A Vingança de Charlie é um filme que chega devagar, tira os sapatos na entrada e se senta no sofá sem pedir licença. Não faz barulho, não grita por atenção e tampouco se preocupa em cumprir expectativas alheias. Essa postura, que para alguns pode soar como falta de ousadia ou energia, é justamente o que define sua identidade. O longa prefere observar em vez de atacar, escutar em vez de explicar, e essa escolha molda toda a experiência – para o bem e para o mal.
A história se desenrola quase inteiramente dentro da casa onde Charlie, vivida por Kathleen Kenny, se isolou após uma experiência traumática. É um espaço doméstico que, aos poucos, deixa de ser cenário e passa a funcionar como organismo vivo. A casa respira com a protagonista, carrega seus silêncios, repete seus gestos e amplia suas paranoias. Não é um abrigo confortável nem um cárcere explícito; é um meio-termo desconfortável, como tudo na vida de alguém que tenta seguir em frente sem nunca ter realmente voltado ao ponto de partida.
O filme entende que o trauma raramente se manifesta de forma cinematográfica. Não há aqui grandes surtos, diálogos inflamados ou explosões emocionais. A dor de Charlie é discreta, quase educada. Ela trabalha em home office, atende outras pessoas, ajuda quem precisa – e talvez esse seja um dos detalhes mais cruéis e inteligentes do roteiro. A ironia é que a protagonista dedica seus dias a orientar dores alheias enquanto mal consegue tocar na própria ferida. É um retrato incômodo, mas honesto, de como muitas vítimas aprendem a funcionar sem jamais se sentirem inteiras.

Dirigido por Colton Tran (“The Bell Keeper”), o filme se ancora nessa observação minuciosa. A câmera raramente se afasta da protagonista, acompanhando seus movimentos com uma proximidade quase invasiva. Não há pressa nos cortes, nem em conduzir o olhar do espectador para onde “algo vai acontecer”. Muitas vezes, nada acontece. E é justamente aí que mora o desconforto. O terror proposto por A Vingança de Charlie não surge do impacto, mas da espera. Daquela sensação persistente de que algo está errado, mesmo quando tudo parece quieto demais.
Essa estratégia dialoga diretamente com a ambiguidade que o filme constrói ao longo de sua duração. Durante boa parte da projeção, somos convidados a desconfiar da própria percepção da protagonista. Sons estranhos, presenças sugeridas, pequenos desvios da rotina levantam uma pergunta constante: estamos diante de uma ameaça real ou apenas acompanhando uma mente que ainda não conseguiu se desvincular do passado? Essa dúvida é um dos pontos mais interessantes do longa, porque desloca o suspense do campo físico para o psicológico. O medo não está necessariamente do lado de fora da porta, mas dentro da cabeça de quem a tranca todas as noites.
No entanto, essa mesma ambiguidade acaba sendo subaproveitada. O filme parece flertar com a possibilidade de mergulhar mais fundo nesse suspense psicológico, mas recua. Quando a narrativa confirma que a ameaça existe de fato, a revelação não provoca o impacto que poderia. Não porque seja incoerente, mas porque a tensão construída até ali não se transforma plenamente em conflito dramático. É como se o filme tivesse medo de trair sua própria proposta ao se aproximar demais do gênero que habita.
A opção por um único espaço reforça a sensação claustrofóbica, mas também levanta questionamentos incômodos. Por que Charlie permanece sozinha? Por que não busca ajuda? Por que insiste em se manter naquele lugar? O roteiro responde a essas perguntas apenas no final, o que faz sentido do ponto de vista emocional, mas cria um desconforto que nem sempre parece intencional. Em alguns momentos, a dúvida do espectador não nasce do mistério, mas de uma sensação estrutural de espera prolongada demais.
O ritmo é, sem dúvida, o ponto mais delicado do filme. Mesmo com apenas 75 minutos, A Vingança de Charlie carrega uma sensação de obra esticada. A ação propriamente dita só se manifesta nos minutos finais, quando o filme já começa a se despedir. Até lá, o espectador acompanha uma sucessão de rotinas, silêncios e pequenos deslocamentos emocionais. Dá a impressão que estamos diante de uma versão esticada de um curta de 15 minutos. Não chega a ser um teste de paciência, mas, definitivamente, há um descompasso que pode incomodar quem não embarcar na
O antagonista, conhecido como The Gentleman, surge mais como conceito do que como presença concreta. Essa decisão é coerente com a ideia de que o verdadeiro horror não está no indivíduo, mas na memória da violência. O vilão é menos um homem e mais uma sombra que insiste em ocupar o mesmo espaço mental da protagonista. Ainda assim, quando o confronto direto acontece, há uma quebra de expectativa curiosa: a ameaça, antes difusa e perturbadora, revela-se menos amedrontadora do que o clima sugeria. O embate final carece de força e, de certa forma, esvazia parte da tensão acumulada.
Visualmente, o filme aposta em uma linguagem econômica. A fotografia evita contrastes muito marcados e trabalha com uma paleta que vai do preto para um amarelado fosco, que reforça a sensação de isolamento. O filme trabalha em cenários escuros com poucos pontos de luz, incluindo as cenas diurnas, reforçando que a protagonista está nas sombras por escolha própria.


Nada salta aos olhos, e essa escolha parece deliberada. A ideia não é impressionar visualmente, mas sustentar uma atmosfera contínua, quase sufocante. A montagem acompanha essa proposta, privilegiando planos mais longos e uma cadência que respeita o tempo interno da protagonista, mesmo quando isso custa dinamismo.
As referências a obras como “Hush: A Morte Ouve” e à franquia “Pânico” ajudam a situar o espectador, mas A Vingança de Charlie claramente não busca o mesmo tipo de entretenimento. Aqui, o horror não é jogo, nem espetáculo. É resíduo. É aquilo que sobra depois que o susto passa e a vida insiste em continuar. Diferente de muitos filmes contemporâneos que usam o trauma apenas como justificativa narrativa, este longa escolhe permanecer nele, mesmo quando isso torna a experiência menos confortável.
A Vingança de Charlie pode até sofrer com ritmo e sensação de um curta-metragem esticado demais, no entanto, ele também é sincero em sua proposta. É um filme que entende que o verdadeiro horror nem sempre corre atrás da vítima – às vezes, ele se senta ao lado dela, divide o mesmo teto e espera pacientemente enquanto o mundo segue como se nada tivesse acontecido.
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