Review | ‘Crisol: Theater of Idols’ suga de outras franquias, mas é um bom acerto inicial

Se a ideia é sugar sangue, Crisol: Theater of Idols não se limita aos inimigos. O jogo absorve referências claras do terror contemporâneo nos games e as injeta em sua própria veia criativa. O resultado pode não soar totalmente inédito, mas pulsa com energia suficiente para chamar atenção.

Em primeira pessoa, o jogador atravessa uma cidade que mistura teatralidade macabra e opressão arquitetônica, em um percurso que alterna exploração tensa e confrontos calculados. Há traços evidentes do design de “Resident Evil 7” e “Resident Evil Village” na condução do medo e na administração de recursos, enquanto a construção de mundo e certos enquadramentos lembram a imersão claustrofóbica de “Bioshock”.

Ainda assim, reduzir Crisol a um mosaico de influências seria injusto. Primeiro título da Vermila Studios, com publicação da Blumhouse Games, o projeto demonstra ambição e controle técnico surpreendentes em uma estreia. Pode beber de muitas fontes, mas o gosto final tem personalidade – e indica que esse é só o primeiro ato de algo maior.

Bem-vindo a Tormentosa

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Em Crisol, controlamos Gabriel, um soldado do culto do Sol que vai até a ilha de Tormentosa para se infiltrar no culto do Mar. Nessa empreitada, as coisas não acabam muito bem para o nosso herói: ele é morto por uma espécie de criatura meio mecânica, meio morto-vivo. Esses são os principais inimigos do jogo e compõem o “Idol” do título. No limiar entre a vida e a morte, Gabriel recebe uma bênção do seu Deus do Sol – seu sangue torna-se sagrado e altera suas armas, tornando-as fortes o suficiente para derrubar essas criaturas, mas não o bastante para vencer Dolores, um ídolo poderoso e de grande importância na mitologia desse mundo.

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Somos resgatados pelos soldados do Deus do Sol, conhecidos como Solari, e é a partir daí que podemos dizer que o jogo começa de verdade.

Durante a jornada de Gabriel, ele conhece diversos elementos de Tormentosa e algumas figuras interessantes, como Mediodía, responsável por nos guiar pela cidade e ajudar em diferentes objetivos. Com ela, conhecemos mais sobre o local, suas facções e seus habitantes, e o jogo, aos poucos, revela as intenções desses personagens e os segredos da mitologia desse mundo.

A direção de arte de Crisol é muito boa no geral. Em alguns momentos, apresenta um estilo mais gótico; em outros, especialmente nas cutscenes que abordam a mitologia do mundo, adota uma estética que lembra uma animação um tanto genérica. Ainda assim, no conjunto, agrada visualmente, e os responsáveis pela arte mantêm uma consistência sólida, evitando que o jogo perca seu tom.

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

O prólogo introduz bem as mecânicas e a atmosfera do jogo, que me surpreenderam o suficiente para despertar curiosidade sobre o mundo de Crisol. Tormentosa apresenta um estilo que mistura elementos vitorianos com traços da Revolução Industrial, e o jogo trabalha bem sua ambientação, com muitos elementos que enriquecem os cenários e contribuem para a imersão. Infelizmente, nem todos os ambientes mantêm o mesmo nível de qualidade: alguns variam de interessantes a pouco inspirados. Ainda assim, o saldo geral é mais positivo do que negativo nesses aspectos.

Uma ideia de gameplay original, mas que ainda falta alguns empurrões

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Como eu citei acima, Gabriel é trazido de volta a vida pelo seu Deus do Sol, e com seu sangue sagrado, ele transforma as suas armas em uma espécie de “parasita benéfico”, onde elas têm uma força sobrenatural, porém, consumem Gabriel, mais especificamente seu sangue, e o jogo nos introduz a essa mecânica que é um dos seus maiores pontos de venda dele – a nossa munição é a nosso próprio HP, que é um conceito muito legal e que pode proporcionar muitas situações interessantes.

Cada arma possui um “reload” original, em que perfura a pele de Gabriel para consumir seu sangue e recarregar a munição. Crisol cria uma dinâmica eficiente, exigindo cuidado para que cada tiro valha a pena e para que não esgotemos nosso sangue a ponto de sermos derrotados com poucos golpes. Além disso, não podemos permitir que os inimigos nos acertem livremente, pois quanto menos sangue temos, menos munição fica disponível. Recarregar e enfrentar inimigos torna-se, assim, um interessante puzzle de gerenciamento de recursos.

Apesar de parecer complicado no início, o jogo evita que a mecânica se torne frustrante. Gabriel pode sugar sangue de animais mortos espalhados por Tormentosa e também absorver o sangue (e as memórias) de algumas pessoas mortas pelo mapa — não todas, mas uma quantidade generosa o suficiente para evitar frustração. Também é possível se curar com seringas de sangue encontradas pelo cenário, funcionando como os first aid kits de Resident Evil, porém de forma mais generosa; encontrei tantas que chegou um momento em que já não conseguia carregar mais.

