Em muitas histórias, seguimos personagens. Acompanhamos seus traumas, suas escolhas, seus erros e sua evolução. O mundo, nesse tipo de narrativa, funciona como palco, um cenário onde conflitos acontecem e jornadas se desenrolam. Mas há animes que, mesmo que as vezes indiretamente, invertem essa lógica. Obras em que o universo fictício é tão vasto, complexo e determinante que deixa de ser apenas pano de fundo para se tornar o verdadeiro protagonista.
Nesses casos, o que nos prende não é apenas “o que vai acontecer com tal personagem”, mas principalmente “como esse mundo funciona?”. Quais são suas regras? Sua história? Seus sistemas de poder? Suas estruturas políticas? Seus mistérios geográficos? O worldbuilding deixa de ser um complemento e se transforma no motor da narrativa.
Pensando nisso, reunimos sete animes que exemplificam essa abordagem: histórias em que o mundo não apenas abriga os personagens, mas os domina.
Naruto
Ano de lançamento: 2002
Onde assistir: Netflix, Crunchyroll e HBO Max
Pode parecer curioso colocar Naruto nessa lista, já que a obra é lembrada principalmente por seu protagonista barulhento e determinado. No entanto, começamos por ela pois o verdadeiro coração da série criada por Masashi Kishimoto está no mundo ninja que a sustenta.
O sistema de vilas ocultas, a divisão política entre as grandes nações, as guerras ninjas, os clãs com habilidades hereditárias (como os Uchiha e os Hyuga) e a própria lógica do chakra compõem um universo extremamente estruturado. Não estamos falando apenas de um cenário decorativo, mas de um sistema social e militar que molda gerações inteiras.
O peso da Terceira e da Quarta Grande Guerra Ninja, os conflitos históricos entre vilas e o ciclo de ódio que atravessa décadas são elementos que determinam as ações de praticamente todos os personagens. Naruto não nasce em um vazio narrativo; ele é produto direto das decisões políticas e dos traumas coletivos de seu mundo.
A história poderia acompanhar outro ninja qualquer, e ainda assim o universo shinobi continuaria sendo fascinante. A força de Naruto está menos em “quem ele é” e mais em “o que esse mundo produziu”.
Sword Art Online
Ano de lançamento: 2012
Onde assistir: Crunchyroll
Representando não apenas sua própria narrativa, mas também o fenômeno dos isekai modernos, Sword Art Online coloca seu universo como o centro absoluto da experiência.
A premissa inicial já deixa claro que o cenário é o conflito: sobreviver dentro de um jogo onde morrer significa morrer de verdade. Aincrad, com seus cem andares, regras rígidas e sistema fechado, é mais que um mapa; é uma prisão vertical que determina cada decisão dos jogadores.
Ao longo da série, novos mundos virtuais surgem, cada um com sua própria física, economia, sistema de combate e estrutura social. Alfheim Online, Gun Gale Online, Underworld – cada ambiente impõe novas regras e redefine completamente o tipo de história que está sendo contada.
Kirito é importante, mas ele é, acima de tudo, alguém que reage às regras do sistema. O verdadeiro motor da narrativa são os próprios mundos digitais e suas estruturas. Sword Art Online entende que, em histórias de realidade virtual, o cenário não é o pano de fundo: é a própria arena existencial.
Made in Abyss
Ano de lançamento: 2017
Onde assistir: Netflix
Poucos animes exemplificam tão bem a ideia de “mundo protagonista” quanto Made in Abyss. O Abismo não é apenas um buraco gigantesco na terra. Ele é um organismo. Um sistema vivo, hostil, misterioso e quase divino. Cada camada possui sua própria fauna, flora, ecossistema e, principalmente, sua própria maldição.
A regra fundamental da obra é simples e aterrorizante: quanto mais fundo você desce, mais difícil é subir. A “maldição do Abismo” afeta corpo e mente de formas progressivamente brutais. Não é um vilão quem impõe o conflito, é a própria geografia.
Riko e Reg não movem a história sozinhos; eles são arrastados por ela. O Abismo molda suas decisões, define seus limites e cobra preços altíssimos por cada avanço. É uma narrativa em que a curiosidade humana colide com um mundo que não foi feito para ser compreendido.

