Crítica | Alerta Apocalipse junta boas ideias presas em um fim do mundo comportado
Imagem Filmes/Divulgação

Crítica | Alerta Apocalipse junta boas ideias presas em um fim do mundo comportado

Todo filme que se apresenta como “o novo Zumbilândia” já começa em desvantagem. Não só porque o original virou referência difícil de replicar, mas porque nem sua continuação conseguiu repetir o mesmo frescor. Alerta Apocalipse parece saber disso e, ao mesmo tempo, ignora o aviso. Ele chega ao cinema com aquela empolgação de quem acredita ter encontrado a fórmula: jovens carismáticos, fim do mundo tratado com humor, uma ameaça biológica bizarra e uma promessa de diversão sem culpa. Só que, ao longo da projeção, fica claro que o longa até flerta com o caos, mas prefere manter tudo sob controle, como se tivesse medo de assustar o próprio público.

A ideia central é daquelas que funcionam melhor quanto mais simples são. Inspirado no livro de David Koepp, o filme se passa quase todo dentro de um armazém de autoatendimento – desses espaços impessoais, cheios de corredores metálicos e caixas esquecidas – construído sobre uma antiga base militar. É um cenário perfeito para o suspense: fechado, funcional e carregado de um passado que, obviamente, vai dar errado. Ali, escondido sob concreto, repousa um organismo parasita extraterrestre com apetite suficiente para causar uma extinção em massa. Não é exatamente sutil, mas nunca prometeu ser.

Quem nos guia por esse ambiente são Travis (Joe Keery) e Naomi (Georgina Campbell), dois funcionários presos ao marasmo do turno da noite. Eles não são heróis, nem aspiram ser. São jovens cansados, um pouco perdidos, tentando pagar contas e resolver problemas pessoais que parecem grandes demais para aquela idade. Essa escolha é acertada porque cria identificação imediata. Antes do apocalipse, o filme fala de tédio, de tempo morto, de conversas jogadas fora para passar as horas. Quando o caos começa, a ruptura é mais eficaz justamente por nascer desse cotidiano banal.

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A direção de Jonny Campbell, que traz no currículo séries como “Westworld” e “Doctor Who”, revela alguém confortável com o fantástico, mas curiosamente contido. Há um cuidado evidente na construção do espaço, na forma como a câmera explora os corredores estreitos e cria a sensação de labirinto. A fotografia aposta em tons frios e industriais no início, reforçando a monotonia do local, e vai incorporando cores mais agressivas conforme a ameaça se manifesta. Tecnicamente, há intenção e método. O problema é que, narrativamente, o filme parece sempre à beira de algo maior que nunca acontece de verdade.

Quando Alerta Apocalipse decide assumir seu lado mais absurdo, ele funciona muito bem. As cenas que investem no humor físico, no grotesco e na transformação exagerada dos infectados mostram um filme que entende a força do exagero. A maquiagem e os efeitos práticos são, em vários momentos, eficientes, nada esplendoroso, mas funcionais. Há textura, peso e uma sensação tátil que torna o horror quase palpável. Os feitos práticos ajudam o espectador a sentir que aquela ameaça existe naquele espaço.

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Já a computação gráfica entrega resultados irregulares. Alguns elementos digitais destoam do restante da cena, chamando atenção de forma involuntária. Ainda assim, o próprio tom meio cartunesco do filme acaba funcionando como um amortecedor para esses deslizes. Como o longa nunca se leva totalmente a sério, esses excessos visuais acabam sendo assimilados como parte da brincadeira, embora não deixem de denunciar limitações técnicas.

O elenco, por sua vez, é quase um comentário metalinguístico. Colocar Liam Neeson, Lesley Manville e Vanessa Redgrave em meio a um festival de gosma, tiros e criaturas mutantes é, por si, uma decisão curiosa. Neeson interpreta Robert Quinn, o veterano que já lidou com a ameaça no passado e entende exatamente a dimensão do problema. Ele faz isso com a seriedade de sempre, como se estivesse em um thriller político. E é justamente aí que nasce boa parte do humor: o contraste entre a postura grave do ator e o absurdo da situação cria um efeito quase involuntário, mas eficaz.

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Keery sustenta bem o protagonismo graças ao carisma, embora não escape completamente de um arquétipo já conhecido. Seu Travis é espirituoso, meio atrapalhado, emocionalmente acessível – características que agradam, mas também reforçam a sensação de repetição. A química com Georgina Campbell é simpática, funciona nos momentos leves, mas o roteiro insiste em aprofundar esse vínculo de forma apressada. As tentativas romance acabam parecendo interrupções em um filme que pede velocidade, desordem e irreverência.

Narrativamente, o longa segue trilhos bastante conhecidos. Bases secretas, decisões equivocadas, informações escondidas que vêm à tona tarde demais – tudo isso já foi visto inúmeras vezes no cinema de gênero. A diferença aqui está no tom, que tenta equilibrar leveza e ameaça global. O parasita extraterrestre dá um tempero próprio à história, afastando o filme do zumbi tradicional e aproximando-o de uma ficção científica mais escatológica. Ainda assim, a impressão é de que a obra observa suas próprias referências com respeito demais, quando talvez precisasse zombar delas sem pudor.

Alerta Apocalipse é um filme que diverte, passa rápido e cumpre sua promessa de entretenimento. Mas também é um daqueles casos em que a sensação de “quase” pesa mais do que os acertos. A ideia de um fim do mundo nascendo em um depósito esquecido é excelente, cheia de potencial satírico. O filme toca nesse potencial, brinca com ele, mas nunca se joga de cabeça. Fica a impressão de que, se tivesse aceitado ser mais sujo, mais barulhento e mais irresponsável, poderia ter se tornado algo memorável. Em vez disso, opta por ser um apocalipse educado demais para um mundo que claramente pede descontrole.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.