Quase 20 anos depois, The Black Parade continua a desfilar

Era dia 20 de outubro de 2006 quando o My Chemical Romance mudava a história do rock alternativo com o lançamento do álbum de ópera rock (disco musical com narrativa) The Black Parade. Um disco que conta a história de um jovem homem à beira da morte. Apesar de abordar um tema pesado, o trabalho se tornou um símbolo de uma geração que fez parte do movimento emo – embora a própria banda não se identifique como parte dessa “bolha”.

(Imagem: Reprodução/YouTube: My Chemical Romance)

Em comemoração, a banda está em uma turnê especial que passa pelo Brasil nesta quinta-feira (5) e na sexta (6), ambas apresentações em São Paulo. Neste novo show, o enredo já conhecido do álbum ganha um novo significado. O que antes era um hino ao fim da vida ganhou um significado político, alinhado ao cenário global do presente.

Entretanto, o caminho até o sucesso e ressignificação de The Black Parade foi marcado por desafios e momentos difíceis para a banda de New Jersey (EUA), formada por Gerard Way (vocal), Frank Iero (guitarra rítmica), Ray Toro (guitarra solo) e Mikey Way (baixo).

Uma história trágica

O enredo original gira em torno do personagem The Patient (O Paciente), um jovem que, ao longo das 13 faixas do disco, vive seus últimos dias de vida por conta de um câncer terminal. A álbum começa coma canção “The End.” com o protagonista já ciente de sua doença. Logo em seguida, em “Dead!” seu estado piora, ele sofre uma parada cardíaca, é revivido mas recebe a notícia que seu corpo não aguentará mais que duas semanas. 

O personagem The Patient, do álbum The Back Parade do My Chemical Romance, segura a mão de uma enfermeira em seu leito de morte
O Paciente aparece em seu leito de morte no clipe da faixa “Welcome To The Black Parade”
(Imagem: Reprodução/YouTube: My Chemical Romance)

A partir deste ponto O Paciente passa a refletir na música “This Is How I Disappear” sobre sua vida terrena, em como ela foi desperdiçada por não deixar para trás nada que o faça ser lembrado. Nesse ritmo, emenda com “The Sharpest Lives” quando lembra de sua vida desregrada, hedonista e sem propósito. 

O ponto principal da narrativa é a faixa épica “Welcome To The Black Parade”, em que o protagonista imagina a morte vindo buscá-lo na forma de sua lembrança mais feliz, um desfile de uma banda militar que assistiu ao lado de seu pai na infância.

O videoclipe da canção mostra os últimos momentos da vida d’O Paciente no hospital, até sua morte quando atravessa para o mundo dos mortos e é recebido pela banda que comanda um desfile fúnebre. 

Em seguida, a balada “I Don’t Love You” relembra um rompimento amoroso. A letra aborda um relacionamento que não deu certo e se tornou mais um dos arrependimentos do personagem em seu leito de morte.

A direção muda drasticamente com a enérgica “House of Wolves” quando O Paciente entra em estado de delírio e se imagina seu juízo final quando será acusado e condenado por seu estilo de vida nesta Terra.  

“Cancer” entra para ser um dos momentos mais crus do álbum, quando o jovem recobra os sentidos e aceita as consequências de sua doença e entende que será difícil deixar essa vida. 

O momento é abruptamente interrompido por “Mama”, que é possivelmente uma das faixas mais bem produzidas do álbum. Em clima de teatro musical, O Paciente enfrenta os sentimentos de sua mãe, uma mulher decepcionada por ver a vida de seu filho acabar sem que ela tenha servido a algum propósito. Por outro lado, ele mesmo já aceitou sua condenação e chega a debochar da situação. 

A faixa ainda conta com a participação da cantora e atriz Liza Minelli.

Na balada “Sleep” a angústia do personagem se aperta. Com a morte se aproximando, ele encontra dificuldades para dormir pois sabe que existe a chance de não acordar novamente. 

A famosa “Teenagers” é outra canção que leva O Paciente ao seu passado. Aqui ele relembra a fase da adolescência e como ele não era o tipo de criança que se encaixava nos grupos sociais da escola. 

“Disenchanted” representa o momento em que o personagem principal aceita seu destino. Aqui ele para de revirar o passado e encara o presente consciente de que sua morte se aproxima. 

Por fim, com “Famous Last Words” encerra a história. O Paciente admite que não tem mais medo de continuar vivendo pelo tempo que lhe resta e entende que o mais importante é deixar para trás algo que o faça ser lembrado. 

Ainda existe a faixa oculta “Blood”. A música se resume a Gerard cantando do ponto de vista do personagem sobre como ele odeia os procedimentos médicos do hospital. É quase como as cenas pós-créditos em filmes de super-heróis, inseridas ali para causar alívio cômico. 

Drama nos bastidores

A energia sombria do disco não se limitou à ficção. As gravações do álbum foram conturbadas para a banda, que enfrentou desde pressão criativa até eventos sobrenaturais no local onde as músicas foram criadas.

Durante uma entrevista ao podcast My Turning Point, Gerard Way, vocalista da banda, contou que, para criar The Black Parade, o, até então, quinteto, se isolou na Paramour Mansion, em Los Angeles. O lugar é uma antiga mansão que pertenceu a uma herdeira do petróleo no século XX. A casa, com fama de mal-assombrada, funciona atualmente como estúdio de gravação e locação para filmes de Hollywood.

