Marty Mauser e a gênese do sonho (e da dívida) Baby Boomer
A24/Divulgação

Marty Mauser e a gênese do sonho (e da dívida) Baby Boomer

A primeira cena de Marty Supreme não apareceu em uma tela, mas no céu de Los Angeles. Macacões assinados, sessões secretas, celebridades cruzadas como se pertencessem ao mesmo ecossistema simbólico. Antes mesmo de qualquer enquadramento, o filme já existia como acontecimento.

Esse alvoroço todo, longe de ser só barulho de marketing, antecipa o próprio argumento do longa de Josh Safdie. O diretor nunca esteve interessado em fazer um filme sobre um jogador de pingue-pongue dos anos 50. Ele estava montando o palco para uma pergunta mais profunda: como um país inventa seus heróis? E qual o preço de acreditar na própria lenda? No centro desse furacão, está Marty Mauser, interpretado por Timothée Chalamet. Mas a sombra que paira sobre sua jornada, moldando cada escolha e cada sonho, é a da geração que estava por nascer no rastro de sua história: os Baby Boomers.

Para entender o que Marty Supreme está fazendo, é preciso explicar o que significa essa geração. Baby Boomers são os nascidos aproximadamente entre 1946 e 1964, filhos diretos do pós-guerra, do crescimento econômico acelerado, da expansão suburbana e do fortalecimento do capitalismo americano como ideologia global. Eles não apenas herdaram um “país vitorioso”, mas foram educados dentro da narrativa de que esse país era o destino final da história. Segurança material, progresso linear, ascensão social pelo mérito e pela ambição individual não eram promessas, mas expectativas normativas. O sonho americano, para eles, não só parecia alcançável, era quase inevitável.

Safdie, com a intuição de um antropólogo cultural, coloca o dedo na ferida genética. A frase do diretor – “um sonho precisa terminar para outro começar” – em entrevista para a Dazed Digital, é o código genético não apenas do filme, mas de uma linhagem. O sonho de Marty, seu propósito delirante de ser o maior do mundo em um esporte que não confere riqueza nem status duradouro, é a semente. É um sonho puro, quase ingênuo em sua obsessão. Ele luta contra um “destino predeterminado”, como Safdie diz na entrevista, buscando a sensação, e não o título. Mas o mundo ao seu redor, aquele pós-guerra em ebulição, já está a postos para instrumentalizar esse sonho.

Milton Rockwell, o magnata das canetas interpretado por Kevin O’Leary, é a figura chave. Ele é a ponte entre a paixão crua de Marty e o capitalismo corporativo que definirá a era Boomer. Rockwell não patrocina um atleta; ele compra um mito para vender canetas. A partida final não é um campeonato esportivo, mas um evento promocional. Marty, o sonhador, aprende rapidamente a ser o vendedor de seu próprio sonho. Ele internaliza a lição máxima que os Boomers fariam de sua religião secular: você precisa se vender. Cada momento é do-or-die (fazer ou morrer). A essência deve ser destilada em ícone, a vida em narrativa de vendas.

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Marty Mauser é o primeiro produto da monocultura que os Boomers iriam perfeiçoar. Sua luta não é pela excelência, mas pelo reconhecimento, pela transformação de si em espetáculo. Safdie localiza no pós-guerra, na exportação do individualismo americano para o Japão, o início dessa “forma mais sutil de colonialismo”. Marty e seu rival japonês Endo carregam nas costas, um o peso de 85 milhões de almas, o outro o vazio de uma solidão típica do self-made man (homem que acredita que o sucesso vem de seu próprio esforço). Essa é a grandeza trágica e solitária que o filme captura: o sonho Boomer, em sua origem, é um projeto profundamente isolado. “É tudo sobre você. E se você não acreditar nisso, ninguém vai acreditar”, reflete Safdie na entrevista.

Chalamet, astro da Geração Z, interpretando o arquétipo do proto-Boomer, é uma camada de metalinguagem brilhante. Parte dos seus fãs, que carregam a esperança da cinefilia moderna, veneram uma performance que critica a própria noção de culto à personalidade e ao sucesso espetacular que sua geração herdou. Marty Mauser não é cool, ele é uma criança brincando de adulto, a antítese do desprendimento irônico. Chalamet captura não a pose do vencedor, mas o suor da conquista. Ele é a encarnação da ânsia, do “grande sentimento” que Safdie quis preservar, antes que ele fosse embalado e vendido pelas máquinas de marketing que os Boomers criariam.

Marty Mauser e a gênese do sonho (e da dívida) Baby Boomer
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E o que os Boomers fizeram com esse sonho que Marty tão visceralmente vive? Eles o institucionalizaram. Transformaram a autoinvenção em terapia, a ambição em MBA (Master in Business Administration), a venda do mito pessoal em indústria (das mídias às redes sociais, cujos alicerces foram criados por mentes Boomer). Eles colheram os frutos do crescimento econômico pós-guerra e, em muitos casos, legaram às gerações seguintes – os Millennials e a Geração Z, o próprio público-alvo do hype do filme – um mundo de desigualdade acentuada, crise climática e o peso esmagador de expectativas de sucesso sem a estrutura para alcançá-las. O sonho de Marty, na prática Boomer, tornou-se uma dívida. A promessa de que qualquer um poderia ser tudo acabou por criar uma angústia de desempenho coletiva.

O final do filme, aquele momento que Safdie diz ser “complicado” e “como passar um fio muito fino pela agulha”, é a chave. Marty triunfa? Sim, de uma forma. Ele honra seu sonho? Também. Mas há aquela pergunta pairando: “É só isso?”. Porque o sonho, uma vez realizado, deixa um vazio. O propósito se esvai. A cena final, com Marty e o bebê, é a passagem de bastão. Um sonho (o da grandeza individual, atlética, narcísica) termina. Outro (o da paternidade, do legado familiar, de uma responsabilidade que não é só sobre si) começa. É uma concessão melancólica à continuidade, um reconhecimento de que a saga do indivíduo, por mais espetacular, é um ciclo finito.

Marty Supreme, portanto, é um retrato da fundação mitológica do mundo moderno. Marty Mauser é o avô desconhecido da ansiedade contemporânea. Ele vive, com uma intensidade quase dolorosa, o momento primordial em que a busca por significado pessoal colidiu com a máquina de comercialização em massa. Safdie, ao usar a estética do espetáculo máximo – os planos grandiosos, o elenco estelar, a trilha sonora anacrônica que embaralha as décadas (os anos 1980 de Reagan, outro revival Boomer) –, não celebra esse mecanismo. Ele o disseca. Mostra sua atração magnética, seu brilho ofuscante e, por fim, sua solidão essencial.

Entender Marty Mauser é compreender a semente da cultura que viria a se formar a partir dele. É reconhecer que o impulso de se tornar lenda, de hustlar, de transformar o próprio eu em marca, não surgiu com os influenciadores digitais. Ele foi forjado nas mesas de pingue-pongue de um porão nova-iorquino dos anos 1950, por um jovem convencido de que poderia vencer o jogo sozinho. O filme de Safdie é a crônica desse primeiro e decisivo saque. E o silêncio que se segue ao quique da bola soa como o prenúncio do mundo que viria depois – um mundo ainda tentando decidir se aquilo foi um gesto de genialidade ou o início de uma falência coletiva.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.