Crítica | A Useful Ghost: quando um aspirador de pó quer dizer tudo sobre amor, memória e trabalho
Pandora Filmes/Divulgação

Crítica | A Useful Ghost: quando um aspirador de pó quer dizer tudo sobre amor, memória e trabalho

A Useful Ghost: Uma Ajuda do Além chega como um sopro de ar – não exatamente fresco, tampouco limpo, mas necessário. Num cenário cinematográfico cada vez mais higienizado, onde narrativas são aspiradas até perder qualquer resíduo de risco, o filme de Ratchapoom Boonbunchachoke prefere circular poeira, espalhar partículas incômodas e testar os limites do que pode ou não permanecer em suspensão. É um sopro irregular, por vezes excessivo, que incomoda os olhos e provoca tosse, mas que também devolve movimento a um ambiente viciado pela repetição. Mesmo tropeçando em suas próprias ambições, a obra assume o risco de não se acomodar.

O longa nos introduz na relação entre March (Witsarut Himmarat) e Nat (Davika Hoorne), agora incorporada a um aspirador de pó vermelho, estabelecendo assim o tom inicial da narrativa. O luto, aqui, não é tratado como processo psicológico, mas como recusa ativa da separação. March continua conversando, tocando e se relacionando sexualmente com a esposa, como se a morte fosse apenas um inconveniente burocrático. Essa escolha dramatúrgica busca a normalização do absurdo. Familiares observam o aspirador como quem tolera uma mãe de um bebê reborn; colegas de trabalho encaram fantasmas como problemas logísticos, não existenciais. O humor nasce justamente desse descompasso entre o que deveria causar pânico e o que é tratado como rotina.

Boonbunchachoke amplia esse jogo ao estender a lógica do assombro para o ambiente industrial. Um funcionário morto retorna para possuir máquinas, não para aterrorizar, mas para sabotar a produção. O sobrenatural, portanto, não surge como ruptura do mundo real, e sim como continuação dele por outros meios. Essa decisão tem implicações políticas claras: mortos e vivos compartilham o mesmo espaço de exploração, e a fábrica se transforma em palco onde memória, trabalho e vingança se misturam. Quando uma empresa de aspiradores perde a licença por excesso de poeira acumulada, a ironia dispensa sublinhados. O objeto criado para limpar se torna símbolo do que sufoca.

Visualmente, o filme acompanha essa recusa do naturalismo. A fotografia alterna entre enquadramentos frontais, quase prosaicos, e composições que flertam com o onírico. Cores pastéis, cenários assumidamente artificiais e objetos em destaque constroem um mundo que nunca pretende ser transparente. Em alguns momentos, a imagem parece querer nos lembrar de que estamos vendo um filme, não um espelho da realidade. Isso fica evidente desde as cenas iniciais, nos cenários que surgem e desaparecem sem retorno narrativo, como se fossem ideias lançadas ao vento. Para o espectador menos acostumado a esse tipo de proposta, o efeito pode soar dispersivo; para outros, trata-se de um gesto de liberdade formal.

A montagem reforça essa postura lúdica ao recorrer a transições anacrônicas, como fechamentos em íris ou cortinas, recursos associados a um cinema de outra época. Esses truques funcionam como comentários irônicos sobre a própria linguagem cinematográfica, lembrando que a história pode ser interrompida ou reencenada a qualquer momento. Há também enquadramentos deliberadamente estranhos, como personagens parcialmente ocultos por objetos sem função dramática clara. A sensação é de que o diretor testa constantemente os limites do que ainda pode ser considerado coeso.

No entanto, essa profusão de ideias cobra seu preço. Com mais de duas horas de duração, A Useful Ghost acumula personagens, subtramas e viradas que nem sempre dialogam entre si. Além do romance central, acompanhamos um cliente descontente, um técnico de intenções ambíguas, dois operários vivendo um caso secreto e uma série de figuras periféricas que entram e saem da narrativa. O filme parece interessado em falar sobre amor impossível, desigualdade social, memória histórica, direitos trabalhistas e sexualidades dissidentes – temas relevantes e urgentes –, mas raramente concede tempo suficiente para que qualquer um deles se desenvolva plenamente. Quando tudo importa, nada se fixa.

Essa dificuldade de hierarquização afeta também o tom. Há cenas que pedem entrega emocional sincera e outras que operam no registro quase de farsa. O problema não é a mistura em si, mas a falta de transição entre esses registros. Algumas atuações se inclinam para o drama, enquanto outras abraçam a caricatura, criando um choque que nem sempre parece intencional. A direção de arte segue caminho semelhante; um apartamento bagunçado e verossímil convive com um hospital clandestino de aparência futurista, cuja estética não encontra eco no restante do universo do filme. Para o público, fica a impressão de estar mudando de canal dentro da mesma obra.

Ainda assim, há momentos de genuíno impacto. A ideia de que fantasmas sobrevivem enquanto são lembrados confere peso melancólico à fantasia, sobretudo quando amantes começam a desaparecer à medida que são esquecidos. O figurino de Nat, alinhado cromaticamente aos operários da fábrica, visualiza de forma simples e eficaz a equivalência entre diferentes formas de exploração. São escolhas que traduzem conceitos complexos em imagens acessíveis, cumprindo uma função essencial do cinema.

O terço final evidencia tanto a ambição quanto as fragilidades do projeto. Ao tentar articular corrupção, vingança histórica e erotismo, o filme oscila entre a gravidade repentina e o humor quase infantil. O espectador pode se perguntar se deve rir, refletir ou apenas acompanhar o fluxo. A narrativa hesita sobre quando terminar, como se estivesse mais interessada em prolongar suas possibilidades do que em oferecer uma conclusão. Há prazer evidente no caminho, mas pouca confiança no ponto de chegada.

Essa postura ajuda a explicar por que A Useful Ghost: Uma Ajuda do Além se impõe como experiência memorável, ainda que irregular. Gostando ou não, existe uma vontade genuína do filme provocar por sua estranheza e aceita o risco de desagradar. A consagração internacional, com prêmio importante em Cannes, indica que essa ousadia encontrou eco fora de seu contexto nacional.

Ao final, o longa se afirma menos como síntese e mais como provocação. Ele não pede que o espectador concorde, mas que acompanhe, mesmo tropeçando. Como toda obra que se lança em múltiplas direções, deixa destroços e lampejos pelo caminho. Cabe a quem assiste recolher o que faz sentido e aceitar que, às vezes, um aspirador de pó pode ser apenas um aspirador – ou um fantasma insistente, determinado a não desaparecer enquanto ainda houver algo a ser dito.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.