. Depois de tanto tempo trancado no SUV, a solução que Eddie encontra é… bem, digamos que você já viu algo parecido em outros filmes. E pior: a última cena tenta forçar um ar de “reflexão profunda” que nunca foi construída direito ao longo da narrativa.

Confinado é como um carro com motor potente, mas sem combustível. Ele tem todos os elementos para funcionar — atores talentosos, uma premissa intrigante, uma fotografia competente — mas fica rodando em círculos, sem nunca chegar a lugar nenhum. E aí, quando a jornada acaba, você não sente alívio por ter escapado. Sente que, talvez, devesse ter pegado um Uber.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.