Crítica | Rosario é um reflexo de um EUA Trumpista que vê imigrantes como seres sujos e assustadores
Imagem Filmes/Divulgação

Crítica | Rosario é o reflexo de um EUA Trumpista que vê imigrantes como seres sujos e assustadores

O cinema de horror é um dos campos mais férteis para alegorias sociais. Filmes como “Corra!” e “A Noite dos Mortos-Vivos” provaram que monstros e assombrações podem ser metáforas para ansiedades políticas e tensões raciais. Em Rosario, no entanto, a tentativa de explorar tais temas descamba para uma caricatura grotesca, marcada por xenofobia disfarçada de entretenimento e por escolhas narrativas que traem qualquer compromisso com o gênero além do susto fácil. O resultado é um longa que ecoa uma visão reacionária de um Estados Unidos (EUA) ainda marcado pelo discurso Trumpista, no qual estrangeiros são representados como corpos sujos, amaldiçoados e perigosos.

A trama acompanha Rosario, vivida por Emeraude Toubia, uma executiva mexicana bem-sucedida no setor financeiro. O início até sugere uma ruptura interessante: ver uma filha de imigrantes ilegais ocupar um espaço de poder em um ambiente dominado por homens brancos gera uma expectativa de afirmação e representatividade. No entanto, essa promessa é logo sabotada. Descobrimos que o triunfo da protagonista não é fruto de esforço pessoal ou da luta de sua família, mas resultado de um pacto com forças malignas. A ascensão de uma mulher latina, aqui, só é possível por meio da magia negra, como se qualquer conquista viesse acompanhada de trapaça ou corrupção espiritual.

Esse ponto já bastaria para questionar a ética narrativa do diretor colombiano Felipe Vargas, mas o filme vai além. Ao se apropriar de elementos do Palo Mayombe, religião afro-caribenha de origem escrava, o cineasta a retrata como um amontoado de fetiches visuais: velas, caldeirões, símbolos e rituais são convertidos em matéria-prima para criar monstros genéricos que surgem e desaparecem sem função dramática. Em vez de complexidade cultural, temos uma visão estereotipada que reforça o olhar branco-americano sobre tradições que deveriam merecer respeito. Parece que Vargas, enquanto latino, dirigiu seu longa-metragem de estreia da forma mais estadunidense possível, como uma forma de ser validado dentro de Hollywood. Rosario é um espetáculo de nojo e medo, reforçando preconceitos históricos contra negros e latinos.

A ambientação segue o mesmo caminho. O apartamento da avó de Rosario é filmado como uma caricatura de cortiço: paredes descascadas, móveis sujos, larvas rastejando pelos cantos e uma penumbra artificial que insiste em transformar qualquer espaço em antro de podridão. Essa estética não serve ao horror, mas à degradação simbólica dos personagens imigrantes. É como se o filme quisesse convencer o público de que tais pessoas vivem inevitavelmente em ambientes imundos, incompatíveis com a “civilização”. A associação entre estrangeiro e sujeira não é casual, mas parte de uma lógica narrativa que ecoa discursos racistas em voga nos últimos anos nos EUA.

Crítica | Rosario é um reflexo de um EUA Trumpista que vê imigrantes como seres sujos e assustadores
Imagem Filmes/Divulgação

Cinematograficamente, Rosario aposta em uma linguagem que tenta compensar sua fragilidade temática com excesso formal. Vargas recorre a planos inclinados, vultos passando ao fundo, cortes abruptos e efeitos sonoros repentinos, acreditando que a soma desses elementos gera medo. Mas susto não é sinônimo de terror – e aqui se evidencia a falta de domínio sobre o ritmo da montagem. A alternância entre cenas é tão mal calibrada que a passagem do tempo torna-se incoerente, com personagens levando horas ou minutos para realizar ações semelhantes, sem lógica alguma. É um terror que confunde urgência com desorganização.

Há ainda uma evidente tentativa de replicar o humor grotesco e o exagero corporal característicos de das obras de Sam Raimi, mas sem compreender o espírito criativo do cineasta de “A Morte do Demônio”. Raimi sabia equilibrar o absurdo e o riso nervoso com inventividade visual. Vargas, por outro lado, multiplica situações inverossímeis em sequência – Rosario enfrenta uma nevasca, um cão assassino, assaltantes no metrô e grades esmagadoras, tudo em questão de minutos – e acredita que a saturação de estímulos basta para gerar impacto. O resultado, porém, é mais próximo de uma esquete não propositalmente cômica.

Crítica | Rosario é um reflexo de um EUA Trumpista que vê imigrantes como seres sujos e assustadores
Imagem Filmes/Divulgação

O roteiro, por sua vez, se perde em soluções fáceis e constrangedoras. Sem personagens de apoio relevantes, a protagonista passa boa parte do tempo falando sozinha, verbalizando pensamentos e explicações que deveriam surgir… na sua cabeça. Pra piorar, o longa desperdiça o talento de David Dastmalchian, que é reduzido a um vizinho excêntrico obcecado por uma AirFryer.

Do ponto de vista da fotografia, é inegável que há alguns quadros visualmente interessantes. Planos que exploram sombras ou refletem a protagonista em superfícies espelhadas indicam um esforço estético. Contudo, a insistência em movimentos circulares de câmera – como se fosse suficiente girar o enquadramento para gerar tensão – rapidamente transforma a escolha em muleta estilística. A direção de arte, por sua vez, cai na armadilha do excesso: o calabouço secreto da avó, maior por dentro do que o apartamento que o contém, é tão saturado de elementos repulsivos que perde credibilidade, aproximando-se de uma sátira.

No campo dramático, o filme tenta construir uma culpa intergeracional, com Rosario se ressentindo por ter abandonado mãe e avó, mas não encontra lastro narrativo. O filme prefere verbalizar emoções do que demonstrá-las em cena. Assim, a protagonista encarna menos uma figura complexa e mais um símbolo da assimilação cultural desejada pelo olhar branco-americano: ela não fala espanhol, rejeita práticas de sua infância e só alcança sucesso ao se afastar de suas raízes. O problema é que nem mesmo esse movimento é tratado com nuance. A mensagem implícita é de que, para um imigrante latino, a prosperidade é sempre ilegítima, obtida por meio de pactos ilícitos, e nunca fruto de trabalho ou resiliência.

Rosario poderia ter sido um estudo sombrio sobre identidade, pertencimento e choque cultural. Poderia, inclusive, usar o terror como metáfora para o medo real que imigrantes enfrentam diante da hostilidade social e política nos EUA. Mas escolhe o caminho mais fácil – e mais perigoso. Ao transformar tradições afro-latinas em espetáculo grotesco, ao reduzir imigrantes a seres sujos e amaldiçoados e ao reforçar a ideia de que seu sucesso é fruto de corrupção, o filme se torna cúmplice de um discurso xenofóbico. E num gênero que historicamente serviu para dar voz aos marginalizados, esse é talvez o maior dos seus fracassos.

Leia outras críticas:


Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.