Nesta quinta-feira (22), comemora-se o dia de Rita Lee, uma das figuras mais irreverentes e geniais da música brasileira. E como homenagem a essa artista que nunca se deixou engaiolar por rótulos, resolvemos falar de um trabalho quase esquecido, mas que, para quem vos escreve, é o melhor registro pós-Mutantes da Rainha do Rock Brasileiro: o disco perdido das Cilibrinas do Éden, gravado em 1973 e nunca oficialmente lançado.
Confesso que descobri esse tesouro por acaso, fuçando na seção “bandas de apenas um disco” de um site obscuro de música, na minha eterna saga de nerd atrás de raridades. Quando baixei o arquivo, mal sabia que estava diante de uma Rita Lee completamente diferente — e que aquelas faixas folk-psicodélicas eram o elo perdido entre os Mutantes e sua carreira solo. A surpresa foi tão grande quanto a qualidade do material: como algo tão bom tinha ficado escondido por tanto tempo?
A história desse álbum é tão peculiar quanto a própria trajetória de Rita Lee. Em 1972, recém-saída dos Mutantes — ou “convidada a se retirar”, como ela mesma brincou —, a cantora estava em um momento de reinvenção. Já tinha dois discos solo, mas ainda carregava a sombra da banda que a consagrou. Foi então que encontrou em Lucia Turnbull, uma guitarrista pioneira e sua parceira de aventuras musicais, a cúmplice perfeita para um projeto novo, livre e cheio de experimentações.
Assim nasceram as Cilibrinas do Éden, uma dupla folk-psicodélica que misturava violões, harmonias vocais afiadas e uma pitada de deboche típico da personalidade de Rita Lee. O nome, aliás, era uma homenagem ao código que os Mutantes usavam para maconha — “cilibrina”. Já o “Éden” remetia a um paraíso musical, um recomeço. Mas o público da época, acostumado ao rock espacial dos Mutantes, não entendeu a viagem acústica das moças.

A estreia ao vivo no Phono 73, abrindo para os próprios Mutantes, foi um desastre. Vaias, gritos, incompreensão. Rita Lee, sagaz, percebeu que o Brasil dos anos 1970 não estava pronto para sutilezas. O país vivia sob a ditadura militar, e o público queria pancadaria sonora, não delicadezas folk. Foi aí que, junto com músicos da banda Lisergia, ela transformou as Cilibrinas no embrião do Tutti Frutti, seu grupo de apoio na carreira solo.
Mas antes dessa guinada glam-rock, as Cilibrinas do Éden gravaram um disco inteiro no estúdio Eldorado, produzido por Liminha. O álbum, que deveria se chamar “Tutti Frutti”, foi vetado pelo então diretor da Phillips, André Midani, que preferia apostar em Rita Lee como artista solo. O material ficou engavetado, mas, como todo bom disco perdido, vazou. Fitas piratas circularam por décadas entre colecionadores, até que, em 2010, um selo independente resolveu lançá-lo sem autorização — e hoje ele pode ser encontrado em plataformas digitais, YouTube e até em vinis piratas.
Mas antes dessa guinada glam-rock, as Cilibrinas do Éden gravaram um disco inteiro no estúdio Eldorado, produzido por Liminha (baixista d’ Os Mutantes). O álbum, que deveria se chamar Tutti Frutti, foi vetado pelo então diretor da Phillips, André Midani, que preferia apostar em Rita Lee como artista solo. O material ficou engavetado, mas, como todo bom disco perdido, vazou. Fitas piratas circularam por décadas entre colecionadores, até que, em 2010, um selo independente resolveu lançá-lo sem autorização — e hoje ele pode ser encontrado em plataformas digitais, YouTube e até em vinis piratas.

O que faz desse trabalho algo tão especial? Primeiro, a química entre Rita e Turnbull. As vozes das duas se entrelaçam de um jeito mágico, como em “Mamãe Natureza”, a única música oficialmente aproveitada no primeiro disco solo de Rita Lee, “Atrás do Porto Tem uma Cidade” (1974). Depois, há o experimentalismo: o disco passeia pelo folk, pelo psicodélico e até por toques de rock progressivo, tudo com aquele humor ácido que só Rita Lee sabia dosar.
Aliás, o já citado Mamãe Natureza é um exemplo perfeito. A letra, que fala de um “homem de saias” e da natureza como uma figura materna, já mostrava a irreverência que marcaria a carreira solo da cantora. Outras faixas, como “Bad Trip (Ainda Bem)”, reapareceriam anos depois como “Shangri-Lá” (no álbum “Rita Lee”, de 1980), mas com um final censurado — a versão original terminava com um provocante “Tive sim vontade de… dar”.
“Gente Fina é Outra Coisa” virou “Locomotivas”, tema de novela. “Minha Fama de Mau” foi regravada por Erasmo Carlos. E “Paixão da Minha Existência Atribulada” e “Nessas Alturas dos Acontecimentos” apareceram na coletânea “Os Grandes Sucessos de Ritta Lee” (sim, com dois “tês”), em 1981. Ou seja: mesmo não lançado, o disco das Cilibrinas foi uma mina de ouro para Rita Lee.
Mas por que esse álbum é considerado um “fantasma”? Porque ele existe e não existe. Foi gravado, mas nunca liberado. Quem o conhece, ouviu em cópias clandestinas. E, no entanto, ele é fundamental para entender a transição de Rita Lee dos Mutantes para o estrelato solo. É um registro de um momento em que ela ainda estava descobrindo sua voz longe da banda que a consagrou.
Turnbull, aliás, merece um capítulo à parte. Primeira guitarrista do rock brasileiro, ela foi essencial na formação do Tutti Frutti, mas acabou deixando o grupo após uma polêmica: sua voz foi apagada na gravação de “Menino Bonito”, que originalmente tinha um arranjo parecido com o das Cilibrinas. Mesmo assim, continuou compondo com Rita Lee e participando de projetos como “Refestança” (1977), ao lado de Gilberto Gil.
O mais curioso é que, apesar de nunca ter sido oficialmente lançado, o disco das Cilibrinas do Éden acabou se tornando um símbolo da resistência criativa de Rita Lee. Em uma época em que as gravadoras ditavam as regras, ela insistiu em experimentar, mesmo sabendo que o projeto poderia não vingar. E, de certa forma, esse espírito livre é o que faz dele tão especial — é um registro cru, sem filtros, de uma artista em busca de sua própria identidade.
Hoje, o disco das é uma relíquia cult. Quem o descobre, se apaixona. Quem já conhece, sabe que ele é a prova de que Rita Lee sempre foi à frente do seu tempo. Um trabalho que, mesmo não tendo o reconhecimento que merecia em 1973, hoje soa atual e fresco.
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