Review | Mixtape: adolescência em lado A e lado B
Arte de capa: Conecta Geek

Review | Mixtape: adolescência em lado A e lado B

A memória adolescente raramente é fiel; ela exagera humilhações, amplifica romances e transforma noites comuns em epopeias particulares. O jogo entende isso de forma tão precisa, que é extremamente desconfortável.

Existe uma cena em “Alta Fidelidade” em que Rob Gordon transforma a própria vida em curadoria sentimental. Cada relação amorosa vira uma faixa específica, cada decepção pede um lado B melancólico, cada lembrança parece depender de uma música para existir plenamente. Mixtape opera exatamente nesse território emocional: o da memória organizada como playlist afetiva. Não interessado em reproduzir os anos 90 como peça de museu, o jogo da Beethoven & Dinosaur prefere perseguir algo mais difícil, aquela sensação nebulosa de adolescência em que tudo parecia definitivo demais, urgente demais, cinematográfico demais.

A nostalgia, aqui, não funciona como reconstituição histórica. Ela surge como temperatura emocional. O jogo entende que poucas pessoas realmente viveram a adolescência estadunidense suburbana daquela década da maneira como o cinema vendeu ao longo dos anos, mas quase todo mundo conhece a experiência de associar uma canção a uma fase da vida.

Uma música tocando no ônibus após um término. Um refrão ouvido pela primeira vez numa festa ruim que, décadas depois, ainda reaparece como fantasma involuntário. É nesse espaço íntimo – entre lembrança e trilha sonora – que Mixtape o diferencie dentro do cenário de indies.

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Annapurna Interactive/Divulgação

A estrutura narrativa acompanha Stacy Rockford e seus dois melhores amigos durante a última noite antes da separação inevitável da vida adulta. O grupo se movimenta por ruas vazias, quartos bagunçados, lojas de conveniência e festas suburbanas enquanto revisita episódios marcantes da adolescência. O roteiro soa confessional demais na maneira como trata esses personagens. Não há preocupação em transformá-los em arquétipos fáceis da cultura teen. Eles falam rápido demais, interrompem uns aos outros, fazem piadas idiotas no momento errado e escondem vulnerabilidades atrás de sarcasmo performático – exatamente como adolescentes costumam fazer quando ainda não aprenderam a organizar os próprios sentimentos.

A escrita evita aquela armadilha comum das obras sobre juventude que parecem escritas por adultos desesperados para soar jovens. Em vez de transformar diálogos em vitrines de referências ou frases de efeito calculadas para viralizar em rede social, o texto encontra naturalidade nos silêncios constrangedores e nas conversas aparentemente banais. Há inteligência na percepção de que amizades profundas raramente se anunciam como profundas; elas aparecem em ruídos, apelidos ridículos, comentários sem importância e naquele conforto raro de poder ficar em silêncio ao lado de alguém.

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Captura de tela

Esse senso de intimidade conversa diretamente com a direção estética. Visualmente, Mixtape parece interessado em borrar fronteiras entre cinema de animação independente, videoclipe musical e memória fragmentada. A fotografia mergulha em tons saturados e texturas granuladas que lembram fitas VHS gastas pelo tempo. Os movimentos de câmera frequentemente assumem uma linguagem próxima de videoclipes noventistas, mas sem cair num fetichismo visual vazio. Há uma energia inquieta na montagem, quase como se o próprio jogo tivesse medo de permanecer parado tempo demais em uma única emoção.

As comparações com “Homem-Aranha no Aranhaverso” surgem naturalmente pelo estilo de animação quebradiço e pelas explosões gráficas que misturam diferentes técnicas visuais. Ainda assim, Mixtape parece menos interessado em espetáculo e mais preocupado em capturar a sensação confusa da lembrança. Algumas cenas assumem um caráter quase onírico, como se Stacy estivesse romantizando passagens da própria juventude enquanto as revisita mentalmente. A memória adolescente raramente é fiel; ela exagera humilhações, amplifica romances e transforma noites comuns em epopeias particulares. O jogo entende isso de forma tão precisa, que é extremamente desconfortável.

Boa parte dessa potência emocional nasce da trilha sonora. Não apenas pela presença de bandas conhecidas ou faixas cuidadosamente selecionadas, mas pela forma como a música estrutura a narrativa. Stacy sonha em trabalhar como supervisora musical em Hollywood, e essa obsessão contamina toda a experiência. Cada lembrança parece dirigida por alguém que acredita sinceramente que uma canção certa pode reorganizar completamente o sentido de um momento.

