A fita começa com uma festa de formatura. Adolescentes em vestidos longos e ternos mal-ajustados dançam sob uma iluminação pálida de ginásio. A câmera treme, perde o foco, enquadra um pé ou um pedaço de cortina – o tipo de imagem que habita a memória afetiva de qualquer família, mas que raramente cruza a soleira de um cinema. Estamos em Karabash, uma cidade encravada nos Urais, onde a fumaça das fundições de cobre se mistura à névoa do esquecimento geográfico. É nesse cenário que David Borenstein e Pavel Ilyich Talankin armam a armadilha silenciosa de Um Zé Ninguém Contra Putin. A força da obra não reside em trincheiras ou explosões, mas na contaminação lenta e quase invisível de um cotidiano que, de tão banal, se torna a matéria-prima mais aterradora da propaganda.
A fotografia, assinada pelo próprio Talankin em sua função dupla de cinegrafista escolar e personagem, abdica de qualquer lirismo. Não há busca pela imagem bela ou pela composição rigorosa. O que vemos são sobras de memória digital: arquivos de baixa resolução, travamentos de hardware, enquadramentos que mais sugerem uma câmera de segurança do que um olhar autoral. No entanto, essa textura crua – quase uma poética do pixel sujo – é a espinha dorsal de um realismo perturbador.
Ao contrário dos documentários que vestem a realidade com elegância, aqui a imagem é flagrante. A trilha sonora inexiste como partitura original; ela é substituída pela cacofonia institucional: o hino nacional desafinado, o ruído metálico do microfone da diretora, o sussurro constrangido dos alunos recitando lições de civismo que ainda cheiram a cola fresca dos murais soviéticos. Essa escolha estética de Borenstein e Talankin no roteiro – ou melhor, na curadoria do material – transforma o espectador em cúmplice de uma escuta clandestina.
O que o filme flagra, com uma paciência que beira o estoicismo, é o envenenamento progressivo da paisagem pedagógica. Se no início as lentes de Talankin capturam aulas de música e ensaios para o festival da primavera, aos poucos o ambiente é ocupado por manequins vestindo uniformes camuflados, cartazes de “Heróis da Pátria” e a visita de oficiais cujos discursos transformam o pátio da escola numa extensão do briefing militar.

O documentário não explica essa transição; ele a exibe como quem filma uma planta crescendo em time-lapse. A rotina não é interrompida, ela é redirecionada. E justamente por ser apresentada sem alarde, sem a voz em off que denuncia ou sublinha a tragédia, a propaganda se revela em sua forma mais eficiente: aquela que se confunde com a normalidade. A escola dos Urais torna-se, assim, um microcosmo onde se pode sentir o pulso de um regime que não precisa mais gritar ordens, apenas ajustar o currículo.
É nesse território pantanoso entre o registro burocrático e a denúncia involuntária que reside o impasse ético e estético do longa. Talankin filma os eventos patrióticos a pedido da administração; ele é uma engrenagem dessa máquina de doutrinação. Simultaneamente, seu arquivo pessoal, repleto de conversas com alunos desiludidos e lágrimas contidas pela morte de ex-estudantes na frente ucraniana, constitui um dossiê contra a desumanização da guerra.
O filme não resolve essa contradição porque ela é, de fato, insolúvel. Ao nos colocar diante de um homem que ama os meninos que manda para o front e que, ao mesmo tempo, se angustia com a possibilidade de vê-los retornar como assassinos, Um Zé Ninguém Contra Putin rasga o véu do maniqueísmo confortável.
A guerra em Donbas, a 1.500 quilômetros dali, permanece uma abstração – não por negligência do filme, mas como sintoma de uma geografia psíquica russa onde a violência se converte em cifra distante, em “operação especial”. A câmera de Talankin, contudo, registra o avesso dessa abstração: o corpo do menino que volta em um caixão lacrado. A morte não é o pior destino, sugere o filme nas entrelinhas do desespero do professor; o pior é a corrupção da alma, o retorno de alguém que já não cabe mais nos corredores onde aprendeu a somar frações.

O trabalho de montagem, que organiza anos de material bruto, impõe uma cadência que espelha a própria rotina escolar: repetitiva, cíclica, mas pontuada por pequenas e dolorosas ausências. Rostos desaparecem das carteiras. Bilhetes são lidos em silêncio. A diretora insiste em novos uniformes para o clube militar juvenil.
Enquanto isso, para o olhar ocidental, o filme pode soar como a confirmação de uma distopia orwelliana onde o Ministério da Verdade se instalou no refeitório. Mas para os próprios russos, os símbolos que Talankin documenta não é novidade; são a paisagem herdada de um passado que nunca terminou de passar. A força incômoda do documentário está menos na revelação do que na insistência do olhar. Ao se deter sobre a banalidade dos rituais, o filme nos faz perguntar não “o que eles estão fazendo?”, mas “o que acontece quando paramos de nos surpreender com isso?”.
Emerge daí uma crônica visual sobre a asfixia silenciosa do espírito crítico. Um Zé Ninguém Contra Putin não ergue barricadas; ele apenas deixa a câmera ligada enquanto a maré ideológica sobe lentamente, molhando primeiro os pés, depois os joelhos, até que a resistência se torne um ato de natação extenuante. A relação de Talankin com os alunos – os abraços apertados, a preocupação genuína com futuros interrompidos – ecoa mais alto que qualquer discurso inflamado contra o Kremlin.
É no rosto desse professor, cujo trabalho documental parece menos um ato de heroísmo do que uma obsessão por não deixar o cotidiano desaparecer sem testemunhas, que o filme encontra sua trincheira mais íntima.

A ambiguidade de sua posição, entre o funcionário que obedece e o homem que arquiva a obediência para um eventual tribunal da História, nos devolve a pergunta mais desconfortável: quantos de nós, sob a mesma pressão difusa e a mesma distância segura do front, teríamos coragem de continuar filmando o que o sistema nos pede para apenas aplaudir? A resposta não está no filme. Está no silêncio que se instala na sala de cinema quando a última fita VHS finalmente termina de rodar, deixando apenas a estática como testemunha de um cotidiano que a guerra transformou para sempre, mesmo onde os canhões não chegam.
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