Crítica | Sexa apresenta o desafio de envelhecer num filme que não quer enrugar
Elo Studios/Divulgação

Crítica | Sexa apresenta o desafio de envelhecer num filme que não quer enrugar

Sexa nasce como um projeto carregado de simbolismo extrafílmico. Trata-se da estreia de Glória Pires na direção, após uma trajetória extensa e reconhecida como atriz, e de um filme que se propõe a discutir o envelhecimento feminino em uma sociedade marcada por machismo e etarismo. Do ponto de partida é potente, de fato, é interessante. O filme apresenta uma mulher que chega aos 60 anos, sente o peso do tempo, questiona seus desejos e se vê julgada tanto pelo entorno quanto por si. O problema é que, ao longo do percurso, o longa opta por um cinema fácil, excessivamente acomodado em fórmulas conhecidas, abrindo mão de complexidade dramática e de um uso mais expressivo da linguagem cinematográfica.

Desde seus primeiros minutos, Sexa deixa claro qual é o seu tema central. A questão da idade não surge de maneira sugerida ou construída visualmente, mas verbalizada insistentemente pelos personagens. O roteiro prefere explicar a situação emocional da protagonista por meio de falas diretas, muitas vezes artificiais, em vez de confiar no silêncio, nos gestos ou na encenação. Essa escolha compromete a fluidez da narrativa e revela uma escrita que dialoga mais com a lógica das telenovelas do que com o tempo condensado do cinema. Em uma obra audiovisual, repetir ideias pode ser estratégico em formatos seriados, mas em um longa-metragem isso gera desgaste e subestima a capacidade de interpretação do espectador.

Glória Pires, no papel de Bárbara, sustenta o filme com carisma e presença. A personagem é desenhada como uma mulher bem-sucedida, financeiramente confortável e cercada por amigas, mas emocionalmente atravessada por medos e inseguranças. O conflito com o filho adulto, que depende dela economicamente enquanto a julga por seus desejos e escolhas, funciona como um vetor dramático importante. No entanto, esse embate também é tratado de forma esquemática, com o personagem masculino assumindo um papel quase caricatural de repressão, sem nuances que o tornem mais humano ou contraditório. O resultado é um antagonismo funcional, porém raso.

Quando o filme desloca seu foco para o romance com um homem mais jovem, a narrativa passa a tratar o envelhecimento menos como um processo interno e mais como um problema relacional. As dúvidas da protagonista deixam de girar em torno de quem ela é ou do que deseja, e orbitam o olhar do outro, especialmente o masculino. Essa mudança de eixo não é, por si só, equivocada, mas carece de aprofundamento. Em vez de explorar as contradições desse desejo tardio, o filme opta por conflitos previsíveis e resoluções rápidas, mantendo sempre uma zona de conforto emocional que evita riscos.

Crítica | Sexa apresenta o desafio de envelhecer num filme que não quer enrugar
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Do ponto de vista da direção, Sexa é, cinematograficamente, um filme conservador. A encenação privilegia diálogos frontais, com personagens posicionados de maneira funcional diante da câmera, como se os ambientes fossem apenas fundos ilustrativos. Há pouca exploração dos espaços, e quase nenhuma tentativa de construir sentido a partir da relação entre corpo e cenário. Os apartamentos amplos e bem decorados, assim como os bares e praias, aparecem mais como cartões-postais do que como elementos dramáticos. Isso reforça uma estética próxima à do cinema de streaming e da televisão, onde o espaço existe para acomodar a fala, não para gerar tensão ou qualquer outro significado.

A fotografia acompanha essa mesma lógica de neutralidade. A luz é homogênea, sem contrastes marcantes, e raramente dialoga com o estado emocional dos personagens. Mesmo nas cenas que poderiam carregar maior carga sensorial, como os encontros íntimos, a imagem recorre a recursos previsíveis, como o desfoque excessivo, numa tentativa de sugerir delicadeza e erotismo sem realmente encarar a complexidade do desejo maduro. A trilha sonora, pontuada por sambas e imagens recorrentes das praias cariocas, funciona como um marcador de tempo e lugar, mas acaba reforçando um tom genérico, quase turístico, que dilui a singularidade da experiência narrada.

A montagem também contribui para essa sensação de acomodação. As transições entre cenas seguem um ritmo regular, sem rupturas ou elipses mais ousadas. O tempo parece sempre confortável demais, como se nada fosse realmente urgente na vida dos personagens. Profissões são mencionadas, mas raramente exercidas em cena, criando um universo suspenso, desconectado das pressões cotidianas. Essa escolha pode ser interpretada como uma tentativa de criar leveza, mas acaba esvaziando o impacto dos dilemas apresentados.

Há ainda uma questão sensível na construção das personagens secundárias. A melhor amiga de Bárbara, Cristina, vivida por Isabel Fillardis, surge como uma presença constante, acolhedora e disponível, mas sem trajetória própria. Sua função dramática é, majoritariamente, reagir e aconselhar, sem que suas próprias questões ganhem espaço. Trata-se de um recurso recorrente em narrativas centradas em uma protagonista, sobretudo quando essa melhor amiga é uma mulher negra; e em Sexa esse papel se evidencia pela repetição e pela falta de reciprocidade nas relações.

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Nada disso torna Sexa um filme hostil ao espectador. Pelo contrário, trata-se de uma experiência acessível, que flui com facilidade e pode gerar identificação em um público amplo. A química entre os atores, especialmente nos momentos de intimidade emocional, ajuda a sustentar o interesse. No entanto, essa mesma busca pela leveza e pela comunicação direta é o que impede o filme de alcançar maior densidade. Ao escolher explicar em vez de sugerir, repetir em vez de aprofundar e acomodar-se em códigos conhecidos, Sexa abre mão da poesia e do risco que poderiam transformar sua proposta em algo mais marcante.

A sensação que fica, no fim das contas, é de que o longa prefere não confrontar plenamente seus próprios temas. O envelhecimento feminino, tão rico em contradições e nuances, é tratado de maneira segura, quase pedagógica. O cinema fácil que emerge dessa escolha pode agradar, mas também limita. Sexa provoca reflexão, sim, mas o faz em fronteiras bem delimitadas, sem jamais ameaçar o conforto do espectador – ou o seu próprio.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.