Crítica | De Palma encontra o desejo queer em 'Ato Noturno'
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Crítica | De Palma encontra o desejo queer em ‘Ato Noturno’

Ato Noturno surge como mais um capítulo coerente na trajetória de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, cineastas interessados em personagens que vivem à margem de expectativas normativas, sobretudo quando essas expectativas dizem respeito ao corpo, ao desejo e à imagem pública. Aqui, porém, a inquietação deixa de ser apenas íntima e passa a dialogar frontalmente com estruturas de poder, visibilidade e controle social. O filme se apresenta como um thriller erótico, mas o faz sem pressa de assumir esse rótulo de imediato, preferindo, num primeiro momento, observar seus personagens quase como um estudo de costumes, para só depois mergulhar no suspense e na tensão moral que o gênero exige.

A narrativa acompanha Matias (Gabriel Faryas), ator em início de carreira que almeja reconhecimento, e Rafael (Cirillo Luna), político prestes a se lançar numa disputa eleitoral. Ambos compartilham um fetiche específico: a excitação provocada pela possibilidade de serem vistos, flagrados, desmascarados. Esse prazer pelo risco funciona como motor dramático e metáfora evidente das pressões que enfrentam. O filme não se limita a retratar encontros sexuais em locais públicos; ele investiga o que esse comportamento revela sobre o medo da exposição, sobre o desejo de controle e, paradoxalmente, sobre a vontade de perder esse controle, ainda que por instantes.

Ambientado em Porto Alegre, Ato Noturno utiliza a cidade como elemento narrativo. A capital gaúcha é filmada de maneira elegante, quase estilizada, o que contribui para uma atmosfera de constante vigilância. Ruas, parques, prédios e interiores assumem um ar de palco, reforçando a ideia de que todos estão sempre sendo observados. Essa sensação é potencializada pela fotografia de Luciana Baseggio, que trabalha com contrastes marcantes entre luz e sombra, sobretudo nas sequências noturnas. A penumbra protege e ameaça ao mesmo tempo, criando imagens que dialogam diretamente com o universo do thriller erótico que marcou o cinema até os anos 1990.

É nesse ponto que as referências se tornam mais evidentes. O filme dialoga com o cinema de Brian De Palma, especialmente na maneira como constrói tensão a partir do olhar e da voyeurização, lembrando títulos como “Dublê de Corpo” e “Um Tiro na Noite”. Felizmente não se trata de citação vazia, mas de apropriação consciente de uma linguagem: enquadramentos que isolam personagens dentro do quadro e uma montagem que cria expectativa mais pelo que sugere do que pelo que mostra. Ao mesmo tempo, há ecos do melodrama erótico de Pedro Almodóvar, sobretudo na valorização das cores e na forma como o desejo é tratado como força desestabilizadora.

A direção de arte de Manuela Falcão reforça essa herança estética ao apostar em uma paleta cromática dominada pelo vermelho, cor associada tanto à paixão quanto ao perigo. Esse recurso ajuda o espectador a compreender emocionalmente as cenas, mesmo quando a narrativa opta por não explicar tudo em diálogos. Já a trilha sonora, assinada por Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier, atua como elemento de costura entre o drama íntimo e o suspense, criando uma pulsação constante que acompanha o descontrole crescente dos personagens.

As atuações sustentam bem esse universo. Faryas constrói um Matias movido por ambição e insegurança, alguém disposto a ultrapassar limites profissionais e pessoais para se destacar. Cirillo Luna, por sua vez, imprime em Rafael uma rigidez que parece prestes a ruir a qualquer momento, resultado de uma vida pautada pela necessidade de controle da própria imagem. A relação entre os dois funciona menos como romance e mais como pacto, um acordo silencioso em que prazer, risco e mentira se misturam. Personagens secundários, como o vivido por Henrique Barreira, ajudam a tensionar ainda mais esse equilíbrio frágil, trazendo disputas e desconfianças que alimentam o clima de paranoia.

Tão segura quanto as atuações, a montagem do longa demonstra segurança, ela sabe quando desacelerar para observar gestos e silêncios e quando acelerar para conduzir o espectador ao território do thriller.

Há também um aspecto importante na forma como o filme lida com a representação dos corpos, especialmente de atores negros. A iluminação e o cuidado estético garantem que todos sejam filmados com o mesmo rigor, evitando um problema recorrente no cinema contemporâneo. Esse cuidado se torna ainda mais relevante nas cenas de sexo, em que luz e sombra são usadas para criar imagens sensuais sem recorrer à exploração gratuita.

Se há uma fragilidade, ela está menos na execução técnica e mais na abordagem temática. A discussão sobre os limites entre vida pública e privada, especialmente no contexto de figuras públicas LGBTQIA+, é pertinente, mas o filme por vezes a trata de maneira genérica. O fetiche pelo perigo acaba funcionando como substituto rápido para questões mais complexas, o que pode reduzir o impacto crítico de algumas situações. Ainda assim, essa escolha não invalida o conjunto, sobretudo porque Ato Noturno se assume como um filme de gênero, interessado mais na experiência sensorial e na tensão.

No saldo final, o longa se sustenta como um thriller erótico que respeita suas referências sem se tornar refém delas. Funciona especialmente bem para o público brasileiro, que reconhece nas entrelinhas as dinâmicas de poder, a vigilância moral e como o perigo pode se tornar excitante em um país marcado por contradições. Ato Noturno nos convida à reflexão sobre até que ponto o desejo pode sobreviver quando tudo vira espetáculo, e sobre o preço que se paga ao transformar o risco em prazer.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.