Essa ideia atravessa o jogo inteiro. Um passeio de carrinho de supermercado descendo uma ladeira durante uma fuga policial ganha contornos épicos graças ao ritmo acelerado da música escolhida. Uma simples brincadeira entre amigos num campo de softball assume tons psicodélicos porque a trilha empurra aquela memória para um espaço quase mítico. Até situações ridículas – como um primeiro beijo constrangedor transformado em minigame desconfortavelmente engraçado – carregam uma sinceridade que impede o cinismo.

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Annapurna Interactive/Divulgação

Talvez seja justamente aí que Mixtape mais se aproxime de Alta Fidelidade: na compreensão de que pessoas apaixonadas por música frequentemente reorganizam a própria identidade através dela. Stacy não apenas escuta canções; ela interpreta a vida por meio delas. É algo profundamente juvenil essa necessidade de transformar experiências pessoais em narrativa estética. Todo adolescente, em algum nível, acredita ser protagonista de um filme secreto. O jogo abraça essa teatralidade sem a ridicularizar.

Também chama atenção como a direção evita transformar os anos 90 em parque temático nostálgico. Não há obsessão em despejar referências para validar autenticidade geracional. O cenário funciona mais como moldura emocional do que como exercício de recriação histórica. A presença de fitas cassete, quartos cheios de pôsteres, lojas de conveniência iluminadas por néon e guitarras distorcidas serve menos para reconstruir uma época específica e mais para discutir a relação entre juventude e permanência cultural. O jogo parece sugerir que certas emoções adolescentes continuam intactas independentemente da década.

As mecânicas acompanham essa lógica de fluidez. Em vez de apostar numa estrutura convencional baseada em desafio ou progressão, Mixtape se organiza como uma coletânea de pequenas interações sensoriais. Não existe interesse em fracasso, competição ou domínio técnico. O jogador participa de memórias. Em alguns momentos, isso significa apertar botões no ritmo de uma música dentro de um carro; em outros, observar objetos espalhados por um quarto enquanto diálogos revelam inseguranças silenciosas.

Essa fragmentação mecânica reforça uma ideia interessante: recordar não é um processo linear. A mente humana salta entre imagens, sons e emoções sem respeitar continuidade lógica. O jogo replica essa sensação ao alternar constantemente de linguagem, ritmo e gênero. Uma sequência pode funcionar quase como um jogo de ritmo; a próxima se aproxima de um filme interativo melancólico; logo depois, surge um momento de humor físico absurdamente juvenil.

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Annapurna Interactive/Divulgação

Existe um risco evidente nessa abordagem. Obras profundamente interessadas em nostalgia frequentemente acabam prisioneiras dela, transformando afeto em produto embalado para consumo emocional rápido. Mixtape, porém, parece mais preocupado em investigar por que certas lembranças permanecem vivas do que simplesmente celebrá-las. O roteiro entende que crescer implica perceber o quanto a juventude exagerava tudo – sem que isso diminua a importância daquelas emoções.

A melancolia atravessa o jogo inteiro, mas nunca como paralisia. Ela aparece como reconhecimento inevitável de que amizades mudam, cidades ficam pequenas demais e versões antigas de nós mesmos sobrevivem apenas em fragmentos dispersos. Algumas pessoas guardam fotografias; Stacy arquiva músicas. E talvez exista algo particularmente contemporâneo nisso: a tentativa desesperada de transformar experiências fugazes em arquivos emocionais reproduzíveis.

Entre festas suburbanas, piadas idiotas e explosões sonoras carregadas de distorção noventista, Mixtape encontra um espaço entre cinema e videogame. Não exatamente porque mistura linguagens – isso já deixou de ser novidade faz tempo – , mas porque compreende o potencial emocional dessa mistura. Sua direção parece interessada em como jogos podem manipular ritmo, música e interação para reproduzir sensações difíceis de verbalizar.

A adolescência quase nunca faz sentido enquanto acontece. Talvez por isso tantas obras retornem obsessivamente a ela. A memória organiza aquilo que a experiência original viveu de forma caótica. Mixtape transforma esse caos em linguagem audiovisual pulsante, sentimental e estranhamente íntima. Como uma velha fita gravada às pressas, cheia de ruídos, cortes abruptos e músicas escolhidas com intensidade exagerada, o jogo entende que certas lembranças continuam tocando mesmo depois que a canção termina.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.