A Natureza das Coisas Invisíveis, longa de estreia de Rafaela Camelo, nasce como quem abre uma janela para a claridade de uma manhã que ainda hesita em existir. O filme se instala com a suavidade de uma lembrança antiga, dessas que sobrevivem mesmo quando todas as outras já se apagaram. Desde seus primeiros instantes, há um convite silencioso para voltar ao território da infância – não aquela idealizada, mas a que observa o mundo com um senso de mistério que os adultos, por pressa ou medo, aprenderam a enterrar. Esse retorno se torna também o pórtico de um rito de passagem; um movimento que leva da inocência à descoberta e, na contramão do que se espera, da morte para um tipo inesperado de nascimento.
Esse impulso inicial é reforçado pelo encontro entre duas meninas, Glória (Laura Brandão) e Sofia (Serena), que se cruzam nos corredores de um hospital. A partir desse instante, o filme se expande para além da concretude do espaço clínico e abraça o campo das experiências que se tocam pela vulnerabilidade. É nessa dobra entre realidade e sensibilidade que o longa constrói sua força a partir de contrastes. E embora o título esteja logo ali, sugerindo mistérios ocultos, é o olhar das crianças que realmente orienta o espectador pelo território do invisível.
Antes de mergulhar nos signos espirituais, nas dinâmicas do cuidado ou na presença das benzedeiras como eixo narrativo, é importante compreender o enredo que sustenta esse tecido tão delicado. Glória, marcada por uma cirurgia que deixou no peito o vestígio de uma vida que quase escapou, acompanha a mãe enfermeira durante as férias, convivendo com idosos em diferentes fases da despedida. Sofia, por sua vez, está no hospital porque acompanha a bisavó – uma figura profundamente afetiva e ligada a práticas espirituais – que enfrenta um processo degenerativo. Entre uma e outra, nasce uma amizade que atravessa as paredes frias do hospital e se estende ao cotidiano das duas famílias, permitindo que cada criança lide, à sua maneira, com perdas que chegam antes da hora.

É nesse encontro que o filme se firma como obra sobre amadurecimento, mas também sobre a fragilidade dos vínculos e a força que eles ganham quando a vida se aproxima dos seus limites. A sinopse, embora simples, é só o ponto de partida, aquilo que realmente importa emerge nos detalhes – nos gestos minúsculos, nos silêncios, na dúvida que se insinua no olhar de cada personagem.
O que torna A Natureza das Coisas Invisíveis tão singular, sobretudo para quem reconhece seus traços culturais, é como Rafaela articula as relações entre ciência, espiritualidade e cuidado. A diretora constrói esses elementos de modo híbrido, sem impor hierarquias. O hospital, que tradicionalmente representa racionalidade e controle, é filmado como espaço humano; suas paredes acolhem brincadeiras, conversas, confrontos e até pequenas manifestações do sobrenatural. A câmera, frequentemente posicionada na altura das meninas, respeita a perspectiva infantil e faz com que o espectador também se curve para enxergar aquilo que costuma passar despercebido. Essa decisão estética não apenas revela o universo das personagens, mas funciona como gesto político, tratando o olhar infantil com seriedade e profundidade, mostrando que crianças compreendem mais do que os adultos imaginam.
A fotografia de Francisca Sáez Agurto se destaca justamente por essa capacidade de transitar entre dois mundos sem nunca sublinhar a fronteira. Os ambientes do interior, marcados pela tradição das benzedeiras, convivem com a urbanidade da capital em absoluta continuidade. Não há ruptura, porque o filme se recusa a dividir o real e o espiritual em caixas estanques. A luz é utilizada para criar suavidade, quase sempre evitando contrastes bruscos. Nas cenas hospitalares, por exemplo, o branco não se apresenta como esterilidade, mas como claridade que acolhe – um recurso que ajuda a sustentar a leveza da narrativa mesmo diante dos temas difíceis.
A montagem, assinada por Marina Kosa, reforça essa organicidade. Os cortes são discretos, orientados mais pelas emoções do que pelo ritmo. As cenas se encadeiam como lembranças que voltam e se esvaem, criando uma sensação de fluxo contínuo. Não há pressa; há respeito pelo tempo de cada gesto. A diretora sabe que, ao lidar com temas como morte, identidade e espiritualidade, o impacto vem menos da dramaticidade e mais da honestidade do enquadramento. Isso explica por que o filme evita melodrama e, ainda assim, toca tão profundamente.
No centro disso tudo, estão as atuações das crianças. Laura Brandão e Serena entregam performances de surpreendente maturidade, sem nunca abandonar a espontaneidade que define a infância. Elas não interpretam a sensibilidade; elas a vivem. É justamente essa naturalidade que impede o filme de soar ensaiado demais. Quando conversam sobre medos, perdas ou identidade, não o fazem com a artificialidade que costuma rondar papéis infantis, mas com a curiosidade verdadeira de quem está testando palavras para nomear sentimentos pela primeira vez. As duas carregam a narrativa com força e ternura, e suas presenças explicam por que o olhar do filme permanece tão fresco mesmo quando se aproxima do tema da morte.

A figura da bisavó, interpretada por Aline Marta Maia, também merece destaque. Sua presença, ainda que fragilizada, é irradiada por um tipo de afeto que ultrapassa o físico. A personagem humaniza o envelhecimento sem o idealizar, dialogando com a memória coletiva que muitos brasileiros carregam de suas próprias matriarcas; mulheres que, mesmo debilitadas, continuam sustentando os laços familiares por meio de gestos simples, de rezas, de rituais herdados. Esse entrelaçamento de saberes populares com a prática científica cria no filme uma ponte simbólica poderosa – uma forma de afirmar que o cuidado se manifesta de diferentes maneiras e que todas elas têm seu valor.
E se ao longo da narrativa a morte se insinua como presença constante, o filme decide não a tratar como ruptura definitiva. Ele a enxerga como passagem, como dobra no tempo, como algo que exige transformação – das famílias, das crianças, de quem assiste. O último ato não se encerra na despedida, mas no gesto que a sucede. Da mesma maneira que a introdução se abriu para uma claridade tímida, o desfecho se ilumina novamente, agora com a convicção suave de que o invisível não é ausência, mas permanência.
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