Crítica | Zootopia 2 entrega densidade social em embalagem da Disney
Disney/Divulgação

Crítica | Zootopia 2 entrega densidade social em embalagem da Disney

A tarefa de sequenciar um fenômeno cultural como “Zootopia” é, por natureza, hercúlea. O filme original não apenas arrecadou bilhões, mas consolidou-se como uma fábula social que equilibrou com notável leveza o formato buddy cop, o humor familiar e uma alegoria contundente sobre preconceito e integração. Zootopia 2, agora lançado, aceita o desafio com uma postura clara: ampliar tudo. A cidade ganha camadas históricas, a dupla protagonista enfrenta crises relacionais e a trama se imbrica em conspirações centenárias. A ambição é admirável, mas a execução revela as fissuras de um roteiro que tenta abraçar mais temas do que consegue desenvolver com profundidade.

Do ponto de vista da direção, o filme mantém o espírito dinâmico e urbano estabelecido por Byron Howard e Rich Moore no original, agora com com Jared Bush, um dos roteiristas do primeiro filme, ao lado de Howard na direção. Ou seja, criativamente, ainda se mantém parte da equipe nessa continuação. Até por isso é compreensível a escolha de continuar a explorar Zootopia não apenas como cenário, mas como personagem em si, é um acerto técnico e conceitual.

A cinematografia virtual, essencial na animação digital, é espetacular. A câmera navega com fluidez entre os distintos da metrópole, criando um senso de escala e vivacidade impressionante. Cenas de perseguição, como uma sequência vertiginosa pelos canais do distrito aquático, são montadas com um ritmo que mescla a clareza espacial dos grandes estúdios com a inventividade de ângulos inesperados, quase como se a câmera fosse um animal ágil se esgueirando pela cidade.

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A fotografia explora uma paleta de cores mais ousada do que a do primeiro filme, especialmente nos segmentos que apresentam o mundo subterrâneo dos répteis, onde tons de âmbar, verde musgo e rocha cinzenta criam uma atmosfera distinta e melancólica, contrastando com a vibrante policromia da superfície. Essa decisão não é apenas estética; é narrativa. A luz quente e difusa do mundo reptiliano comunica exclusão e um passado fossilizado, enquanto a luz clara e direta das ruas de Zootopia reflete a modernidade e a transparência (nem sempre real) da sociedade atual.

No entanto, é na montagem e na estrutura do roteiro que Zootopia 2 encontra seus maiores obstáculos. O filme inicia com um prólogo eficaz, mostrando Judy Hopps e Nick Wilde já como parceiros celebrizados, mas cuja arrogância leva a um desastre operacional. A decisão de colocá-los em terapia de casal – uma metáfora hilariante e precisa para a recalibragem de qualquer parceria profissional – é brilhante e promete um arco de desenvolvimento íntimo.

A montagem alternada entre as sessões de terapia e as missões iniciais estabelece um ritmo promissor. Contudo, à medida que a trama principal se desdobra, com a introdução do misterioso Gary “A Cobra” e a revelação de uma conspiração envolvendo a aristocrática família Lynxley, o roteiro de Bush começa a acumular linhas narrativas. A edição tenta costurar investigação policial, fuga, descobertas históricas, comentário social e o desenvolvimento do relacionamento central, resultando em uma sensação de sobrecarga.

Transições que antes eram suaves dão lugar a cortes mais bruscos, como se o filme corresse para chegar ao próximo ponto da trama. Esse excesso mitológico, embora interessante por trazer à tona temas de revisionismo histórico e apagamento de minorias (aqui, os répteis), dilui a força investigativa que era o motor do primeiro filme. A elegância da fábula social dá lugar, em momentos, a uma complexidade conspiratória que nem sempre se resolve de forma satisfatória.

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O coração do filme, felizmente, permanece intacto e é salvo pela qualidade da animação e das atuações vocais. A direção de animação é magistral na expressão de personalidades através do movimento. A física do corpo de Gary, uma serpente que é ao mesmo tempo desengonçada e graciosa, é um triunfo técnico. Cada curva de seu corpo comunica hesitação ou determinação, criando empatia imediata. A evolução da relação de Judy e Nick é animada com nuances sublimes: a orelha caída de Judy em um momento de decepção, o olhar latero de Nick quando ele mascara preocupação com sarcasmo.

Embora a química da dupla protagonista seja excelente, não consigo mensurar isso num aspecto geral, visto que assisti ao filme dublado, assim como qualquer espectador no Brasil, o que considero um absurdo não existir sequer a possibilidade de sessões legendadas. Dito isso, Rodrigo Lombardi e Monica Iozzi seguem ótimos, como Nick e Judy, respectivamente. Eles brigam, se frustram e se machucam, e é justamente essa fragilidade que os torna críveis. Cenas mais íntimas, como um diálogo noturno em um esconderijo, são tratadas com uma fotografia mais contida e uma montagem mais lenta, permitindo que a emoção dos personagens respire. É nesses momentos que o filme encontra sua grandeza, lembrando que, no centro de toda a alegoria, estão dois indivíduos aprendendo a confiar.

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A parte técnica sonora também merece destaque. A trilha sonora, que incorpora desde temas jazzísticos até motivos mais sinistros para os momentos conspiratórios, funciona como uma bússola emocional. O design de som é criativo na forma como diferencia os ambientes; o burburinho da Savana Central é uma cacofonia organizada de vozes e passos, enquanto o mundo reptiliano é envolto em ecos e sons orgânicos subterrâneos. A mixagem prioriza a clareza dos diálogos, essencial em um filme com tantas reviravoltas narrativas, sem abrir mão da imersão nos ambientes.

Contudo, a ambição temática do filme esbarra em uma contradição cinematográfica. Zootopia 2 deseja ser uma crítica mais incisiva à corrupção sistêmica e ao poder das elites, representadas pela fria e calculista Milton Lynxley. A direção tenta retratar a polícia e o governo com tons cinzentos, mas a montagem e a resolução narrativa frequentemente recorrem a soluções convencionais, onde gestos de redenção súbita apaziguam conflitos estruturais.

O clímax do filme, embora visualmente espetacular com seu confronto em um local simbólico da cidade, sofre de uma previsibilidade que a montagem acelerada tenta, sem sucesso total, disfarçar. Por outro lado, o epílogo é uma joia de direção e economia narrativa. Através de um plano-sequência simples que acompanha Judy e Nick retomando sua rotina, com diálogos mínimos e uma composição visual que os coloca em equilíbrio perfeito no quadro, o filme reconquista sua alma. É um momento puramente cinematográfico, onde a imagem, a animação e a emoção se fundem para afirmar o verdadeiro tema da franquia: a construção diária da confiança.

Por fim, Zootopia 2 é um filme que se avalia melhor pelos seus momentos altos do que por sua consistência total. Como produto da Disney, é uma demonstração de que o estúdio ainda domina a animação digital, criando mundos vivos e personagens cativantes. Como sequência, é uma obra corajosa que se recusa a ser mera repetição, optando por complexificar seu universo e seus personagens, mesmo que, no processo, tropece em sua própria ambição. A montagem e o roteiro, porém, revelam as tensões de uma história que quis abraçar o mundo, mas encontrou seu coração mais forte na simplicidade de uma amizade em aprimoramento. Vale a visita a Zootopia, não tanto pela perfeição do seu funcionamento, mas justamente pelos seus novos defeitos expostos e pela beleza imperfeita de tentar consertá-los.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.