Attack on Titan
Ano de lançamento: 2013
Onde assistir: Crunchyroll
Em Attack on Titan, o mundo é a grande revelação. A série começa como um aparente pós-apocalipse claustrofóbico, com a humanidade confinada atrás de muralhas para se proteger de titãs. No entanto, à medida que a narrativa avança, descobre-se que o verdadeiro protagonista sempre foi a história do mundo, não apenas a trajetória de Eren.
As revelações sobre Eldia, Marley, os conflitos geopolíticos e a origem dos titãs ampliam a escala da narrativa. O foco deixa de ser “sobreviver aos monstros gigantes” e passa a ser “entender a estrutura política e histórica que criou esse ciclo de violência”.
O mundo de Attack on Titan é construído como um quebra-cabeça histórico. Cada nova informação reconfigura completamente o significado dos eventos anteriores. A trama é guiada por forças coletivas, ideológicas e nacionais, muito maiores que qualquer personagem isolado.
One Piece
Ano de lançamento: 1999
Onde assistir: Netflix, Crunchyroll, Pluto TV e HBO Max
Em termos de construção de mundo, poucos animes chegam perto de One Piece. O que torna a obra de Eiichiro Oda tão monumental não é apenas Luffy ou sua tripulação, mas o vasto universo em que eles navegam. Cada ilha possui cultura própria, conflitos locais, sistemas políticos e histórias autônomas.
O Governo Mundial, o Século Perdido, os Yonkou, a Marinha, os Revolucionários: a narrativa é atravessada por forças estruturais que transcendem qualquer personagem individual. Muitas vezes, o que realmente nos prende é descobrir os segredos do mundo: o que é o One Piece? O que aconteceu no passado?
One Piece funciona quase como uma crônica histórica em andamento. O mundo não é apenas grande — ele é orgânico, conectado e cheio de camadas. Luffy pode ser o coração emocional, mas o universo é o verdadeiro motor narrativo.
Kino’s Journey
Ano de lançamento: 2003
Onde assistir: sem distribuição oficial via streaming
Em Kino’s Journey, a proposta é explícita: viajar e observar. Kino não é uma heroína tradicional que transforma o mundo ao seu redor. Pelo contrário, ela assume uma postura quase documental. A cada episódio, um novo país surge com regras próprias, costumes estranhos e filosofias particulares.
O foco nunca está na evolução dramática da protagonista, mas na análise das sociedades que ela visita. O cenário muda constantemente, e cada lugar funciona como um experimento social. Aqui, o mundo é o tema. A protagonista é apenas o fio condutor que nos permite atravessá-lo.
Land of the Lustrous (Houseki no Kuni)
Ano de lançamento: 2017
Onde assistir: sem distribuição oficial via streaming
Em Land of the Lustrous, o mistério do mundo é maior que qualquer arco individual. Gemas antropomórficas vivem em um planeta devastado, ameaçadas por seres lunares. A estrutura do universo, suas regras físicas e a própria origem daquele mundo são mais fascinantes do que os conflitos pessoais iniciais.
A cosmologia peculiar — três luas, ecossistema incomum, inimigos enigmáticos — transforma a narrativa em um grande enigma existencial. O espectador não quer apenas saber o que vai acontecer com Phos; quer entender o que aconteceu com o mundo.
Quando o mundo é maior que qualquer herói
Animes como esses nos lembram que personagens podem ser fascinantes, mas mundos bem construídos são inesquecíveis. Quando o cenário deixa de ser apenas pano de fundo e se torna força ativa, a narrativa ganha profundidade. O espectador deixa de acompanhar apenas jornadas individuais e passa a explorar universos inteiros.
São histórias que despertam curiosidade geográfica, política e histórica. Obras que nos fazem querer abrir mapas, estudar linhagens, entender sistemas e montar teorias. Nesses animes, o protagonista pode até ter nome, rosto e voz. Mas quem realmente conduz a narrativa é o mundo vasto, misterioso e maior do que qualquer indivíduo que ouse habitá-lo.
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