A Glue Trip ainda existe. A frase, dita assim, seca, quase soa como provocação num país onde bandas independentes nascem, fazem barulho por alguns anos e desaparecem com a mesma rapidez com que surgiram – especialmente quando vêm de fora do eixo Rio–São Paulo. Mas no caso da Glue Trip, existir nunca foi apenas permanecer ativo. Sempre foi insistir.
Formada em João Pessoa no início da década de 2010, a banda apareceu junto de uma geração que parecia inaugurar fôlego para a música alternativa brasileira. Haviam blogs, festivais independentes em expansão, selos locais pelo que vinha “de fora”. Mas, passados mais de dez anos, o cenário se evidencia menos generoso do que parecia. Muitas bandas daquela leva ficaram pelo caminho. Algumas encerraram atividades silenciosamente; outras se reinventaram até se tornarem irreconhecíveis. A Glue Trip mudou – de cidade, de formação, de fase – mas nunca deixou de ser Glue Trip.
Hoje, mais de dez anos depois, o grupo se prepara para dois shows importantes: sexta-feira (5), em São Paulo, e sábado (6), em Santo André, ao lado da banda alemã Mermaid Man. Não é apenas mais uma dobradinha internacional. É um retrato de como aquela Glue Trip que começou como uma viagem caseira de psicodelia praiana virou um projeto que atravessou fronteiras, mudanças internas e geografias.

Era muito mais uma necessidade pessoal de fazer música do que qualquer ideia de carreira. Eu sempre tive vontade de fazer música, e a Glue foi o lugar onde isso ganhou forma.
Talvez porque, desde o início, o projeto tenha sido menos sobre ocupar um espaço e mais sobre criar um mundo próprio. “A gente começou sem nenhuma expectativa de durar”, diz Lucas Moura, vocalista, guitarrista e principal compositor, em entrevista ao Conecta Geek.
Esse lugar era um apartamento em João Pessoa, com equipamentos limitados, tempo elástico e nenhuma pressão externa. Dali saiu um som difícil de rotular: guitarras cheias de reverb, melodias suaves, uma psicodelia nada agressiva, quase solar. Um som que evocava praia, calor, devaneio – mas sem cair em estereótipos regionais. “A gente nunca pensou em representar um lugar”, explica Lucas. “A gente só fazia o que fazia sentido pra gente naquele momento”, completa.
Essa postura, curiosamente, ajudou a banda a cruzar fronteiras. Quando o disco “Glue Trip”, lançado em 2015, começou a circular pela internet, a resposta mais imediata veio de fora do Brasil. A música “Elbow Pain” passou a integrar playlists, vídeos, rádios online e algoritmos que pouco se importavam com a origem geográfica de quem produzia aquele som. Para muitos ouvintes estrangeiros, a Glue Trip era apenas mais uma banda psicodélica surgida em algum ponto indefinido do mapa.
“Teve gente que descobriu a banda sem fazer ideia de que a gente era brasileiro”, lembra Lucas. “Isso sempre me chamou atenção. A música se descola completamente do contexto.”
Enquanto isso, no Brasil, a realidade era menos romântica. Ser uma banda independente fora do eixo significava lidar com distâncias, custos altos e poucas oportunidades de circulação. Felipe Augusto, que hoje não faz mais parte da banda, mas foi um dos fundadores da Glue – e que fez participações em alguns dos últimos shows da banda –, fala disso com franqueza. “Existe uma narrativa bonita sobre a cena independente, mas a prática é dura. Manter uma banda ativa exige tempo, dinheiro e energia emocional. Muita gente simplesmente não consegue.”
Felipe viu várias bandas contemporâneas à Glue Trip encerrarem atividades ao longo dos anos. “Não é falta de talento. É desgaste. A vida vai chegando, as prioridades mudam, e nem todo mundo consegue sustentar um projeto coletivo por tanto tempo.”
A mudança para São Paulo, anos depois, não resolveu todos os problemas, mas reconfigurou o horizonte. “São Paulo não é fácil, mas é um lugar onde as coisas se cruzam”, diz Lucas. “Você encontra pessoas, ideias, oportunidades. A banda passou a existir de outra forma”, completa.
Essa nova fase também coincidiu com transformações internas. A Glue Trip de hoje não tem exatamente a mesma formação que lançou o disco de 2015 – e isso não é tratado como ruptura, mas como continuidade. Os integrantes que chegaram depois carregam uma relação afetiva com a banda que antecede a entrada oficial no grupo.
João Boaventura (piano elétrico), fala da Glue Trip como algo que já fazia parte da sua escuta muito antes de dividir o palco com os outros integrantes. “Eu conheci a banda como ouvinte. ‘Elbow Pain’ já era uma música importante pra mim. Aquela sensação de suspensão, de paisagem… era algo que me atravessava.”
Entrar na banda, segundo ele, significou mais do que aprender repertório. “Foi entender um tipo de sensibilidade. A Glue nunca foi sobre virtuosismo ou impacto imediato. É sobre clima, sobre espaço. Isso influencia tudo: como eu penso o baixo, como eu penso o silêncio.”
Essa percepção é compartilhada por Pedro Lacerda, o integrante mais recente da formação – e o mais jovem também –, que assumiu a bateria. Pedro descreve sua relação com a Glue Trip como algo quase visual. “Antes de tocar, eu já associava o som da banda a imagens. Cores, movimento lento, água, luz.”
Para ele, o desafio de entrar no grupo foi compreender que a bateria, ali, não ocupa um lugar tradicional. “Não é sobre marcar tempo de forma óbvia. É sobre textura. A bateria também cria atmosfera.”
Lacerda percebe uma diferença clara entre a Glue Trip que o impactou como ouvinte e a banda que existe hoje. “A psicodelia continua, o som de praia continua, mas agora existe mais consciência do que está sendo feito. É um som mais amadurecido, menos ingênuo, no bom sentido.”
Lucas concorda que o tempo transformou a banda. “Não são mais as mesmas pessoas, então a música também não é. Mas existe um fio condutor muito claro. Quando a gente toca músicas antigas, elas ainda fazem sentido”.
Esse fio é justamente o que sustenta a ideia de um show que percorre toda a trajetória da banda – do início mais etéreo e despretensioso até os trabalhos mais recentes, marcados por arranjos mais densos e uma escuta coletiva mais afiada. Fora das falas, o grupo reconhece esse momento como uma espécie de balanço: olhar para trás sem nostalgia paralisante, e para frente sem promessas vazias.
Talvez por isso a banda tenha sobrevivido. Não por insistência, mas por adaptação silenciosa. Cada integrante parece ter consciência de que a Glue Trip existe enquanto houver sentido em se encontrar nesse som específico. “É um acordo implícito”, resume Thiago Leal, baixista. “Enquanto a música fizer a gente se reconhecer, a banda continua.”, complementa.
No centro de tudo, Lucas observa com certa distância o percurso da banda que criou quase sem perceber. “Eu nunca pensei na Glue como um projeto que precisava durar dez, quinze anos. Mas, quando olho agora, vejo que ela acompanhou a minha vida inteira adulta. Isso é muito forte.”
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