O que é um buraco? No senso comum, é uma abertura, uma falta, uma passagem. No cinema, pode ser um símbolo. Em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, filme da escritora e diretora Mary Bronstein, esse buraco é literal e metafísico. Aparece no teto do apartamento da protagonista, Linda (Rose Byrne), após um vazamento, e passa a funcionar como a imagem mais precisa do seu estado interior: uma fissura exposta, uma ferida estrutural que ninguém se dispõe a consertar, uma queda constante de escombros psicológicos sobre o seu já abalado cotidiano. Esse é um excelente ponto de partida. Porque a força de Bronstein não está na novidade da metáfora, mas na radicalidade com que a executa, transformando um clichê potencial em uma experiência sensorial avassaladora. A questão não é o que o buraco representa, mas como ele e toda a estética do filme nos fazem sentir o peso insuportável que ele carrega.
A história acompanha Linda, uma psicoterapeuta que vive no limite absoluto. Ela divide seus dias entre atender pacientes emocionalmente demandantes e cuidar sozinha de sua filha de 10 anos, que sofre de uma doença não nomeada, alimentando-se por sonda. O marido está ausente, a rede de apoio é inexistente. Linda é a arquétipo da mãe solitária, da mulher que desaba sob o fardo de cuidar de todos, menos de si. O roteiro, inteligentemente, não foca na patologia da filha, mas na patologia gerada pela exaustão. É um estudo do burnout maternal, daquela culpa silenciosa e da raiva que não ousa dizer seu nome.

E é aqui que a direção de Bronstein se ergue como o verdadeiro protagonista. Ela não nos conta sobre a ansiedade de Linda; ela nos infecta com ela. A opção mais drástica e eficaz é o uso quase exclusivo de closes extremos no rosto de Rose Byrne. A câmera, operada com uma inquietação que beira a claustrofobia, raramente se afasta. Não há planos de estabelecimento que nos orientem no espaço, não há respiro visual. Estamos colados a Linda, invadindo seu espaço pessoal, vendo cada microexpressão de cansaço, desespero e dissociação se formar em seus olhos. Essa escolha é cansativa – e é exatamente para ser. O espectador é privado do oxigênio cinematográfico tradicional, forçado a compartilhar o sufocamento da personagem. A fotografia, muitas vezes em ambientes apertados e com iluminação naturalista ou artificial crua, acentua essa sensação de estar preso dentro da própria mente de alguém.
A montagem segue a mesma lógica frenética, cortando entre as sessões de terapia, as crises da filha – sempre ouvida, raramente vista –, as visitas ao apartamento arruinado e os momentos de fuga desesperada durante a madrugada, com bebidas e outras drogas. O design de som é um personagem crucial. Os gemidos da filha, o pingar da água no buraco, a respiração ofegante de Linda, a música intrusiva – tudo se amalgama numa sinfonia de estresse. A comparação com “Jóias Brutas”
(dos irmãos Safdie) e Lynne Ramsay não é casual: é a escola da ansiedade fabricada através do ritmo e da imersão sensorial total.

Outra decisão corajosa, que gera tanto fascínio quanto estranhamento, é a recusa em mostrar a filha. Vemos seus pés, suas costas, sua sombra, a bolsa de alimentação, mas seu rosto permanece um mistério até os instantes finais. Isso é brilhante por dois motivos. Primeiro, do ponto de vista narrativo, mantém um véu de tensão e curiosidade. Segundo, e mais importante, reflete com frieza a realidade psicológica de Linda: a criança não é, naquele momento de colapso, uma pessoa com quem ela consegue se conectar emocionalmente; é uma carga, uma responsabilidade esmagadora, um lembrete constante de fracasso. Ao nos negar a imagem de uma criança doente e, portanto, potencialmente sentimentalizada, Bronstein nos força a enxergar a relação através do prisma devastador da exaustão pura. A filha é, antes de tudo, um som que perturba, uma demanda que não cessa.
O curto elenco de apoio é escalado de forma que melhor reflita a inadequação do mundo ao redor de Linda. Os pacientes, como Caroline (Danielle Macdonald), uma jovem mãe emocionalmente instável, despejam seus problemas sem perceber que a terapeuta está à beira do abismo. O colega terapeuta (Conan O’Brien) oferece conselhos técnicos e vazios, totalmente desprovidos de empatia, ampliando sua solidão profissional. A única válvula de escape, tão tóxica quanto necessária, vem na forma de James (A$AP Rocky), um vizinho do hotel que oferece fugas momentâneas que, longe de salvá-la, aprofundam sua espiral. A construção de cada personagem, sobretudo os homens, na narrativa é a de uma figura que orbita, promete, mas nunca realmente sustenta.

E no centro desse furacão está Rose Byrne, dando o que pode ser definido como a atuação de sua carreira. Ela está em praticamente todos os quadros do filme e carrega o peso narrativo e emocional com uma força quase física. Não é uma atuação grandes monólogos ou discursos, mas de tremores contidos, olhares perdidos, gestos truncados e uma deterioração visível que parece marcar sua pele. Ela traduz em linguagem corporal o conceito do “buraco no teto”: vemos a umidade do desespero apodrecendo sua compostura. É um trabalho que merece toda a atenção durante a temporada de premiações.
É válido, contudo, ressaltar que a experiência proposta por Bronstein é, intencionalmente, desgastante. A persistência nos closes, a edição fragmentada e a atmosfera de desespero ininterrupto podem, para alguns, beirar a exaustão narrativa, não apenas a emocional. O filme é uma maratona em terreno pantanoso, sem pontos de descanso. Isso não é um defeito, mas uma característica do longa. É um filme para ser vivenciado, com todos os desconfortos que isso implica.
Voltemos, então, ao mote inicial: a metáfora manjada do buraco. Em Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria, Mary Bronstein nos lembra que o poder de uma imagem não está necessariamente em sua originalidade absoluta, mas na profundidade e no compromisso com que ela é integrada à obra. O buraco no teto, o mofo, a filha invisível, a câmera asfixiante – são todos elementos que, isolados, podem soar como lugares-comuns do cinema de angústia. Reunidos sob a visão contundente da diretora e a interpretação visceral de Rose Byrne, eles se transformam em um retrato difícil e memorável do isolamento materno. O filme é menos sobre a condição de ser mãe e mais sobre a condição de estar à beira de um colapso, segurando sozinha as pontas de uma realidade que já se desfez. É um grito abafado, filmado com a câmera colada na boca de quem já não tem mais ar. Essa pressão toda cria uma sensação inevitável: a de que, a qualquer momento, tudo vai explodir.
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