O cinema é, em sua essência, um grande serviço de aluguel. Alugamos assentos, alugamos nossa atenção por duas horas e, mais profundamente, alugamos a crença em personagens que sabemos serem atores. Família de Aluguel, novo filme da diretora Hikari, leva essa transação ao pé da letra, explorando o fenômeno social japonês onde você pode contratar um pai, uma noiva ou um amigo para preencher lacunas emocionais. Com essa premissa em mãos, Hikari, em parceria com o roteirista Stephen Blahut, escolheram o caminho do melodrama reconfortante. O resultado é um longa que, como um bom ator de aluguel, cumpre seu papel com profissionalismo e coração, mesmo que o contrato exija mais lágrimas suaves do que perguntas espinhosas.
A trama gira em torno de Phillip, um ator americano vivido por Brendan Fraser – e aqui entra um viés pessoal: sou um grande admirador do seu trabalho, e sua presença calorosa e vulnerável mantêm o filme de pé. Fraser empresta a Phillip uma aura de desgaste digno, de um artista preso em comerciais de TV e séries B em Tóquio, cuja maior performance é esconder sua própria desilusão. Sua vida muda ao cruzar com Shinji (Takehiro Hira), o gerente sereno e ambíguo de uma agência de afetos contratados, que vê no protagonista o “funcionário branco” ideal para seu catálogo. A história ganha corpo a partir de dois trabalhos que borram as linhas da vida real de Phillip: fazer-se passar pelo pai ausente de Mia, uma menina que precisa dessa figura para ingressar numa escola de elite, e atuar como um jornalista que entrevista Kikuo (Akira Emoto), um idoso e esquecido astro do cinema japonês.

A escolha estética do filme revela muito sobre suas ambições. A abordagem de Hikari é polida e acessível. A fotografia não busca o realismo austero de um Yasujirō Ozu ou a textura orgânica de um Koreeda, dois mestres japoneses do drama familiar citados como referência no panorama. Em vez disso, trabalha com uma paleta visual clara que evolui narrativamente.
Os espaços da vida solitária de Phillip – seu apartamento minúsculo, os estúdios de TV – são capturados em tons frios de azul e cinza, com uma luz frequentemente artificial. À medida que ele se envolve emocionalmente, especialmente com Kikuo, a paleta se aquece para dourados e marrons, e a luz natural, suave, começa a predominar. É uma linguagem visual direta, quase um código para o espectador: o frio do isolamento, o calor da conexão – mesque que fabricada.
A direção de Hikari segue essa linha de clareza e fluência. A câmera é predominantemente estável, focada em planos médios e closes que nos convidam a ler os rostos dos atores. Mas há uma escolha estética interessante. Em momentos de aproximação pessoal, mesmo com a química entre as relações, a fotografia opta em criar um espaço entre os personagens, quase como uma barreira entre eles, indicando uma possível superficialidade daquelas relações.


A montagem é clássica e invisível, sem cortes bruscos ou experimentações temporais. Em termos técnicos, isso significa que o filme é costurado de maneira a não chamar atenção para si; os cortes acontecem no ritmo natural da conversa, guiando nossa emoção sem nos desorientar.
Para quem não está acostumado a linguagens cinematográficas mais complexas, essa é uma porta de entrada aberta e segura. No entanto, essa segurança beira a acomodação. O filme evita mergulhar na inquietação moral de sua própria premissa – a mentira contada a uma criança, o cinismo do comércio emocional – com a mesma coragem com que abraça os momentos de catarse. A narrativa é previsível, seguindo os trilhos confiáveis do arco de redenção e do poder transformador do afeto.
É justamente quando escapa dessa fórmula que Família de Aluguel encontra sua centelha de genialidade. A relação entre Phillip e o velho ator Kikuo, interpretado de forma comovente por Emoto, é o cerne emocional e intelectual do filme. O veterano, com mais de 300 filmes, dá a Kikuo uma profundidade que transcende o roteiro.
Aqui, o filme se utiliza da metalinguagem para comover. Kikuo é um homem cuja memória se esvai, mas que encontra uma verdadeira identidade ao reencenar fragmentos de seus antigos papéis para Phillip. Hikari filma essas cenas com uma reverência simples, mas poderosa. A luz da tela de projeção ilumina o rosto enrugado de Emoto, e em seus olhos brilha não só a lembrança de uma cena, mas de toda uma vida dedicada à ilusão. Phillip, ao desempenhar o papel de ouvinte, de testemunha, encontra finalmente uma atuação com significado: a de preservar uma história que está se apagando.

Esta subtrama funciona como uma bela e melancólica reflexão sobre o próprio cinema. Ela fala sobre como a memória é um filme que projetamos para nós mesmos, e como os atores, no fim, são guardiões de emoções que transcendem a ficção. A técnica serve perfeitamente a essa ideia. Os planos contra-plano entre Fraser e Emoto criam um espaço íntimo, uma bolha onde a simulação dá lugar a uma troca autêntica de humanidade. É uma aula de como a simplicidade na direção, quando aliada a performances excepcionais, pode atingir a complexidade.
Os personagens à volta, no entanto, sussurram sobre um filme mais ousado que poderia ter sido. Aiko, vivida com intensidade contida por Mari Yamamoto, é uma funcionária da agência amargurada por ter que interpretar “a amante” em cenários de traição conjugal. Em poucas cenas, ela revela as cicatrizes psíquicas desse trabalho. Da mesma forma, Shinji, o gerente, mantém uma fachada de pragmatismo que esconde uma complexidade moral apenas insinuada. Mas Família de Aluguel não quer, propositalmente, dar mais densidade a essas histórias e personagens, o longa esescolhe ser uma fábula.

E é aí que Brendan Fraser brilha. Como fã, é um prazer vê-lo navegar com tanto tato pelo personagem. Ele evita o excesso dramático, mesmo quando o roteiro o convida ao sentimentalismo. Seu famoso “olhar de cão abandonado” é aqui utilizado com medida, mas como a expressão genuína de um homem cuja profissão é a dissociação e que, de repente, se vê conectando de verdade.
No fim das contas, Família de Aluguel é como seus personagens de aluguel: bem-intencionado, eficaz no que se propõe e capaz de tocar o coração. Sua distribuição pela Disney e o lançamento em janeiro, período de férias familiares, são pistas claras de seu objetivo: oferecer um drama reconfortante para um grande público. É fofo, mas sinto que poderia mais.
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