Crítica | A Conspiração Condor usa o jornalismo como performance e a paranoia como caricatura
Pandora Filmes/Divulgação

Crítica | A Conspiração Condor usa o jornalismo como performance e a paranoia como caricatura

A Conspiração Condor é um filme paradoxal. Ele falha por excesso de ambição, mas, ao mesmo tempo, parece não saber exatamente o que fazer com a ambição que têm. Dirigido por André Sturm, o longa ocupa esse espaço intermediário, em que a intenção de construir um thriller político denso esbarra numa execução que ora simplifica demais, ora se perde em excessos pouco produtivos. É uma obra que se leva muito a sério, mas cuja forma frequentemente o trai – e não de maneira interessante.

A proposta inicial é promissora. O longa se ancora em um dos períodos mais tensos da história brasileira, a Ditadura Militar, e parte de eventos reais que ainda hoje alimentam dúvidas e teorias: as mortes de Juscelino Kubitschek (JK) e João Goulart (Jango), ambas em 1976. A partir daí, constrói-se a trajetória de Silvana (Mel Lisboa), uma jornalista que abandona – ou tenta abandonar – a editoria de entretenimento/fofoca para investigar possíveis conexões entre esses acontecimentos. Em teoria, trata-se de um arco de transformação de uma repórter vista como superficial em alguém disposto a encarar estruturas de poder, arriscando sua própria vida. Na prática, porém, essa transformação nunca se sustenta.

Silvana quer ser levada a sério – e o filme quer que nós levemos isso a sério –, mas o modo como essa transição é encenada beira o constrangimento. Há uma tentativa evidente de marcar uma diferença entre o “jornalismo de fofocas” e o “jornalismo investigativo”, como se um fosse inerentemente menor e o outro automaticamente nobre. Essa distinção, além de simplista, é tratada com um didatismo que reduz a complexidade da profissão a uma espécie de caricatura moral. A própria personagem parece desprezar o terreno de onde veio, mas não demonstra ter adquirido ferramentas reais para ocupar o novo espaço que deseja.

O efeito colateral disso é curioso, nunca acompanhamos uma jornalista em amadurecimento, o espectador se depara com alguém que parece estar constantemente interpretando o papel de jornalista. É uma performance dentro da performance. E essa camada adicional, que poderia ser explorada como um comentário metalinguístico, não parece intencional.

Crítica | A Conspiração Condor usa o jornalismo como performance e a paranoia como caricatura
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Há momentos em que Silvana lembra menos uma repórter em formação e mais uma versão exagerada. A comparação inevitável é com esquetes humorísticos que satirizam a profissão: o repórter que faz perguntas óbvias, que dramatiza excessivamente situações banais, que confunde intensidade com profundidade. O problema é que o filme não está interessado em rir disso – ele acredita estar construindo tensão.

Inspirado em thrillers políticos dos anos 1970 – principalmente “Todos os Homens do Presidente” –, o filme busca evocar um clima de paranoia constante, em que ninguém é confiável e qualquer detalhe pode esconder uma conspiração maior. Esse tipo de atmosfera depende, em grande medida, de sutileza: informações que surgem aos poucos, silêncios que dizendo mais que diálogos, enquadramentos que sugerem vigilância ou isolamento. Aqui, no entanto, a paranoia é explicada em vez de ser sentida.

O roteiro, assinado por Sturm em parceria com Victor Bonini, insiste em verbalizar tudo. Personagens frequentemente param para explicar conceitos, contextualizar eventos ou detalhar motivações de maneira direta demais. Há uma cena em particular – longa, expositiva e pouco integrada à narrativa – que se dedica a descrever um experimento psicológico apenas tangencialmente relacionado à trama principal. Essa escolha interrompe o fluxo e reforça a sensação de que o espectador não é considerado capaz de acompanhar as ideias sem ajuda constante.

Essa abordagem didática compromete o suspense. Quando tudo é explicado, não sobra espaço para dúvida; e sem dúvida, não há tensão real.

Do ponto de vista técnico, o filme também apresenta inconsistências. A fotografia, que no início sugere uma preocupação estética mais elaborada, rapidamente se torna repetitiva. Certos cenários se repetem à exaustão – especialmente um bar onde Silvana se encontra com um censor –, criando uma sensação de circularidade que não parece intencional. Não há a intenção narrativa de reforçar um padrão ou simbolismo, a repetição transmite limitação.

A movimentação de câmera é outro elemento que chama atenção, mas não necessariamente de forma positiva. Há uma instabilidade constante, com movimentos que parecem querer transmitir urgência ou desorientação. Em teoria, isso poderia contribuir para a atmosfera paranoica; na prática, gera mais distração do que envolvimento. Esse tipo de escolha técnica, quando não está claramente alinhado com a narrativa, acaba funcionando como “técnica pela técnica”.

A atuação de Mel Lisboa segue uma linha semelhante. Há um comprometimento visível com a intensidade da personagem, mas essa intensidade raramente encontra variação. Expressões faciais marcadas, olhares fixos e reações amplificadas tornam-se constantes, o que, ao longo do tempo, perde impacto. Em um thriller político, nuances são fundamentais: pequenas mudanças de expressão, hesitações, ambiguidades. Aqui, tudo parece já começar no volume máximo.

Isso não significa que o filme não tenha pontos de interesse. A própria premissa –investigar possíveis conspirações envolvendo figuras históricas brasileiras –é instigante. Há um desejo claro de dialogar com o passado e com as lacunas deixadas pela história oficial. Em alguns momentos, especialmente quando Silvana interage com outros jornalistas, surge um vislumbre do que o filme poderia ter sido: uma reflexão sobre o papel da imprensa em tempos de censura e medo.

Crítica | A Conspiração Condor usa o jornalismo como performance e a paranoia como caricatura
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Esses momentos, porém, são breves e não chegam a se desenvolver plenamente. A relação entre os jornalistas, que poderia explorar conflitos éticos, pressões externas e dilemas pessoais, permanece superficial. Existe uma tentativa de criar identificação com a classe jornalística, como se o filme quisesse ser reconhecido por quem já viveu a rotina de redação. No entanto, esse diálogo não se aprofunda – fica na superfície, em gestos e situações que parecem mais decorativos do que essenciais.

A Conspiração Condor se apresenta como um filme que quer ser muitas coisas ao mesmo tempo: um thriller político, um drama de transformação pessoal, uma homenagem ao jornalismo investigativo, um comentário sobre a história brasileira. O problema não está na ambição, mas na falta de articulação entre essas camadas.

O resultado é uma obra que frequentemente parece uma versão caricatural de suas próprias referências – um filme que imita a forma dos grandes thrillers dos anos 70 sem compreender completamente o que os tornava eficazes. A Conspiração Condor quer investigar, questionar, provocar. Mas, ao insistir em explicar demais e confiar de menos no espectador, termina por limitar o próprio alcance. É um filme que fala sobre descobrir a verdade, mas que parece desconfiar da capacidade de quem assiste de participar dessa descoberta.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.