Review | Don't Stop, Girlypop! é um shooter de salto alto tentando não tropeçar
Capa: Conecta Geek

Review | Don’t Stop, Girlypop! é um shooter de salto alto tentando não tropeçar

Imagine que alguém pegou a energia de uma maratona de clipes da MTV dos anos 2000, a velocidade brutal de um “Quake” e a atitude de “RuPaul’s Drag Race”, colocou tudo num liquidificador rosa e serviu em forma de um jogo. O resultado, espumante e um pouco doce enjoativo, se chama Don’t Stop, Girlypop!.

Mais do que um jogo, é um estado de espírito estético do Y2K. O título é uma declaração de guerra contra a seriedade e os tons terrosos, onde a jogabilidade de um arena shooter clássico é obrigada a vestir um figurino de cyber-fairy hipercolorida. A pergunta que move esta review é se essa união performa um número perfeito ou se, em algum momento, o salto alto quebra no meio do palco.

O jogo da Funny Fintan Softworks foi esenvolvido ao longo de seis anos por Jane Fiona, o projeto é uma releitura pessoal e radical de um gênero. Aqui, não se trata de salvar o mundo com cinismo e armas pesadas, mas de atravessar arenas apocalípticas com conceitos de amor, cor e customização, numa narrativa que mistura crítica social, fantasia e uma trilha sonora que é pura nostalgia sintetizada.

Review | Don't Stop, Girlypop! é um shooter de salto alto tentando não tropeçar
Funny Fintan Softworks/Reprodução

No jogo você é uma fada-ciborgue, seus inimigos vão de touros mecânicos a vespas empoderadas, e seu objetivo parece ser tanto sobreviver quanto arrasar enquanto faz isso. É uma premissa que se sustenta na coragem de ser excessiva, e é nesse excesso que o jogo constrói sua casa – e também encontra seus tropeços mais significativos.

A direção de arte é, sem dúvida, a estrela maior do espetáculo. As cores são saturadas a ponto de quase saltarem da tela, os cenários parecem saídos de um Dreamcast que consumiu muito açúcar, e a customização dos braços e armas adiciona uma camada deliciosamente vaidosa à experiência.

Review | Don't Stop, Girlypop! é um shooter de salto alto tentando não tropeçar
Funny Fintan Softworks/Reprodução

É uma estética que sabe exatamente de onde veio e não tem vergonha de ser espalhafatosa. Para alguém como eu, que viveu a virada do milênio, mas não é saudosista ao extremo, o efeito é menos nostalgia pura e mais admiração por uma reconstrução tão dedicada e hiperbólica de uma época. O jogo não quer que você lembre do passado; ele quer que você viva em uma versão fantástica e exagerada dele.

A trilha sonora é a parceira perfeita para essa festa visual. Não é um mero pano de fundo; é uma personagem. As faixas pop e eletrônicas, com seu beat frenético e sintetizadores definem o ritmo cardíaco do jogo. Os momentos de combate contra chefes, como uma vespa que domina os céus ou touros metálicos que avançam com fúria, ganham uma épica própria graças à música. É uma camada de imersão tão bem costurada que, por vezes, você se pega tolerando o caos na tela apenas para continuar ouvindo.

No entanto, é justamente no coração da experiência, a jogabilidade, que o brilho começa a escorrer um pouco. Don’t Stop, Girlypop! se propõe como um arena shooter veloz, que exige precisão e movimentação ágil. Teoricamente, é uma proposta sólida. Na prática, a execução esbarra em alguns problemas de comunicação entre o estilo e a substância.

O combate é, de fato, rápido e desafiador. Mas a exigência técnica, especialmente em modos mais difíceis e sem assistência de mira, parece, por vezes, desconectada do frenesi visual. Em meio a um palco de cores vibrantes, efeitos de partícula, textos explicativos piscando e uma enxurrada de inimigos, localizar o cursor de mira pode se tornar uma tarefa hercúlea. A tela, em seus momentos mais críticos, sofre de uma poluição visual que penaliza a legibilidade.

O arsenal criativo, um dos pontos altos conceituais, sofre um pouco do mesmo mal. Armas como a que dispara bolhas grudentes, que explodem em sequência, são ideias fantásticas que pedem por estratégia. Contudo, a curva de aprendizado para dominar cada nova arma é íngreme, muitas vezes explicada em meio ao turbilhão de ação, o que pode levar à frustração. O jogo pede paciência e repetição para que suas mecânicas mais interessantes brilhem, um pedido que contrasta com a proposta imediatista e explosiva de sua estética. A sensação, após algumas horas, é a de um cansaço cognitivo. É como tomar um Nesquik de morango bem doce: o primeiro gole é uma festa, mas o excesso pode enjoar.

Review | Don't Stop, Girlypop! é um shooter de salto alto tentando não tropeçar
Funny Fintan Softworks/Reprodução

É aqui que reside a discussão mais interessante que Don’t Stop, Girlypop! propõe. Até que ponto o estilo pode carregar uma experiência? O jogo de Jane Fiona é uma obra de amor e identidade, e isso é louvável em um mar de produções genéricas. Ele traduz perfeitamente o exagero como filosofia. A direção de arte e a trilha sonora não são meros adereços; são a tese central do projeto. Elas funcionam em harmonia gloriosa, criando um mood único e cativante.

Por outro lado, a jogabilidade, embora tecnicamente competente em sua base, não dialoga com a mesma elegância com esse excesso. Em vez de se complementarem, estilo e ação parecem, em certos momentos, competir pela atenção do jogador. O resultado é uma experiência que oscila entre a diversão genuinamente única e a exaustão por sobrecarga sensorial. Don’t Stop, Girlypop! é, no fim das contas, um experimento corajoso e necessário.

É o tipo de jogo que talvez não existisse nos anos 2000, mas que, hoje, nos faz questionar as convenções de seu gênero. Ele diverte, surpreende e, acima de tudo, marca posição.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.