Review | Deathless: The Hero Quest é um jogo de construção de baralho muito competente

Jogos de construção de baralho, os famosos deck buiders não são novidades, mas poucos conseguem se destacar apenas pela ambientação. Deathless: The Hero Quest tenta fazer isso ao beber direto do folclore eslavo, algo ainda raro no gênero.

Desenvolvido pela 1C Game Studios, o jogo entrega uma arte desenhada à mão em uma estrutura roguelike para se firmar como mais do que “mais um clone de Slay the Spire”. E funciona… até certo ponto. Lançado no dia 16 de outubro para PlayStation 5, o título está disponível também para PC, Xbox e Switch.

Ficou querendo saber mais? Então fica comigo nesta review de Deathless The Hero Quest e aqui já vai o primeiro deslize: o game não tem localização para o português do Brasil.

Esta review de Deathless: The Hero Quest foi feita em um PlayStation 5 base com um código cedido pela Fulqrum Publishing

Uma jornada antiga contada ao redor da fogueira

Deathless se passa em uma Rússia mítica, povoada por criaturas do folclore eslavo e marcada por uma atmosfera que parece saída de uma história contada à luz de uma fogueira.

Você assume o papel de um dos quatro bogatyrs, heróis lendários que atravessam Belosvet enfrentando monstros e eventos narrativos até chegar ao confronto com Koschey, o Imortal.

A história existe, mas não é o foco. Os eventos narrativos surgem de forma fragmentada, muitas vezes desconectados do combate seguinte. Buscar um novelo de lã ou ouvir rumores em uma vila raramente tem impacto direto nas batalhas.

Ainda assim, isso não chega a ser um problema. O jogo entende que está contando uma lenda, não um épico detalhado. O contexto serve mais para ambientar do que para conduzir a experiência.

E, nesse papel, ele funciona bem. A mitologia eslava dá personalidade ao mundo, aos inimigos e até às escolhas de arte. Mesmo sem aprofundamento extremo, o clima é consistente e envolvente.

Quatro heróis, quatro formas de jogar

Deathless oferece quatro personagens jogáveis, cada um com identidade mecânica bem definida desde o início:

  • Varvara, a Bela: Usa mobilidade e posicionamento como arma, confundindo inimigos ao se mover pelo campo de batalha.
  • Vasilisa, a Sábia: Uma feiticeira focada em efeitos mágicos e controle, com cartas que interagem bem entre si.
  • Dobrynya Nikitich: Um guerreiro defensivo, cuja força cresce conforme ele evita dano e constrói armadura.
  • Alyosha: Mais agressivo, capaz de causar dano alto enquanto manipula e remove cartas do próprio baralho.

Cada herói começa com uma Relíquia única, que dita o ritmo inicial da run e influencia diretamente o tipo de deck que você vai construir. Essa variedade é um dos grandes méritos do jogo, já que muda bastante como cada partida se desenrola.

Combate punitivo

O combate segue a estrutura clássica dos deckbuilders: energia limitada por turno, cartas de ataque, defesa e habilidades, além de inimigos que revelam suas intenções antes de agir. Isso permite planejamento e leitura de risco, algo essencial aqui, já que o jogo não é exatamente generoso.

Mesmo na dificuldade recomendada, Deathless vai exigir bastante habilidade. O posicionamento dos inimigos importa e alguns adversários avançam enquanto atacam. Saber quem eliminar primeiro total diferença.

A mecânica de cadáveres

Um dos sistemas mais interessantes é a mecânica de cadáveres. Inimigos derrotados permanecem no campo por alguns turnos, perdendo vida gradualmente até desaparecer. Alguns heróis podem explorar esses corpos, outros precisam lidar com eles como obstáculos ou escudos involuntários.

Isso adiciona uma camada tática inesperada e obriga o jogador a pensar além do simples “derrote tudo o mais rápido possível”.

O caminho até Koschey

O mapa segue o modelo tradicional de caminhos ramificados, com ícones claros indicando eventos, batalhas, lojas e perigos. O jogo é bastante transparente em suas informações, usando cores e símbolos para indicar cartas jogáveis e possíveis consequências.

Conforme você joga, o nível de Prestígio do herói aumenta, liberando novas cartas e desafios opcionais. Há motivos para continuar jogando mesmo após algumas derrotas, embora o progresso até o chefe final seja longo.

Para enfrentar Koschey, é necessário explorar completamente o caminho de cada herói e derrotar chefes intermediários que liberam Relíquias Lendárias. E sim, isso exige tempo e paciência.

Deathless ou Slay the Spire?

Apesar de toda a base sólida, Deathless é claramente inspirado demais em Slay the Spire. O sistema de energia, o mapa, as lojas e até a lógica de progressão são familiares demais para quem já conhece o gênero. Isso não torna o jogo ruim, mas fica explicito que faltam ideias e, talvez, até orçamento.

Builds “apelonas” quebram o game

Não demorou muito para perceber que o jogo pode ser “quebrado”. Em poucas runs, já é possível montar decks com energia infinita ou loops praticamente imparáveis. O problema é que isso não vem de decisões criativas ou upgrades inteligentes, mas de falhas no design de certos personagens.

As melhorias de cartas são, em geral, superficiais: pequenos aumentos de dano, defesa ou redução de custo. Elas raramente transformam um baralho. Quando algo poderoso acontece, é porque você explorou uma brecha, não porque construiu algo ao longo da run.

E quanto aos chefes?

O jogo conta com mais de 15 chefes, muitos deles exigentes e com padrões rápidos. No final, a dificuldade sobe bastante, especialmente contra Koschey, que parece quase um jogo à parte.

Existem opções de acessibilidade interessantes, como enfraquecer chefes após derrotas consecutivas, tornar inimigos comuns passivos ou ativar um escudo temporário ao ficar parado.

Arte que carrega o jogo nas costas

Visualmente, Deathless é excelente. O estilo desenhado à mão, as animações detalhadas e o design das criaturas eslavas são os grandes destaques da experiência.

A trilha sonora cumpre seu papel, mas não se destaca. Já os efeitos sonoros funcionam bem, embora muitos se resumam a impactos e grunhidos dos inimigos.

Deathless: The Hero Quest vale a pena?

Finalizo esta review de Deathless: The Hero Quest dizendo que ele é um jogo de construção de baralho competente com personalidade visual forte. Ele divertee oferece variedade suficiente para várias horas de jogo.

Para quem está começando no gênero, é uma ótima porta de entrada. Para veteranos, porém, ele revela rapidamente seus limites. Falta aquele algo a mais que transforma uma boa base em algo realmente memorável.

Ainda assim, é difícil recomendar para quem não domina outra língua que não seja o português. Afinal, é complicado jogar qualquer deck builder sem entender o que determinadas cartas podem fazer.

Entretanto, vale a pena dar uma chance ao título, seja pela arte, pela mitologia eslava ou simplesmente pela vontade de quebrar o jogo e rir disso depois.

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Apaixonado por games, filmes, séries, músicas, HQ's e por cachorros. Jogos desafiadores são meus preferidos. Jogo, assisto, ouço, leio e, às vezes, exerço minha profissão de professor.