Frank Iero, já falou sobre como Gerard se envolveu fortemente com a narrativa fúnebre e como isso o consumiu até o limite durante o processo criativo. Em relato para um especial da revista britânica Kerrang!, ele contou que o líder espalhou pelas paredes do local diversos papéis com trechos de músicas e palavras-chave relacionadas ao tema central do The Black Parade, o que, em sua visão, era um sinal de como o vocalista estava imerso demais naquele mundo.

Gerard confirmou que estava em um estado mental ruim durante o desenvolvimento da obra:

Não foi a época mais feliz. Eu estava extremamente tenso. A banda tinha ficado muito famosa, então havia muita pressão.

Além disso, outros integrantes também passaram por maus momentos durante essa era. O ex-baterista Bob Bryar, falecido em 2024, sofreu queimaduras na perna durante a gravação do clipe de “Famous Last Words”. Já Mikey, baixista e irmão caçula de Gerard, precisou se afastar do trabalho por um breve período para tratar a depressão.

Ou seja, a obra que narra os últimos dias de um personagem fictício também ficou marcada como um período em que seus criadores lidavam, na vida real, com exaustão, pressão e fragilidade emocional.

A recepção do disco

Capa do disco “The Black Parade” (Imagem: Divulgação/Warner Music)

O álbum foi bem-sucedido desde sua estreia. Alcançou o 2º lugar no chart da Billboard 200, com a marca de 240 mil cópias vendidas em sua primeira semana, ficando atrás apenas da trilha sonora da série do Disney Channel “Hannah Montana”.

O single Welcome to The Black Parade também obteve bom desempenho, chegando ao top 10 da Billboard Hot 100.

A crítica especializada recebeu bem o álbum. A Alternative Press declarou o disco como “um cartão de visitas estrondoso” do My Chemical Romance. Já a Rolling Stone definiu o trabalho como um dos melhores discos da década de setenta lançados em 2006, por conta de suas referências.

Por outro lado, alguns fãs e veículos não enxergaram The Black Parade de maneira positiva. Uma parcela do público não se identificou com o estilo conceitual do disco e estava mais habituada à energia suja, quase punk, de “Three Cheers for Sweet Revenge” e “I Brought”You My Bullets, You Brought Me Your Love”, álbuns anteriores da banda, lançados respectivamente em 2004 e 2002.

Já na imprensa, o jornal britânico The Guardian chamou a obra de um retrato exagerado, no qual a banda se colocava em uma posição muito mais séria do que deveria ser.

Apesar das controvérsias, The Black Parade tornou-se um álbum à frente de seu tempo, capaz de ganhar novos significados quase duas décadas depois.

Long Live: The Black Parade

Quase 20 anos depois, em 2025, a banda voltou a performar o álbum completo em uma turnê comemorativa intitulada Long Live: The Black Parade. O espetáculo é um show teatral com uma temática diferente da narrativa original.

A banda posa ao lado de personagens ficitícios para a divulgação da turnê “Long Live: The Black Parade”
(Imagem: Divulgação/Instagram @mychemicalromance)

No espetáculo, o My Chemical Romance se torna a banda militar de um país ditatorial chamado Draag. Os músicos servem como uma espécie de entretenimento ao estilo “pão e circo” para os cidadãos da nação fictícia. Gerard Way assume o papel de um general que, ao longo da história, se revolta contra o governo e seu líder. Durante a apresentação, atores surgem junto da banda para dar vida aos personagens da trama.

A banda enfrentou algumas polêmicas por conta do conceito escolhido para o show. Um exemplo, é o momento em que acontece uma eleição. Na cena, o público deve decidir se os personagens traidores da ditadura de Draag devem continuar vivendo. A questão é que, mesmo que o público vote contra, a encenação da execução acontece da mesma forma. A cena demonstra a tirania de um governo que finge dar voz às pessoas, mas que, no fim das contas, extermina quaisquer opositores.

Alguns fãs consideraram a cena muito agressiva e política demais e, então, ameaçaram vender seus ingressos. Porém, isso não intimidou o My Chemical Romance, que seguiu com o roteiro em todos os shows.

20 anos de The Black Parade no Brasil

Para 2026, a banda fez uma versão atualizada da lore para a etapa latino-americana da turnê, iniciada em janeiro de 2026. Nessa nova versão, Draag se apresenta ainda mais tecnológica, com câmeras que vigiam os cidadãos a todo momento. Fãs interpretaram a mudança como uma referência ao livro “1984”, de George Orwell. Na obra as câmeras do chamado “Grande Irmão”, um líder autoritário vigiam os cidadãos constantemente. Assim, a banda militar, que antes estava livre, agora aparece internada em um hospital psiquiátrico/prisão. No local, médicos e agentes do governo forçam o grupo a entreter a população da nação fictícia.

Durante o show, a banda é observada por uma grande câmera em formato de olho em referência ao livro “1984”
(Imagem: Divulgação/Instagram @mychemicalromance)

Inclusive, essa versão atualizada é a que o público brasileiro deverá assistir a partir desta quinta, quando a banda se apresentará no Allianz Parque, na capital paulista. Os shows marcam o retorno da banda no Brasil desde 2008, quando se apresentaram com a turnê original do álbum The Black Parade.

Ainda há ingressos disponíveis no site da Eventim

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Jornalista | Provavelmente passo tempo demais consumindo conteúdos sobre grupos de K-pop e bandas de Nu Metal.