Crítica | O Testamento de Ann Lee: sexo, dança e Deus
Searchlight Pictures/Divulgação

Crítica | O Testamento de Ann Lee: sexo, dança e Deus

Um filme que simplesmente acontece diante dos nossos olhos, como um ritual que você não entende completamente, mas sente. O Testamento de Ann Lee, dirigido por Mona Fastvold e Brady Corbet é um musical histórico que troca a segurança da narrativa linear por uma experiência quase sensorial. Não é exatamente o tipo de obra que segura a sua mão, mas é talvez aí que esteja o seu maior gesto de fé.

Logo de saída, a proposta fica clara: esqueça a biografia tradicional. Quem nos guia é a Irmã Mary, vivida por Thomasin McKenzie, narradora que parece menos interessada em preencher lacunas e mais em nos conduzir por estados de espírito. No centro está Ann Lee, interpretada por Amanda Seyfried, nascida em um 29 de fevereiro – detalhe que o filme faz questão de sublinhar.

A trajetória de Ann, por si, daria um drama convencional: um casamento opressivo com Abraham (Christopher Abbott), perdas irreparáveis com a morte dos filhos, e uma fé que cresce justamente onde tudo desmorona. Mas o filme recusa esse caminho mais óbvio. Em vez de dramatizar cada acontecimento, ele os organiza quase como verbetes – episódios que surgem, marcam e desaparecem, enquanto a música e a dança ocupam o espaço que o roteiro decide não preencher.

E que ocupação. A trilha de Daniel Blumberg e a coreografia de Celia Rowlson-Halll funcionam como a linguagem principal do longa. Há momentos em que vinte corpos se movem em perfeita sincronia, e ainda assim parecem guiados por um impulso íntimo, quase descontrolado. É curioso, quanto mais calculada a encenação, mais ela transmite espontaneidade. Dá vontade de acompanhar – nem que seja com um leve balançar de cabeça na poltrona.

Crítica | O Testamento de Ann Lee: sexo, dança e Deus
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A partir dessa decisão de linguagem a partir da corporalidade dos personagens – sobretudo de sua protagonista – é que o filme traz seu diálogo entre o sexo e a religião. É muito interessante que vemos todas as camadas desses temas correlacionados sem nada ser dito ou mostrado. É um filme que confia que suas mensagens podem ser lidas a partir da abordagem do musical.

Na metade americana da história, Ann já não é apenas personagem, ela vira mito. A tal “lenda”, como insiste a narração. E aqui o filme assume de vez sua natureza fragmentada, interessado menos em quem Ann foi e mais no que ela representa. Para alguns, uma líder espiritual; para outros, uma figura radical; para o longa, uma presença que dispensa tradução.

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Muito disso se sustenta na atuação de Seyfried. Esqueça qualquer memória de “Mamma Mia!” ou “Os Miseráveis”, aqui, ela troca leveza por densidade, doçura por uma convicção quase inquietante. Sua Ann não pede aprovação – e o filme tampouco. Ele não ironiza suas crenças, nem tenta validá-las didaticamente. Apenas as apresenta, como quem abre uma porta e deixa o espectador decidir se entra.

O elenco de apoio cumpre bem o papel de órbita. Lewis Pullman constrói um William de devoção silenciosa, espelhando a fé da irmã, enquanto Abbott entrega um marido que mistura frustração e brutalidade de forma extremamente desconfortável. São presenças que ancoram o filme quando ele ameaça se perder em sua própria abstração.

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Claro, essa abordagem tem seu preço. Em certos momentos, a narrativa parece escapar por entre os dedos, como se faltasse carne onde há apenas espírito. Mas talvez essa ausência seja deliberada – um convite (ou provocação) para que o espectador preencha os vazios com sua própria interpretação.

O Testamento de Ann Lee, definitivamente, não quer ser consensual. Não tem o apelo imediato de um musical mais tradicional, nem a estrutura reconfortante de uma cinebiografia clássica. O que oferece, em vez disso, é uma obra que acredita – com uma teimosia admirável – que imagem, som e movimento ainda podem dar conta do indizível.

E, goste você ou não, é difícil sair ileso de um filme que dança com tanta convicção sobre as próprias certezas.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.