Vocalista Spencer Charnas, do Ice Nine Kills, cercado por personagens do cinema de terror.

Ice Nine Kills | Como os filmes de terror moldaram o som da banda

O Ice Nine Kills é uma banda de Metalcore de Boston, Massachusetts e hoje é conhecida por sua teatralidade e autenticidade, mas nem sempre foi a máquina de referências cinematográficas que conhecemos hoje. Em seus primeiros registros, como Last Chance to Make Amends (2006) e Safe Is Just a Shadow (2010), a banda ainda tocava post-hardcore e o metal alternativo de forma convencional. Naquele momento, o grupo buscava identidade por meio de letras e energia crua, típica da cena na época.

Todavia, ainda não existia um conceito visual consolidado que conduzisse cada composição, era, acima de tudo, uma banda tentando se destacar em meio a sonoridades semelhantes. A transformação começou a ganhar forma em The Predator Becomes the Prey (2014). Porém, foi em 2015 que Spencer Charnas consolidou a proposta narrativa com Every Trick in the Book, usando a música como adaptação literária e dramática.

Every Trick in the Book: Clássicos literários e o horror da vida real

Antes de mergulhar nos ícones do cinema, o Ice Nine Kills provou que o horror não depende do sobrenatural para impactar. No álbum de 2015, a banda evidenciou que eventos históricos podem ser tão perturbadores quanto qualquer ficção. Um dos momentos mais intensos é “The People in the Attic”, inspirada em O Diário de Anne Frank.

Nessa faixa, o pesadelo deixa de ser uma figura mascarada. Ele se transforma na angústia concreta de um período marcado por perseguição e sobrevivência durante o Holocausto. Consequentemente, ao retratar o confinamento no sótão em Amsterdã, o grupo amplia o conceito de horror para além do entretenimento, explorando muita tensão emocional. Portanto, esse foi o ponto de virada que consolidou o uso do terror e do medo como ferramenta, seja ele histórico ou imaginário.

Além disso, o álbum é baseado em outras obras literárias clássicas e contemporâneas. Cada uma das 10 faixas é inspirada em um livro diferente. Entre eles estão A Revolução dos Bichos (The Nature of the Beast), Drácula, de Bram Stoker (Bloodbath & Beyond), e Carrie, de Stephen King (Hell in the Hallways). Explorando assim, temas de suspense e drama.

The Silver Scream: o cinema como linguagem sonora

A transição definitiva ocorreu em The Silver Scream (2018). Se antes o grupo adaptava literatura, agora centraliza seu som no cinema. Portanto, com a base conceitual estabelecida, o Ice Nine Kills converte clássicos do terror em composições estruturadas por atmosfera, dinâmica e construção técnica. Dessa maneira, o álbum não apenas referencia filmes, mas, ele os traduz em teatralidade musical.

Em “The American Nightmare“, inspirada em A Hora do Pesadelo, a alternância entre pura melodia e explosões agressivas recria a invasão de Freddy Krueger durante o sono. Seguindo essa mesma imersão, “Thank God It’s Friday” utiliza o icônico sussurro onomatopeico “ki-ki-ki, ma-ma-ma”, efeito de eco das sílabas de “Kill” e “Mommy” criado por Harry Manfredini, para construir um breakdown pesado, colocando o ouvinte diretamente em Crystal Lake.

“Stabbing in the Dark” ecoa a tensão minimalista característica da trilha de Halloween, enquanto “IT Is the End”, encerra o álbum/espetáculo incorporando instrumentos de sopro que ampliam a atmosfera macabra e circense de Pennywise, em It: A Coisa.

Expansão do conceito e afirmação de identidade

O projeto da banda deu tão certo que atingiu um novo patamar em The Silver Scream 2: Welcome to Horrorwood (2021). Aqui, o que podemos chamar de “mimetismo sonoro” se intensifica. Em “The Shower Scene”, as guitarras reproduzem a sensação cortante dos violinos de Psicose, já em “Assault & Batteries”, timbres distorcidos de brinquedos dialogam diretamente com a brutalidade de Chucky. Desse modo, o INK expande sua atuação, construindo uma experiência que conta uma história ao unir música, narrativa e estética cinematográfica.

Hip To Be Scared e Meat & Greet: o terror da mente humana

Um exemplo muito interessante acontece em“Hip to Be Scared”, inspirada em Psicopata Americano. No clipe, Spencer Charnas recria a icônica cena em que Patrick Bateman dança antes de cometer o assassinato. A música mostra essa sequência teatral e alterna momentos irônicos e elegantes com explosões de peso típicas do metalcore. Isso reflete a dualidade entre a aparência sofisticada do personagem e sua brutalidade.

  • o psicopata americano

Já em “Meat & Greet” (2023), inspirada em O Silêncio dos Inocentes, Charnas recria vocalmente o som perturbador que Hannibal Lecter produz com a língua ao intimidar Clarice Starling. O detalhe técnico, inserido no breakdown, demonstra precisão criativa e domínio da linguagem audiovisual aplicada ao metalcore. Mais do que apenas coletâneas de músicas, os dois volumes de The Silver Scream criam uma lore própria, com Spencer interpretando um vilão que passeia por todos os enredos.

Além disso, nos shows, a banda também amplia esse universo. Máscaras e figurinos inspirados nos vilões de cada música surgem no palco, transformando as apresentações em pequenas encenações de que reforçam a narrativa das composições.

Da homenagem ao crossover oficial

A conexão com o audiovisual evoluiu de homenagem para colaboração direta. A banda lançou clipes inspirados em Matrix, com a música “The Great Unknown”, e no filme Coringa, com “The Laugh Track”, ampliando o diálogo com a cultura pop. Em “The Laugh Track”, no clímax da música, o vocalista incorpora uma risada macabra que é a marca registrada do vilão, transformando a performance vocal em arte de interpretação.

O Ice Nine Kills também integrou trilhas oficiais de franquias de terror. Em Terrifier 3 (2024), participou com a faixa “A Work of Art”. Já em Pânico 7 (2026), contribuiu com “Twisting The Knife”, reforçando sua presença no universo slasher contemporâneo. Contudo, há um detalhe interessante para os fãs. Quem divide os vocais na música é Mckenna Grace. A atriz também participa de Pânico 7 e atuou em Annabelle 3: De Volta para Casa, reforçando ainda mais a ponte entre cinema e música.

Ice Nine Kills também em HQ: expandindo a lore

Essa expansão narrativa também chegou aos quadrinhos com Ice Nine Kills: Inked in Blood. A obra aprofunda a lore de Spencer Charnas como um assassino em série dentro do universo fictício da banda e conecta os temas dos álbuns à estética dos quadrinhos clássicos de horror. Ao investir em literatura gráfica, o grupo reforça que sua identidade funciona como um ecossistema, em que cada música é apenas uma peça de um quebra-cabeça mais sombrio e interconectado.

Ink e seu “theatricore”

No fim, o Ice Nine Kills não apenas cria músicas sobre filmes de terror, ele adapta narrativas do cinema para uma estrutura estratégica, combinando metalcore, performance teatral e marketing. Desse modo, ao transformar referências do cinema em experiência auditiva imersiva, a banda consolida uma identidade sólida no cenário do rock pesado e redefine a maneira como trilhas e personagens podem ganhar nova vida através da música.

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Acredito que séries, filmes e rock são mais do que entretenimento, eles dizem muito sobre quem somos. Redatora, crítica e teorizadora, escrevo para provocar reflexão, compartilhar paixões e explorar o impacto da cultura pop na vida real.