Crítica | Arco: um arco-íris que conecta dois mundos que escorrega na própria leveza
MUBI/Divulgação

Crítica | Arco: um arco-íris que conecta dois mundos que escorrega na própria leveza

Uma imagem atravessa Arco, nova animação francesa dirigida pelo estreante Ugo Bienvenu, e que talvez seja a chave para entendê-la: a de crianças imitando pássaros, criando uma linguagem própria feita de assobios e afeto. É uma cena que poderia sair de um conto do Studio Ghibli, e não por acaso. O longa escancara suas referências com um orgulho quase didático – Miyazaki, Moebius, René Laloux e Daniel Clowes – e as usa para construir um mundo que respira imaginação.

A trama acompanha Arco, um menino de dez anos que vive com a família em uma espécie de colônia flutuante no ano 3075. Vestidos com mantos que lembram arco-íris, seus parentes viajam no tempo para estudar diferentes eras. Ansioso para explorar, o garoto rouba o traje da irmã e tenta visitar a época dos dinossauros, mas acidente o faz cair em 2075 – um futuro próximo onde a humanidade vive as consequências do colapso ecológico e crianças são criadas por robôs após o abandono dos pais. Lá, ele conhece Iris, uma garota solitária que vive com o irmão bebê e a babá mecânica Mikki, e juntos tentam encontrar uma forma de mandá-lo de volta para casa enquanto um incêndio florestal se aproxima.

O ponto de partida é promissor, e há uma generosidade evidente na forma como Bienvenu constrói esse encontro entre dois universos. O roteiro, coescrito com Félix de Givry, acerta ao não transformar a diferença temporal em piada ou estranhamento forçado – Arco se maravilha com o que vê, mas não age como um turista idiota; Iris, por sua vez, aceita sua história com a naturalidade de quem precisa desesperadamente de um amigo. A química entre os dois protagonistas é genuína e emociona justamente por ser construída em silêncios e gestos de afeto. Sobretudo nesse mundo onde robôs tomam de conta de praticamente tudo, a ideia de que a conexão humana prescinde de explicações.

Visualmente, Arco é um deleite. A animação em 2D, desenhada à mão, carrega a textura de uma história em quadrinhos – o que faz sentido, já que Bienvenu vem justamente das HQs. Os traços são soltos, quase aquarelados, e os cenários alternam entre a frieza geométrica dos domos suburbanos de 2075 e a organicidade quase onírica da sociedade futurista onde Arco nasceu.

Crítica | Arco: um arco-íris que conecta dois mundos que escorrega na própria leveza
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Existe um cuidado especial com os rostos: as expressões são sutis, os olhos grandes carregam emoções que dispensam falas, e o design dos personagens evita os padrões pasteurizados da animação industrial, a parte que mais remete ao trabalho de Clowes. A fotografia do longa, se é que podemos chamar assim num filme animado, aposta em contrastes suaves e numa paleta que privilegia tons terrosos no presente distópico e cores mais vibrantes nas memórias do futuro idealizado. O resultado é uma obra que realmente parece pintada, frame a frame.

No entanto, a beleza visual não sustenta todas as escolhas narrativas. O grande problema de Arco é sua pressa. A impressão é que o filme tem tanto medo de perder a atenção das crianças que corta cenas antes que qualquer conflito se desenvolva de verdade. Personagens surgem e desaparecem sem deixar rastros – os três irmãos conspiradores que acreditam ter visto “gente arco-íris” décadas atrás, por exemplo, são apresentados como potenciais aliados ou vilões, mas têm sua participação resolvida apressadamente e anticlimática. O próprio Mikki, o robô babá, carrega em sua programação ecos de uma crítica social interessante sobre a delegação da parentalidade à tecnologia, mas suas ações se limitam a funções básicas de cuidado e alguma vigilância. Falta densidade.

Crítica | Arco: um arco-íris que conecta dois mundos que escorrega na própria leveza
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Essa superficialidade se estende às alegorias que o filme levanta. Religião, espiritualidade, colapso ambiental, abandono infantil – são muitos temas para apenas 80 minutos, e o roteiro os trata com uma leveza que ora funciona como acalento, ora soa como fuga. A sociedade de 2075, onde crianças criam umas às outras enquanto os pais aparecem apenas como hologramas, dialoga com questões urgentes sobre o capitalismo tardio e a precarização do afeto. Mas o filme não se aprofunda, prefere acreditar que a amizade entre Arco e Iris, por si, já é resposta suficiente para qualquer dilema. E talvez seja, para uma criança de sete anos. Para o espectador adulto, no entanto, fica a sensação de que Arco coleciona perguntas interessantes sem coragem de enfrentar as respostas.

Ainda assim, é preciso reconhecer que Arco acerta mais do que erra. Sua mensagem central – a de que o futuro pode ser melhor se formos capazes de cultivar amizade e empatia – é comunicada com sinceridade e ingenuidade. E há uma coragem admirável em mostrar as consequências do descaso ecológico sem transformar o filme num manifesto panfletário. O incêndio que ameaça os personagens não é apenas metáfora; mas um lembrete de que o mundo deles, assim como o nosso, arde em tempo real.

Crítica | Arco: um arco-íris que conecta dois mundos que escorrega na própria leveza
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No fim, Arco é um arco-íris que se forma e se desfaz em questão de minutos. Lindo, etéreo, mas fugaz. Para os olhos, é um banquete. Para a alma, um vislumbre. Para quem sente o mundo com os sentidos todos ligados ao mesmo tempo, fica a frustração de ter provado um doce que poderia ter sido um banquete completo. Ainda assim, e apesar de tudo, é daqueles filmes que a gente quer que as crianças vejam. Porque ensinar a ouvir os pássaros, a confiar no outro e a colorir dias cinzentos com a presença de quem a gente ama é sempre um bom começo.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.