Um carro de Fórmula 1 em meio a tecnologia

Coluna | Por que a Fórmula 1 é o esporte mais próximo da ficção científica?

Antes de parecer exagero, vale alinhar a ideia. Quando pensamos em ficção científica, pensamos em futuro, simulações, cenários projetados no computador e decisões tomadas a partir de dados. Mais do que naves e tecnologias impossíveis, o gênero sempre girou em torno de uma obsessão humana, que gira em torno de prever consequências antes que elas aconteçam.

Sendo assim, A Fórmula 1 vive exatamente nesse território. Só que, em vez de naves espaciais, são carros. E, em vez de viagens no tempo, são voltas decididas no limite dos milésimos.

O futuro sendo testado no presente

Diferente de outras categorias, a F1 detém liberdade técnica e orçamento para lapidar sistemas híbridos, recuperação de energia, aerodinâmica de ponta e softwares de análise em tempo real. Tudo nasce como um experimento extremo. Assim como na ficção científica, onde novas tecnologias precisam provar sua viabilidade antes de transformar o mundo, as inovações das pistas não ficam restritas aos bastidores.

Muitas dessas soluções migram dos circuitos para os carros de rua após serem refinadas. Portanto, o que parecia inalcançável para o consumidor comum torna-se um recurso cotidiano. Um exemplo disso, são os motores híbridos. Em 2009, a categoria introduziu o KERS, sistema que reaproveitava a energia das frenagens. A partir de 2014, o conceito evoluiu para um novo regulamento, entretanto, acabou consolidando uma revolução que hoje vemos nas ruas, democratizando uma tecnologia aprimorada no calor da competição.

Simulação antes da realidade

Assim como no filme Matrix, onde a realidade é precedida por uma simulação, na Fórmula 1 quase nada acontece primeiro no mundo físico. Desse modo, corridas são vencidas ou perdidas antes mesmo do carro sair da garagem. A ficção científica sempre explorou essa ideia de mundos testados antes de existirem, e a F1 faz exatamente isso, só que sem roteiro. Em comum, ambas utilizam modelos de dados para criar “realidades” virtuais que antecipam decisões e consequências.

Quando o cálculo falha (e quando triunfa)

Quando esse futuro calculado se confirma, o resultado é decisivo. No GP da Hungria de 2019, a Mercedes confiou nos dados que indicavam que Lewis Hamilton, com pneus novos, teria ritmo suficiente para alcançar Max Verstappen no fim da prova. A estratégia funcionou. Foi uma vitória construída com base em previsão, não em reação.

Por isso, a simulação é a base da Fórmula 1 moderna. As equipes rodam milhares de cenários em simuladores: desgaste de pneus, consumo de energia, clima, tráfego e entradas do safety car. O piloto já “viveu” aquela corrida dezenas de vezes antes da largada real, e a pista apenas confirma ou desmente o que foi previsto.

Por outro lado, quando não funciona, o impacto é igualmente forte. No GP de Mônaco de 2022, a Ferrari tinha simulações, planos e estratégias bem definidos. Entretanto, o problema surgiu quando o mundo real fugiu do modelo previsto. A chuva chegou de forma caótica, decisões se atropelaram e Charles Leclerc perdeu uma vitória que parecia certa. Como em toda boa ficção científica, o futuro previsto não aconteceu como esperavam.

Humanos dentro de máquinas inteligentes

No filme Atlas, protagonizado por Jennifer Lopez, vemos uma analista de dados que se vê forçada a confiar naquilo que mais teme, justamente uma inteligência artificial. No início, sua tentativa de “controlar” a máquina de forma rígida falha e o sucesso só surge quando ela aceita uma integração profunda, transformando a desconfiança em diálogo.

Esse cenário futurista reflete uma realidade cada vez mais próxima. Mesmo com o avanço da tecnologia, o fator humano não desaparece, entretanto, muda de papel. O piloto deixa de ser apenas força e reflexo e passa a interpretar sistemas complexos, lendo dados, ajustando mapas e tomando decisões sob pressão. Surge, assim, uma simbiose entre homem e máquina, que materializa um dos temas mais antigos da ficção científica, que é o desafio de controlar, confiar e dialogar com a inteligência artificial.

A pista como linha do tempo

Em muitas corridas da Fórmula 1, vencer não significa apenas ser o mais rápido, mas escolher o momento certo. Parar antes, guardar pneus, antecipar cenários. Sendo assim, o resultado não vem da força bruta, mas como já foi dito, da capacidade de ler o futuro alguns minutos antes dos outros.

Essa dinâmica nos remete diretamente ao universo de Minority Report, onde o sistema Pré-Crime utiliza a visão antecipada de eventos para impedir crimes antes mesmo que eles sejam cometidos.

Portanto, na tecnologia das pistas, vivemos uma espécie de “Pré-Crime das máquinas”. Através de milhares de sensores e algoritmos, o piloto e sua equipe não estão apenas correndo a volta atual, eles estão processando dados que revelam o desgaste de um pneu ou uma falha mecânica muito antes de se tornarem reais.

O impacto além do espetáculo

A maior categoria do automobilismo justifica seu papel não apenas pelo show, mas pelo legado técnico. Tecnologias testadas ali ajudam a tornar carros mais eficientes, seguros e inteligentes. O que começa como solução radical acaba se tornando inovação, assim como na ficção, ideias parecem distantes até se tornarem parte da vida comum.

No fim, a diferença entre o sci-fi e a Fórmula 1 é que, na pista, o futuro não é um roteiro, é um laboratório em movimento. Dessa maneira, ele é testado contra a realidade e, por fim, validado pelo cronômetro. Ali, a ficção termina onde o tempo começa.

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Acredito que séries, filmes e rock são mais do que entretenimento, eles dizem muito sobre quem somos. Redatora, crítica e teorizadora, escrevo para provocar reflexão, compartilhar paixões e explorar o impacto da cultura pop na vida real.