A Empregada é, antes de tudo, um filme bobo. E isso não é um problema em si. Pelo contrário, parte de seu encanto nasce justamente dessa falta de compromisso com a sofisticação. Dirigido por Paul Feig (“Um Pequeno Favor”), o longa se apresenta como um suspense doméstico que promete tensão, critica social e reviravoltas mirabolantes, mas entrega algo mais próximo de um entretenimento irregular, cheio de falhas visíveis, que ainda assim consegue arrancar risadas, suspiros e certo prazer culposo. É um filme que tropeça o tempo todo, mas segue caminhando – e, curiosamente, parece consciente disso em seus momentos finais.
Adaptado do livro de Freida McFadden, A Empregada parte de uma premissa bastante conhecida do gênero; a entrada de uma personagem vulnerável em um ambiente de riqueza excessivamente organizado, onde a ordem aparente esconde relações de poder doentias.
Millie, interpretada por Sydney Sweeney, está em liberdade condicional e aceita um emprego como empregada doméstica na casa de Nina Winchester, vivida por Amanda Seyfried. A proposta de trabalho soa boa demais para ser verdade, e o roteiro não demora a confirmar essa suspeita. O que poderia ser um thriller psicológico sofisticado opta, no entanto, por um caminho mais simples e acessível, próximo da lógica de filmes feitos para a TV a cabo de domingo à tarde.

A direção de Feig deixa isso bastante claro. Conhecido por comédias populares, o cineasta parece desconfortável em assumir completamente o suspense como eixo principal. Sua encenação raramente aposta no silêncio, na sugestão ou na construção de atmosfera. Em vez disso, o filme prefere diálogos explicativos, situações explícitas e uma condução narrativa que praticamente guia o espectador pela mão. Isso reduz o impacto de muitas reviravoltas, que acabam sendo percebidas com antecedência. Tecnicamente, isso acontece porque Feig utiliza enquadramentos e marcações muito óbvias, destacando objetos, espaços e gestos que anunciam o que seguirá.
A fotografia acompanha essa proposta pouco sutil. A casa dos Winchester é filmada como um símbolo genérico de riqueza; ambientes amplos, iluminação clara, predominância de tons brancos e uma limpeza quase clínica. Em teoria, esse visual poderia reforçar a artificialidade daquela família, mas o filme não explora essa ideia com profundidade. O espaço não dialoga emocionalmente com os personagens; ele apenas existe como cenário funcional. Para o espectador menos habituado à linguagem cinematográfica, isso significa que a casa parece grande e bonita, mas não ameaçadora – e, em um thriller, esse é um problema relevante.
O design de produção sofre do mesmo esvaziamento simbólico. Objetos de luxo, utensílios caros e roupas sofisticadas aparecem como marcadores sociais óbvios, sem camadas adicionais de significado. Eles não ajudam a contar a história, apenas a ilustrá-la. Em termos técnicos, isso revela uma mise-en-scène pouco elaborada, que não utiliza o espaço e os objetos como extensão dramática dos conflitos.
Se A Empregada se sustenta minimamente, isso se deve quase inteiramente ao trabalho de Amanda Seyfried. Sua Nina é um espetáculo à parte. Seyfried compreende que o filme pede exagero e entrega uma atuação que flerta com o absurdo sem perder o controle. Suas expressões faciais, mudanças bruscas de humor e gestos excessivos constroem uma personagem instável, imprevisível e, acima de tudo, divertida de assistir. Há algo de quase caricatural em sua composição, mas essa escolha é coerente com o tom que o filme só assume plenamente mais tarde. Ela rouba todas as cenas em que aparece, funcionando como o verdadeiro motor dramático da narrativa.

Já Sydney Sweeney segue por um caminho completamente diferente. Sua Millie é contida, rígida e emocionalmente opaca durante grande parte do filme. Em um primeiro momento, isso pode ser interpretado como uma limitação da atuação, e de fato o contraste com Seyfried é gritante.
No entanto, quando o filme abandona qualquer pretensão de realismo psicológico e passa a abraçar o exagero, essa rigidez inicial ganha um novo sentido. A transformação da personagem no último ato, embora abrupta, revela que a atuação “monocromática” de Sweeney acaba funcionando como preparação involuntária para a virada. Ainda assim, o desequilíbrio entre as duas atrizes compromete a dinâmica central da história.
Brandon Sklenar, no papel do marido Andrew, ocupa um espaço quase decorativo. Sua atuação é correta, mas o personagem é escrito de forma tão genérica que não há muito o que explorar. Ele transita entre a cordialidade e a ameaça de maneira previsível, funcionando mais como ferramenta de roteiro do que como figura dramática consistente. Isso enfraquece parte da tensão sexual e psicológica que o filme tenta construir.
O roteiro de Rebecca Sonnenshine até ensaia uma crítica às relações de classe e ao fascínio pelo dinheiro, mas faz isso de maneira superficial. A ideia de que o privilégio funciona como uma máscara para comportamentos perversos é apresentada como se fosse uma grande revelação, quando já é um conceito amplamente explorado pelo cinema contemporâneo. Falta profundidade e coragem para levar essa crítica adiante. Em vez disso, o filme prefere reiterar o óbvio, tratando o espectador como alguém que precisa ter tudo explicado.
A montagem reforça essa sensação. Em diversos momentos, o ritmo parece irregular, com cenas que se encerram abruptamente e transições pouco elegantes. Porém, quando o filme entra em seu último terço, essa falta de polimento passa a jogar a favor da experiência. As reviravoltas se acumulam, a lógica interna se flexibiliza e o filme finalmente se permite ser bobo sem vergonha. Flashbacks expositivos, decisões narrativas exageradas e até certos problemas técnicos passam a funcionar como parte do espetáculo.

A trilha sonora também reflete essa indecisão tonal. Em alguns momentos, ela tenta conferir solenidade a cenas que não sustentam esse peso; em outros, recorre a músicas pop de forma quase constrangedora. Ainda assim, essas escolhas ajudam a reforçar o caráter artificial do filme, que parece sempre dividido entre agradar públicos distintos.
No fim das contas, A Empregada não é um bom thriller nem uma sátira inteligente. Falta rigor técnico, ousadia formal e clareza de tom. Mas há algo genuinamente divertido em sua disposição de falhar. Quando o filme abandona a tentativa de ser mais inteligente ou profundo do que realmente é, ele encontra sua verdadeira identidade: a de um entretenimento bobo, exagerado e consciente de suas próprias limitações. É nesse ponto que ele se torna mais honesto – e, paradoxalmente, mais eficaz.
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