Crítica | Black Country, New Road reinventa sua identidade em 'Forever Howlong', com folk progressivo e irmandade feminina
Black Country, New Road/Divulgação

Crítica | Black Country, New Road reinventa sua identidade em ‘Forever Howlong’, com folk progressivo e irmandade feminina

Quando Isaac Wood deixou o Black Country, New Road (BC,NR) em 2022, dias antes do lançamento do aclamado “Ants From Up There”, muitos fãs acharam que a banda não sobreviveria. Afinal, Wood não era apenas o vocalista, mas a voz que personificava a angústia existencial e a grandiosidade dramática que definiam o grupo. Dois anos depois, o sexteto londrino retorna com Forever Howlong, seu terceiro álbum de estúdio, e prova que a reinvenção pode ser tão poderosa quanto a nostalgia.

Desta vez, as vocalistas Georgia Ellery (violino), Tyler Hyde (baixo) e May Kershaw (teclados) assumem o microfone, dividindo a liderança de forma orgânica. O resultado é um disco que abraça o folk progressivo, o barroco-pop e até toques de música medieval, sem nunca perder a essência experimental que sempre caracterizou a banda. Se antes o BC,NR era uma torrente emocional, agora é um rio que serpenteia, cheio de curvas inesperadas e paisagens sonoras luminosas.

Uma nova identidade, três vozes distintas

A primeira grande mudança está na dinâmica vocal. Sem Wood, o grupo não tenta replicar sua entrega visceral. Em vez disso, as três vocalistas trazem personalidades distintas: May Kershaw tem um timbre etéreo, quase “björkiano”; Georgia Ellery canta com uma doçura melancólica; e Tyler Hyde empresta sua voz grave, quase operística, para dar peso às narrativas.

Essa pluralidade feminina não só redefine o som da banda, mas também seu conteúdo lírico. Se antes as letras eram confessionalmente desesperadas, agora elas flertam com o folclore, a amizade e até o humor ácido. Em “Besties”, a faixa de abertura, Ellery brinca com a ambiguidade de uma amizade que beira o desejo não correspondido, tudo embalado por um harpsicórdio que soa como uma caixa de música desgovernada.

Produzido por James Ford (Arctic Monkeys, Depeche Mode), Forever Howlong é um álbum que respira. Os arranjos são meticulosos, mas nunca sufocantes. Há banjos, flautas doces, harpas, cordas que entram e saem como brisas, e até mesmo um toque de música renascentista em “Salem Sisters”, que narra uma fogueira de bruxas em pleno churrasco de verão.

A faixa “For the Cold Country” é um dos pontos altos, começando como uma balada acústica e evoluindo para um crescendo caótico, com a banda inteira batendo os pés no ritmo como se fossem explosões. Já “Mary” é uma joia folk onde as três vocalistas se unem em harmonia, criando um momento de pura cumplicidade.

Narrativas que misturam o mítico e o cotidiano

Liricamente, o disco oscila entre o pessoal e o fantástico. May Kershaw, em particular, tem um talento para transformar situações banais em pequenas epopeias. Em “Nancy Tries to Take the Night”, uma mulher grávida vive um drama íntimo enquanto o banjo e a guitarra de tecem uma melodia que parece saída de um filme de Wim Wenders.

“Two Horses” é uma mini-ópera western, com mudanças de tempo que lembram as composições progressivas do “In the Court of the Crimson King”, do King Crimson, mas, claro, com uma delicadeza que só o BC,NR conseguiria imprimir.

O desafio de seguir em frente

Crítica | Black Country, New Road reinventa sua identidade em 'Forever Howlong', com folk progressivo e irmandade feminina
Black Country, New Road/Divulgação

É inevitável comparar Forever Howlong com os trabalhos anteriores da banda, mas isso seria injusto. Este não é um disco sobre desespero ou grandiosidade, mas sobre reconstrução. Se Ants From Up There era um avião prestes a decolar, este álbum é um passeio de barco, onde cada curva do rio revela uma nova paisagem.

Claro, nem tudo é perfeito. “Happy Birthday” e “Socks” não têm o mesmo impacto emocional que outras faixas, e a referência ao TikTok em “Besties” pode soar datada daqui a alguns anos. Mas esses são pecados menores diante da ousadia e da beleza do projeto como um todo.

O que mais impressiona em Forever Howlong é a coragem da banda em abraçar o novo sem medo. Eles poderiam ter tentado reproduzir a fórmula antiga, mas escolheram explorar territórios novos. O resultado é um disco que, embora diferente, mantém a essência do que sempre fez o BC,NR ser tão especial: a capacidade de surpreender.

Para quem está disposto a deixar o passado para trás e embarcar nessa nova jornada, a recompensa é um álbum repleto de nuances, onde cada audição revela uma nova camada. E, no fim das contas, é isso que define uma grande banda: não o que ela foi, mas o que ela se torna.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.