No terror existe um subgênero não oficial que costumamos chamar de “terror de shopping”, um pacto quase tácito entre filme e plateia. Maldição da Múmia nasce dentro desse ambiente controlado, onde cada ruído parece calculado para ecoar na fileira do fundo. Mas basta algum tempo de projeção para perceber que há pequenas rachaduras nesse verniz industrial – fissuras por onde escapa um cinema mais interessado em causar incômodo do que apenas cumprir tabela.
No longa, o casal Charlie (Jack Reynor) e Larissa (Laia Costa) têm sua filha de apenas 8 anos sequestrada. Anos depois a garota foi encontrada, mas ela foi mumificada. É dentro desse cenário que o filme brinca entre o terror do grotesco e o conflito emocional dos pais vendo que sua filha virou um monstro.
Sob o comando de Lee Cronin, que já havia mergulhado na carne dilacerada em “A Morte do Demônio: A Ascensão”, o filme brinca com um imaginário que deveria apontar para tumbas milenares, maldições ancestrais e poeira acumulada em sarcófagos. Em vez disso, o que se desenrola é algo mais próximo de uma casa amaldiçoada contemporânea, onde a ameaça veste uma nova máscara, mas fala uma língua bastante conhecida. A múmia, aqui, parece menos uma entidade histórica e mais um disfarce para um velho conhecido do horror: a possessão.
Essa escolha não passa despercebida. Há um momento em que o filme quase sugere outro caminho, como se estivesse prestes a se aprofundar em mitologias menos exploradas pelo cinema ocidental recente. Mas logo recua para terrenos mais seguros, onde vozes guturais, corpos contorcidos e dinâmicas familiares em colapso já têm um repertório consolidado. A sombra de “O Exorcista” paira sobre diversas sequências, não como homenagem direta, mas como referência inevitável.
No centro desse turbilhão está Katie interpretada por Natalie Grace, cuja presença em cena reorganiza o espaço ao redor. Não se trata apenas de um desempenho físico exigente, mas de uma construção que oscila entre o reconhecimento e o estranhamento. O corpo da personagem vira território de disputa – entre o que ainda resta de humano e aquilo que insiste em emergir. Cronin parece particularmente interessado nesse conflito, explorando texturas, feridas, deformações. Há um fascínio evidente pelo corpo em deterioração, quase como se cada cena buscasse testar até onde é possível ir sem romper completamente com o espectador médio.

Até por isso, o resto do elenco parece decorativo. Ninguém está ruim, mas, definitivamente, são personagens estão em função ao trabalho de Natalie. Mesmo os pais de Katie, que poderiam ter algo mais aprofundado em relação aos sentimentos conflitantes em relação à filha, mas até mesmo esses problemas da relação ao casal, são protocolares.
É justamente aí que o filme revela sua ambiguidade mais interessante. De um lado, há a embalagem típica: sustos pontuais, ritmo que alterna tensão e alívio, personagens que orbitam arquétipos reconhecíveis. De outro, uma insistência em tornar o horror mais físico, mais viscoso, menos dependente apenas do susto imediato. A maquiagem prática e os efeitos especiais carregam um peso que não pode ser ignorado – há uma materialidade ali que contrasta com a assepsia digital de muitos produtos similares.
A fotografia acompanha esse movimento com uma paleta que privilegia sombras densas e interiores sufocantes. Não há grande interesse em expandir o mundo; o filme prefere enclausurar seus personagens, como se o espaço estivesse se contraindo à medida que a ameaça ganha forma. A câmera, inquieta em alguns momentos, parece procurar algo que nem sempre encontra – numa tentativa de escapar da previsibilidade dos enquadramentos mais convencionais.

No campo sonoro, o trabalho se mostra mais calculado. O desenho de som constrói uma espécie de ruído de fundo constante, um zumbido que prepara o terreno para o impacto. Quando o susto vem, ele não surge do nada; é como se já estivesse anunciado, ainda que de forma quase imperceptível. Essa escolha cria uma tensão que se estende além dos momentos mais explícitos, contaminando até cenas aparentemente neutras.
O roteiro, por sua vez, caminha em terreno irregular. A promessa de uma investigação que poderia ampliar o universo narrativo acaba diluída em favor de soluções mais diretas. A mitologia egípcia, que poderia oferecer camadas simbólicas mais densas, surge de forma fragmentada, quase decorativa. Há ideias ali, mas elas não parecem encontrar espaço suficiente para se desenvolver plenamente. O filme flerta com a possibilidade de ser mais do que aparenta, mas frequentemente retorna ao ponto de partida.
Curiosamente, o terceiro ato – onde muitos títulos desse circuito costumam perder o fôlego – mantém uma energia que impede o colapso completo. Ainda que recorra a elementos familiares, existe uma tentativa de sustentar o confronto final com alguma intensidade, evitando resoluções excessivamente simplificadas. Não chega a romper com os vícios do subgênero, mas também não se entrega totalmente a eles.

A associação com produções da Blumhouse Productions surge quase como reflexo automático, não apenas pela estrutura, mas pela maneira como o filme negocia risco e acessibilidade. Há um cálculo evidente, mas também pequenos gestos de desvio – como se Cronin estivesse testando até onde pode ir sem perder o público no meio do caminho.
Maldição da Múmia parece conhecer bem esse espectador médio – aquele que quer tomar seus sustos calculados –, mas em alguns instantes decide contrariá-lo, alongar a tensão, tornar o desconforto menos previsível. Não o suficiente para quebrar o pacto do “terror de shopping”, mas o bastante para lembrar que, mesmo dentro de um corredor iluminado por vitrines familiares, ainda há espaço para sombras que não seguem exatamente o roteiro esperado.
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