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Coluna | Reboots, consoles retrô e RPGs antigos reinventados: por que estamos obcecados com o passado?

Atualmente, computadores e consoles entregam jogos com gráficos cada vez mais realistas, mundos gigantescos e mecânicas refinadas ao extremo. Ainda assim, uma parte crescente dos jogadores parece olhar para trás. Reboots de franquias clássicas, remakes caprichados e emuladores cada vez mais acessíveis transformaram o passado em tendência, e fizeram dos jogos retrô algo mais presente do que nunca na vida dos gamers. A pergunta é inevitável: por que, quando tudo evolui tão rápido, tanta gente prefere revisitar aquilo que já passou?

A explicação mais óbvia, e talvez a mais poderosa, para esse retorno ao passado é a nostalgia. Jogos antigos não são só entretenimento: eles funcionam como cápsulas do tempo. Voltar a um RPG do Super Nintendo, a um clássico do PlayStation 1 ou a um arcade de infância não é apenas “rejogar”: é revisitar uma fase da vida, um quarto, uma rotina, um sentimento de descoberta. Em um mundo em que tudo muda rápido demais, o retrô oferece algo raro: familiaridade. E essa familiaridade tem peso emocional. É como ouvir uma música antiga e, de repente, lembrar exatamente quem você era quando a escutou pela primeira vez.

Além da memória afetiva, existe um motivo bem mais prático: jogos antigos parecem “mais honestos” porque não foram construídos em torno de microtransações. Muitos títulos atuais são desenhados para manter o jogador preso em loops de recompensa, passes de batalha, skins, moedas virtuais e conteúdos cortados para serem vendidos depois. Isso não significa que todo jogo moderno seja predatório, mas é difícil negar que o modelo de monetização mudou a relação entre jogador e produto. Em contrapartida, no passado, o acordo era simples: você comprava um jogo e ele era aquilo, completo, fechado, sem a sensação constante de que sempre falta alguma coisa a ser desbloqueada… no cartão de crédito.

Existe também uma diferença fundamental na forma como os jogos eram lançados. Antigamente, se um jogo saísse com bugs graves ou defeitos, não havia como “consertar depois”: o cartucho ou o disco já estava nas mãos do consumidor, e o erro virava parte permanente do produto. Isso criava uma pressão enorme para que o lançamento fosse mais polido, mais testado e mais estável desde o primeiro dia. Hoje, com atualizações e correções constantes, muitas empresas passaram a tratar o lançamento quase como uma versão inicial, algo que pode ser remendado ao longo do tempo.

O caso de Cyberpunk 2077 é um símbolo dessa era: um jogo que prometia revolução, mas chegou ao público em estado problemático, exigindo meses de ajustes para finalmente se aproximar da experiência que deveria ter sido desde o começo. Para muitos jogadores, o retrô virou sinônimo de confiança: o jogo já está pronto, do jeito que sempre foi.

Essa popularidade dos jogos retrô é tão grande que ela já deixou de ser apenas uma tendência online e virou um movimento com espaço próprio no mundo real.

Hoje, existem eventos inteiros dedicados a esse nicho, reunindo fãs, colecionadores, curiosos e apaixonados por consoles e clássicos de outras gerações. Um exemplo é a Retrocon, que celebra essa cultura com estandes de jogos antigos, fliperamas, campeonatos, vendas de cartuchos e acessórios, além daquele clima de “museu interativo” onde a história dos videogames pode ser vivida na prática. O crescimento desse tipo de evento mostra que o retrô não é só saudade: é comunidade, é preservação e é a prova de que esses jogos continuam relevantes , não apenas como memória, mas como experiência.

Existe ainda o fator que talvez pese mais no bolso, literalmente. Hoje, é cada vez mais difícil justificar pagar mais de 300 reais em um jogo que você nem sabe se vai gostar, especialmente em um cenário onde lançamentos vêm incompletos, cheios de bugs ou com monetização agressiva. Jogos antigos, por outro lado, já têm reputação consolidada: você sabe o que esperar, sabe se é “bom” e sabe se combina com seu gosto. E para quem já tem coleção, compra em promoção, assina catálogos ou simplesmente emula consoles antigos, o custo pode ser mínimo ou até inexistente. Nesse sentido, o retrô não é só nostalgia, é também uma escolha racional num mercado onde jogar virou, para muita gente, um investimento arriscado.

Não é à toa, então, que o mercado de portáteis dedicados a emular consoles retrô, muitas vezes já carregados com bibliotecas enormes de clássicos, esteja crescendo tanto. Esses aparelhos oferecem exatamente o que muita gente sente falta na experiência moderna: praticidade, acesso imediato e diversão sem burocracia. Em vez de atualizações intermináveis, menus lotados, contas, lojas e notificações, a proposta é simples e direta: ligar, escolher um jogo e jogar. É uma volta à sensação de “pegar e se divertir”, com sessões rápidas ou longas, sem pressão para gastar mais ou acompanhar tendências. No fundo, esse sucesso revela que, em meio a uma indústria cada vez mais complexa, existe um público enorme buscando algo mais básico, e justamente por isso mais satisfatório.

Outro ponto importante é que essa volta ao retrô também carrega um tipo de reconhecimento histórico. Se a indústria dos games hoje é gigantesca, movimentando bilhões, influenciando cinema, música e cultura pop, é porque, lá atrás, existiram jogos que fizeram um trabalho impecável em entregar experiências marcantes e produtos de altíssima qualidade.

Revisitar um clássico, seja no original ou em um remake, não é só “jogar de novo”: é voltar às origens do próprio hobby, entender como certos gêneros nasceram, como mecânicas foram inventadas e refinadas, e por que algumas fórmulas atravessaram décadas sem perder força. Em outras palavras, jogar retrô também é uma forma de estudar a história dos videogames, e perceber que muito do que amamos hoje foi construído em cima de fundamentos criados por esses títulos que resistiram ao tempo.

No fim, isso não significa que os jogos de hoje sejam ruins, muito pelo contrário: nunca tivemos tanta variedade, qualidade técnica e ambição criativa como agora. Mas existe algo na experiência dos jogos antigos que simplesmente não pode ser reproduzido por completo em resoluções 4K ou mundos infinitos. É o ritmo diferente, a simplicidade sem ser vazia, o desafio mais direto, a sensação de “jogo completo” e, principalmente, o peso emocional de um tempo em que jogar parecia mais mágico e menos calculado. \

Por isso, o retrô não é só uma moda passageira: é uma forma de recuperar um tipo de sentimento que só existe quando a gente volta a colocar as mãos nesses clássicos, e percebe que, às vezes, o passado ainda tem coisas que o presente não aprendeu a entregar.

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Eduarda Melo é jornalista especializada em jornalismo de investigação, dados e visualização, formada pela Escuela Unidad Editorial e bacharela em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Atuou como repórter política no Jornal do Commercio e no Poder360, cobrindo temas nacionais e internacionais com foco em política, direitos humanos e análise de dados. Teve passagem pelo El Mundo, no setor de infografia