Crítica | Cringe e encantadora, A Sapatona Galáctica é uma animação queer fora da órbita padrão
Synapse Distribution/Divulgação

Crítica | Cringe e encantadora, A Sapatona Galáctica é uma animação queer fora da órbita padrão

Entrar no universo de A Sapatona Galáctica é como revisitar lembranças da infância com uma perspectiva adulta. Desde os primeiros minutos, a animação de Emma Hough Hobbs e Leela Varghese estabelece o tom: cores vibrantes, traços simples e uma estética que lembra séries como “Hora de Aventura” ou “Midnight Gospel”, mas com conteúdo claramente voltado para adultos. O filme não subestima seu público; ele celebra a comunidade queer, apresentando personagens e situações raramente vistas no cinema tradicional. Felizmente, o que poderia se limitar a um acerto visual se transforma em uma forma de refletir sobre identidade, sexualidade e representatividade, sem recorrer a explicações explícitas.

A protagonista, Saira, princesinha espacial do planeta Clitópolis, dublada por Shabana Azeez, é o eixo emocional do filme. O roteiro constrói sua trajetória de maneira bastante direta: o romance com Kiki (Bernie Van Tiel), sua primeira paixão, e a dor do término desencadeiam uma jornada de autodescoberta que dialoga com a experiência queer de forma íntima e irreverente.

A forma como a ansiedade da protagonista se materializa em um antagonista simbólico é um recurso narrativo interessante, que traduz sentimentos em conflito visível, mesclando humor e drama de forma que não se vê com frequência em animações adultas. A alternância entre piadas rápidas e momentos dramáticos cria um ritmo que sustenta o interesse do espectador, mas nem sempre acerta no timing — algumas gags, parecem deslocadas e soam como tentativas de viralidade mais do que elementos narrativos orgânicos.

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Visualmente, A Sapatona Galáctica se destaca pelo trabalho da direção de arte e da fotografia. As diretoras criam cenários que refletem o estado emocional dos personagens: a ambientação do planeta Clitópolis, com seu bar punk-rock e o design de Blade, a drag queen moralmente ambígua, é caótica e vibrante; já os espaços mais íntimos, como o quarto de Saira, equilibram cores suaves com traços minimalistas, reforçando o contraste entre ludicidade e maturidade do conteúdo.

A fotografia da animação utiliza enquadramentos que lembram cinema de aventura infantojuvenil – que, aqui no Brasil, ganhou o apelido e “filme sessão da tarde” –, explorando profundidade de campo e perspectiva de forma que o movimento de câmera –mesmo animado –cria sensação de espaço tridimensional e dinâmica visual. Cada quadro parece pensado para balancear a simplicidade do traço com o excesso narrativo, especialmente nas cenas que lidam com sexualidade, humor adulto e comentários sociais, transformando o exagero em instrumento expressivo.

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Outro ponto forte é a montagem. O filme alterna sequências de humor rápido com trechos contemplativos da protagonista em introspecção, construindo um fluxo que consegue manter a atenção sem sobrecarregar o espectador.

Ainda assim, alguns momentos mais longos de diálogo ou de observação da protagonista sofrem com excesso de repetição, ou ritmo irregular, o que impede que o impacto dramático seja pleno em certos trechos. A escolha das músicas – ainda que não detalhada no texto original – sugere alinhamento com a estética pop e queer, reforçando o tom irreverente e autorreferente, e ajudando a inserir o público na cadência narrativa do filme.

O roteiro, assinado pelas próprias diretoras, tem méritos e limites. A obra se afasta do moralismo habitual, apresentando personagens queer que não são nem vítimas, nem ícones de virtude absoluta, mas indivíduos complexos, com desejos, frustrações e inseguranças. A presença de humor sexual, de piadas sobre heterossexuais e sobre o domínio feminino no planeta, e de gags surreais –como a existência de um animal de estimação representando uma pequena vagina ou brincadeiras sobre cantores pop – reforça a originalidade do longa. Por outro lado, o excesso de referências e a sobrecarga de conteúdo pop em alguns momentos podem distrair mais do que reforçar a mensagem, tornando certas cenas cansativas.

O valor do filme, no entanto, está na sua representatividade e no cuidado em criar um mundo autorreferente. Em Clitópolis, homens cis brancos são retratados de forma caricatural, enquanto personagens LGBQTIA+ ocupam papéis centrais, complexos e multifacetados. Essa inversão de códigos tradicionais funciona como crítica e celebração, bem como apresenta uma ideia de confronto diante uma parte dos espectadores, que não entenderão ou aceitarão a proposta, sobretudo quem busca narrativas mais convencionais.

Crítica | Cringe e encantadora, A Sapatona Galáctica é uma animação queer fora da órbita padrão
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Em termos de animação, a simplicidade do traço e o design visual contribuem para a fluidez e o ritmo da narrativa. Os cenários coloridos e as expressões exageradas reforçam o humor e a ludicidade, enquanto a direção de Hobbs e Varghese equilibra com competência as cenas de romance, conflito e absurdos pop. A obra se aproxima de uma estética experimental, próxima de séries cult, mas sem perder a clareza narrativa necessária para se comunicar com seu público. É uma demonstração de como o cinema animado adulto ainda pode ser inventivo e provocar reflexão, mesmo quando abraça o nonsense e a crítica social.

A Sapatona Galáctica funciona mais como manifesto do que como obra. Como uma boa ficção científica, ela existe para abrir espaço, nesse caso, para personagens queer com autonomia narrativa, humor referencial e imaginação visual, mesmo que nem todos os elementos se sustentem com igual eficiência. Muito mais do que seu poder representativa, o filme se apresenta como uma animação adulta com potencial para ir além da sátira e da caricatura moralista. É um convite ao público para rir, se reconhecer e, por vezes, se incomodar – tudo em meio a uma galáxia colorida, caótica e surpreendentemente acolhedora.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.