Na última semana, a Konami, dona do eFootball, e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) firmaram um acordo que garante a volta do Campeonato Brasileiro (Série A) ao game após cerca de dez anos de ausência.
O futebol brasileiro está fora dos principais jogos eletrônicos do gênero há aproximadamente 12 anos no caso da franquia da EA — hoje chamada EA Sports FC — e há cerca de 10 anos no antigo Pro Evolution Soccer (PES), atualmente eFootball.
A pergunta que todo torcedor brasileiro faz é: qual o verdadeiro motivo de não termos o Campeonato Brasileiro nos jogos?
O entrave jurídico
No Brasil, existe um problema estrutural para o licenciamento dos jogadores, dificultando a inserção do campeonato local nos games. A chamada Lei Pelé (Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998), mais especificamente em seu artigo 87-A, estabelece que:
O direito ao uso de imagem do atleta pode ser por ele cedido ou explorado, mediante ajuste contratual de natureza civil, com fixação de direitos, deveres e condições inconfundíveis com o contrato especial de trabalho desportivo.
Em matéria publicada pelo UOL, o advogado e agente de e-sports Leonardo Máximo destaca que prevalece na legislação brasileira o entendimento de que qualquer pessoa — pública ou não — possui proteção contra a exploração comercial de sua imagem sem o devido consentimento. Esse consentimento deve ser formalizado, preferencialmente por escrito, para evitar questionamentos jurídicos.
Na prática, isso significa que, para incluir jogadores do Brasileirão em seus jogos, empresas como a EA e a Konami precisam negociar individualmente com cada atleta. Considerando que a Série A conta com mais de 600 jogadores registrados, o processo se torna complexo, caro e juridicamente arriscado.
Por que em outros países é diferente?
Em ligas como a Premier League, na Inglaterra, a negociação ocorre de forma centralizada. Basta um acordo com a liga e com entidades como a FIFPRO, que representa os jogadores profissionalmente em nível internacional.
Ou seja, enquanto no Brasil seria necessário negociar com a CBF, com os clubes e ainda com cada atleta individualmente, em outros mercados o processo é coletivo e menos burocrático.
Quando tudo mudou
Jogadores mais antigos se lembram que diversas edições de FIFA e PES já contaram com clubes brasileiros licenciados. No entanto, após ações judiciais movidas por atletas que alegaram uso indevido de imagem, a Justiça brasileira deu ganho de causa aos jogadores.
Diante do risco jurídico, tanto a EA quanto a Konami optaram por retirar o Campeonato Brasileiro de seus jogos.
O impacto para o futebol brasileiro
A consequência dessa ausência vai muito além do entretenimento. Trata-se de perda de relevância internacional.
Os jogos da franquia da EA estão entre os mais populares do mundo, com milhões de jogadores ativos — muitos deles crianças e adolescentes. Os clubes presentes nesses games têm suas marcas expostas globalmente diariamente. Escudos, uniformes e jogadores tornam-se familiares para públicos de diferentes países.
Se o futebol brasileiro não está nesse ambiente, ele deixa de ser visto por uma nova geração de consumidores e torcedores.
Hoje, é provável que uma criança brasileira saiba quem é o camisa 10 do PAOK do que uma criança grega saiba quem são Gabigol, Arrascaeta ou Raphael Veiga. Da mesma forma, pode ser mais fácil para um torcedor europeu reconhecer o escudo de um clube da quarta divisão inglesa do que o de um grande clube brasileiro.
A ausência nos games impacta diretamente a internacionalização das marcas, o potencial de marketing e até a formação de identidade dos jovens torcedores. Muitos acabam criando vínculos mais fortes com clubes estrangeiros que aparecem diariamente nos jogos eletrônicos, enquanto os clubes brasileiros permanecem invisíveis nesse espaço.
Recentemente, o jornalista Paulo Vinícius Coelho afirmou:
Estêvão quer jogar no Fifa. O Brasil não está no Fifa e precisa entrar no Fifa porque o jogador vê aquilo ali e diz: ‘eu vou jogar com Palmer’. Ele está jogando no Fifa com o Cole Palmer e agora ele vai jogar ao lado dele.
A declaração evidencia o tamanho do impacto cultural dos jogos eletrônicos na formação de referências para os jovens atletas.
Um movimento necessário
É evidente que, neste cenário, o futebol brasileiro precisa mais estar presente nesses jogos do que o contrário. Durante anos, a CBF foi criticada por omissão no tema. Agora, sob a gestão de Samir Xaud, o movimento para recolocar os clubes brasileiros nos games parece ganhar força.
O acordo com a Konami representa um passo importante. Ainda é preciso aguardar os desdobramentos, especialmente no que diz respeito à EA, mas o simples fato de haver mobilização institucional já é um sinal positivo.
A presença do Brasileirão nos jogos eletrônicos não é apenas uma questão de entretenimento. Trata-se de posicionamento de marca, relevância internacional e conexão com as novas gerações.
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