Crítica | A Voz de Hind Rajab: entre o real e o ficcional, dando voz aos tratados como estatística
Synapse Distribution/Divulgação

Crítica | A Voz de Hind Rajab: entre o real e o ficcional, dando voz aos tratados como estatística

A Voz de Hind Rajab se constrói a partir de uma decisão tão simples quanto radical: não mostrar o centro da violência, mas deixar que ele ecoe. O filme de Kaouther Ben Hania não persegue imagens, nem se organiza como um thriller de guerra. O que se vê, na maior parte do tempo, são salas fechadas, mesas de trabalho, telas de computador, celulares ligados, rostos cansados. Ainda assim, raramente um longa foi tão atravessado pela morte. E isso acontece porque o cinema aqui não opera pela exibição, mas pelo confronto direto com aquilo que se ouve – e com aquilo que não se consegue fazer.

A diretora opta por acompanhar os voluntários da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino durante as tentativas de resgate de uma criança presa em um carro alvejado. Essa escolha espacial, aparentemente restritiva, abre um campo expressivo. O espectador permanece confinado aos mesmos ambientes que os personagens, compartilhando a espera, a frustração e o desespero progressivo. Não há fuga possível para outros pontos de vista. A guerra não é vista de longe nem reconstruída em grandes planos; ela se infiltra pelos telefones, pelos protocolos, pelos silêncios entre uma ligação e outra.

O roteiro se apoia em gravações reais das conversas com Hind Rajab, e o filme nunca tenta esconder isso. Pelo contrário, ele faz questão de lembrar, o tempo todo, que aquela voz não foi criada em estúdio. Em vários momentos, o trabalho de espelhamento ganha destaque. Uma tela de computador reflete no rosto de um voluntário, revelando imagens reais das pessoas envolvidas. Um vídeo gravado por celular surge na própria cena, e o enquadramento passa a abarcar, simultaneamente, o ator e a figura real que ele representa. Não se trata de um truque estilístico, mas de um gesto político e cinematográfico: o filme se recusa a substituir a realidade pela ficção, preferindo colocá-las lado a lado, em fricção constante.

Crítica | A Voz de Hind Rajab: entre o real e o ficcional, dando voz aos tratados como estatística
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Esse jogo entre presença e representação se estende às atuações. O elenco trabalha em chave contida, sem explosões dramáticas fáceis. Há instantes em que os atores interrompem suas falas, permanecendo imóveis, enquanto os áudios originais continuam. O efeito é perturbador. O corpo em cena parece insuficiente diante daquilo que a voz carrega. Para um público menos habituado à linguagem do cinema, vale destacar como essa estratégia funciona: ao retirar a palavra do ator, o filme explicita o limite da encenação e devolve o protagonismo à experiência vivida. A emoção não nasce da performance, mas do atrito entre o que se encena e o que realmente aconteceu.

A câmera acompanha esse estado de tensão com uma inquietação quase orgânica. Os planos são fechados, muitas vezes instáveis, como se o enquadramento buscasse ar em ambientes saturados de urgência. A fotografia evita contrastes dramáticos ou composições estilizadas. A luz é funcional, por vezes dura, lembrando que aquele espaço não foi pensado para o cinema, mas para o trabalho contínuo em emergência. Essa recusa ao “belo” não empobrece o filme; ao contrário, impede que o espectador se distancie pela contemplação estética.

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A montagem desempenha papel central na experiência. O tempo do filme não segue uma lógica de entretenimento, mas a lógica cruel da burocracia. Cada ligação exige autorizações, cada deslocamento depende de confirmações que se arrastam. A edição insiste nesses processos, repete etapas, reforça atrasos. Lentamente, fica claro que essa engrenagem administrativa é tão opressiva quanto a violência armada. O longa faz questão de explicar esses procedimentos, traduzindo para o espectador como funcionam os protocolos de segurança e por que ignorá-los significa colocar ainda mais vidas em risco. Não é uma informação jogada ao acaso; é um elemento dramático que estrutura toda a narrativa.

Há momentos em que essa abordagem direta, quase jornalística, pode gerar certa frieza. A simplicidade formal, somada à ambientação limitada, faz com que algumas passagens pareçam mais descritivas do que elaboradas. Ainda assim, essa sensação não compromete o conjunto. Pelo contrário, reforça a impressão de que o filme se mantém deliberadamente numa zona de desconforto, evitando atalhos emocionais fáceis. A obra não quer seduzir; quer confrontar.

O caráter denunciativo atravessa cada decisão. A raiva que o filme provoca não surge de discursos inflamados, mas da constatação repetida de um sistema que falha de maneira estrutural. Ao acompanhar os voluntários, o longa expõe como indivíduos são esmagados por regras impostas de fora, sem jamais os responsabilizar. A indignação cresce à medida que o espectador percebe que não se trata de erro pontual, mas de um funcionamento regular, aceito e normalizado.

Crítica | A Voz de Hind Rajab: entre o real e o ficcional, dando voz aos tratados como estatística
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O uso do som é decisivo nesse processo. A voz de Hind Rajab atravessa o filme como um fio invisível que costura todas as cenas. Mesmo quando não está presente, ela parece ecoar nos espaços vazios, nos olhares perdidos, nas mãos que seguram o telefone. Uma voz, sem imagem, é capaz de ocupar toda a tela. Ela não ilustra a tragédia, mas a materializa.

É nessa região cinzenta, entre a dramatização ficcional e o registro real, que A Voz de Hind Rajab encontra sua identidade. O filme não tenta resolver essa tensão, nem escolher um lado. Ele habita esse espaço instável, consciente de que qualquer tentativa de organizar o caos seria, em si, uma forma de violência. A decisão de encerrar a narrativa mantendo a criança ainda em vida não é apenas respeitosa, mas cinematograficamente precisa. Ao recusar um fechamento definitivo, Ben Hania preserva a presença da voz e impede que o filme se transforme em epitáfio. O que fica não é o fim, mas a escuta – como um som que insiste, reverbera e se recusa a desaparecer.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.