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

As armas são um grande destaque. Suas animações de recarregamento são criativas e visualmente marcantes, o que me deixou ansioso para encontrar novas armas e descobrir quanto sangue exigiriam de Gabriel. Há um certo prazer masoquista ao ver o personagem se ferindo com agulhas, com o sangue escorrendo diretamente para o armamento de maneira nada confortável.

No combate, também temos uma faca que permite realizar parry nos inimigos (como no remake de Resident Evil 4). Diferentemente das armas de fogo, ela não utiliza sangue, mas requer um galão de gasolina e uma motocicleta com amolador para restaurar sua durabilidade.

Os inimigos são criaturas interessantes: estátuas e bonecos estranhos, com movimentação inconsistente e imprevisível, lembrando zumbis. Podemos acertá-los nas mãos, nos pés e na cabeça, além de desmembrá-los, o que os torna mais lentos — mas não os impede de continuar avançando, mesmo sem cabeça.

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Minha principal reclamação é a pouca variedade de inimigos. Apesar de visualmente curiosos, perdem impacto rapidamente. Com o tempo, o jogador se acostuma com sua presença, e o desconforto inicial diminui.

O jogo introduz novos inimigos ao longo dos capítulos, mas eles não têm impacto suficiente para aterrorizar. Até mesmo Dolores, figura central na divulgação, não transmite o medo esperado. Ela é um típico inimigo perseguidor, mas sua IA é limitada, e o jogo oferece muitos espaços para fuga. Basta entrar em um ambiente fechado para que ela perca Gabriel de vista e vá procurá-lo em outro ponto.

Há também uma vendedora no estilo já conhecido do gênero. A bruxa vende upgrades de armas e habilidades e concede descontos caso encontremos seus corvos espalhados por Tormentosa, que funcionam como colecionáveis opcionais.

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Os puzzles foram as partes de que mais gostei, além das animações de recarregamento. Não são os mais criativos do gênero, mas desafiam percepção e observação. Alguns são bastante óbvios; outros oferecem um desafio considerável para quem gosta de quebrar a cabeça.

Um ponto negativo é o uso excessivo de tinta amarela para guiar o jogador. Essa escolha não combina com a atmosfera e aparece em objetos claramente interativos. Trata-se de uma solução pouco elegante, que deixa evidente sua função meramente indicativa.

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Recomendo jogar na dificuldade mais alta. No modo normal, o jogo é muito fácil e não transmite a tensão que suas mecânicas sugerem. Já na dificuldade elevada, elas funcionam melhor. Também é possível personalizar parâmetros como força dos inimigos e escassez de recursos, como em “The Last of Us”.

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Quanto à otimização, ao menos no PlayStation 5, ela deixa a desejar. Há quedas constantes de frame rate, dificultando manter estabilidade nos 30 fps. Além disso, não há opções gráficas para alternar entre desempenho e qualidade, algo comum atualmente.

Efeitos sonoros pouco inspirados, mas uma boa dublagem e trilha sonora

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Os efeitos sonoros variam em qualidade. Às vezes contribuem para a atmosfera; outras vezes são pouco marcantes. Algumas áreas têm ambientação sonora excelente, como janelas balançando e o vento rangendo a madeira. Já os inimigos não se destacam tanto, mas podem ser identificados pelo áudio, o que é positivo.

A trilha sonora, composta por Xavi Qués, é um ponto alto. Ela combina com a desolação do mundo de Crisol. A música do menu principal, inclusive, me fez permanecer ali apenas para ouvi-la.

O jogo conta com dublagem em inglês e espanhol. Optei pelo espanhol, língua nativa do estúdio, e a experiência foi satisfatória, apesar de alguns diálogos soarem estranhos. A versão em inglês, pelo pouco que ouvi, parece consistente.

Considerações finais

Crisol: Theater of Idols | Blumhouse Games

Crisol: Theater of Idols não é revolucionário — e isso não é necessariamente um problema. No entanto, poderia ousar mais no design de fases e explorar melhor suas próprias mecânicas, evitando certa repetitividade.

O folclore espanhol também poderia ser mais aprofundado. O mundo é interessante, mas simples em proposta, e merecia maior exploração cultural.

Ainda assim, como estreia de um estúdio novo, é um projeto com qualidade e ideias promissoras. Pode ser visto como um “clone moderno de Resident Evil”, mas é competente e desperta curiosidade sobre os próximos passos da Vermila Studios.

Para quem aprecia Resident Evil moderno, atmosferas vitorianas com toques de revolução industrial e temas religiosos sombrios, Crisol é uma boa pedida. Soma-se a isso um preço acessível na PlayStation Store e suporte a legendas em português do Brasil.

Agradecimento à Blumhouse Games por disponibilizar o jogo para análise.

Crisol: Theater of Idols está disponível para PlayStation 5, Xbox Series e PC via Steam.

Outras reviews:

Escritor Freelancer.Tenho como paixão primária em videogames e principalmente no gênero JRPGs, mas também sou fascinado por filmes e animações.