OSTs
Foto: reprodução/seu dorama

Como a TV Coreana está influenciando produções ocidentais

Nos últimos anos, a televisão sul-coreana deixou de ser um fenômeno regional para se tornar uma influência global, moldando tendências e transformando a maneira como o público consome entretenimento. O sucesso internacional de dramas coreanos e reality shows não apenas ampliou o interesse por narrativas produzidas fora do eixo tradicional Hollywood–Europa, como também abriu espaço para que formatos, estilos e temas vindos da Coreia do Sul fossem incorporados por produtoras ocidentais. 

Mais do que uma “moda passageira”, essa presença crescente aponta para uma mudança real na indústria: a TV coreana passou a ditar referências e inspirar adaptações, estéticas e novas formas de contar histórias.

A força da televisão coreana no cenário global ficou ainda mais evidente quando Round 6 conseguiu “furar a bolha” e se transformar em um fenômeno que ultrapassou o público já familiarizado com produções asiáticas, alcançando espectadores no mundo inteiro e dominando conversas nas redes sociais. Mais do que audiência, a série também conquistou reconhecimento institucional ao ser premiada no Emmy, o principal prêmio da televisão norte-americana, consolidando a ideia de que produções fora do eixo tradicional podem disputar espaço no topo da indústria ocidental. 

Round 6
Foto: divulgação/Netflix

Outro ponto central está na maneira como as produções coreanas estruturam suas narrativas, frequentemente combinando gêneros e equilibrando emoção com tensão. É comum que uma mesma trama misture romance, suspense e comédia, criando histórias mais dinâmicas e imprevisíveis do que o padrão mais “engessado” de algumas fórmulas ocidentais. Além disso, muitos dramas coreanos apostam em temas familiares e sociais, explorando conflitos geracionais, pressão profissional, desigualdade, traumas e relações afetivas com uma abordagem acessível, mas nem por isso superficial. Esse modelo de narrativa, que conecta entretenimento e comentário social, tem inspirado produções ocidentais a buscar histórias com mais camadas e maior impacto emocional.

Esse movimento vem sendo acompanhado de investimentos concretos: em 2023, a Netflix anunciou um aporte de US$ 2,5 bilhões em conteúdo coreano ao longo dos próximos quatro anos, reforçando a Coreia do Sul como um dos centros estratégicos do streaming. E o impacto já chega também ao Brasil, com a TV Globo estudando desenvolver uma nova linha de novelas incorporando elementos típicos dos K-dramas, sinalizando como essa influência começa a remodelar até formatos clássicos da teledramaturgia ocidental. Segundo a empresa brasileira, o projeto será tocado pelo autor de novelas Walcyr Carrasco.

Um dos sinais mais evidentes dessa influência é o aumento de remakes e adaptações ocidentais baseadas em produções coreanas de sucesso. Séries como The Good Doctor, originalmente sul-coreana, ganharam versões americanas que se tornaram populares e consolidaram o potencial dessas narrativas em outros mercados. O mesmo acontece com formatos de entretenimento como The Masked Singer, que atravessou fronteiras e foi reproduzido em diversos países. Além disso, a própria Netflix já demonstrou interesse em expandir esse movimento, com planos de desenvolver uma versão ocidental de Round 6, repetindo um caminho que o cinema já percorreu anteriormente , como no caso de Oldboy, que ganhou adaptação hollywoodiana após o sucesso do filme original coreano.

Outro eixo importante dessa influência está na exportação de reality shows e programas de variedade, que circulam internacionalmente tanto como produtos prontos licenciados e distribuídos em versões legendadas ou dubladas, quanto como formatos que podem ser adaptados e recriados em outros países. Programas como Knowing Brothers (Men on a Mission), por exemplo, ajudaram a popularizar o estilo coreano de entretenimento, marcado por humor coletivo, jogos, improviso e uma dinâmica de elenco fixo que cria familiaridade com o público. 

O elenco de Men on a Mission recebe diversos artistas a cada episodio para gincanas e conversas descontraídas. Créditos: JTBC

Além disso, plataformas como a Netflix e o Disney+ têm ampliado o catálogo com realities coreanos que conquistam audiência fora da Ásia, como Physical: 100, que virou um fenômeno global ao misturar competição, performance física e narrativa de superação em um formato altamente “maratonável”. Ao mesmo tempo, o sucesso desses programas reforça o valor do modelo coreano como formato exportável, capaz de ser reproduzido ou reinventado de acordo com os códigos culturais de cada país, mantendo a estrutura original, mas adaptando linguagem, humor e referências locais para dialogar com diferentes públicos.

O impacto da cultura pop coreana também se estendeu ao cinema de animação com “Guerreiras do K-pop, um filme que bebe diretamente da fonte das indústrias musical e televisiva da Coreia ao misturar estética dos K-dramas, energia dos grupos de K-pop e narrativa visual marcante. Lançado pela Netflix, o filme conseguiu furar a bolha do público tradicional de animação e se tornou o filme animado mais visto da plataforma, impulsionando ainda mais a presença global do conteúdo coreano. A trilha sonora, com inspirações e artistas do universo K-pop, ganhou destaque internacional ao alcançar posições de destaque nas paradas musicais, incluindo o topo da Billboard Hot 100, um feito raro para produções associadas a filmes de animação. Esse sucesso multifacetado mostra como elementos culturais coreanos podem ressoar em diferentes mídias e mercados, reforçando a capacidade desses produtos de conectar música, cinema e televisão em um novo paradigma global de entretenimento.

Além das histórias, a TV coreana também vem influenciando o Ocidente no campo visual, especialmente na estética sofisticada que mistura modernidade, sensibilidade e apelo comercial. A forma como personagens se vestem, os cenários cuidadosamente planejados, a iluminação elegante e até o uso de cores têm se tornado referência para produções de outros países. Em muitos casos, essa estética conversa diretamente com a moda e com o consumo, criando tendências que ultrapassam a tela e impactam o público em redes sociais, editoriais e marcas. Assim, o “visual coreano” virou um elemento desejado, associado a um padrão de produção contemporâneo e reconhecível.

Esse avanço da TV coreana no Ocidente está longe de ser uma coincidência ou um “golpe de sorte” momentâneo: ele é resultado de anos de planejamento e investimento no que se convencionou chamar de Hallyu, a “onda coreana”. Desde o fim dos anos 1990, a Coreia do Sul passou a tratar cultura e entretenimento como ativos estratégicos, estimulando a profissionalização do setor audiovisual, a formação de talentos e a criação de um ecossistema capaz de competir globalmente. Com isso, a expansão dos K-dramas, do K-pop e dos programas de variedade foi construída de forma gradual, combinando apoio institucional, inovação tecnológica e uma indústria altamente preparada para exportar produtos culturais. O sucesso recente no Ocidente, portanto, é menos um fenômeno espontâneo e mais a consolidação de um projeto de longo prazo que transformou a Coreia do Sul em uma potência do entretenimento mundial.

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Eduarda Melo é jornalista especializada em jornalismo de investigação, dados e visualização, formada pela Escuela Unidad Editorial e bacharela em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Atuou como repórter política no Jornal do Commercio e no Poder360, cobrindo temas nacionais e internacionais com foco em política, direitos humanos e análise de dados. Teve passagem pelo El Mundo, no setor de infografia