Luísa Sonza
Pam Martins/Divulgação

Crítica | ‘Bossa Sempre Nova’, de Luísa Sonza, é um disco bonito e só

Luísa Sonza parece perdida em relação aos rumos que quer dar para sua carreira já há algum tempo. Ao mesmo tempo em que ela demonstra querer ser reconhecida como uma cantora com uma obra diferenciada, com propostas inovadoras, a tal obra não acompanha essa mesma ambição e não foge muito do pop genérico padrão feito para viralizar. Agora, em meio a um processo conturbado de produção do seu próximo álbum, a gaúcha apresenta seu passo mais ousado em um projeto que olha para os clássicos; “Bossa Sempre Nova.”

Esse caminho não surgiu do nada. Luísa já havia flertado com o gênero que é um dos formadores da mpb em “Chico”, canção que funciona como um resgate do estilo bossa novista, mas que foi ofuscada pela imensa polêmica na qual ficou imersa. Agora, a cantora dá um passo a mais e apresenta um disco inteiramente dedicado ao gênero, contando com as bençãos dos gigantes Roberto Menescal e Toquinho.

A primeira vista, “Bossa Sempre Nova” é um disco bonito, com uma produção caprichada, um repertório repleto de grandes clássicos e que apresenta Luísa Sonsa em sua melhor forma até então, cantando livre dos maneirismos e firulas incorporadas do canto estadunidense. Aqui, a artista parece soar mais natural, apesar de ainda transparecer preocupação em se provar como uma boa cantora.

No entanto, o álbum não apresenta nada mais além disso. É um disco correto no que se propõe, passa de ano com tranquilidade, mas não acrescenta nada de novo. Tudo se limita a um olhar muito reverencial ao passado, sem fazer nenhuma conexão com o presente, não trazer nenhum novo elemento, nenhum diálogo com tudo o que foi feito no Brasil pós bossa-nova, ou mesmo com o universo pop do qual Luísa vem.

O disco se limita apenas a ser uma coleção de regravações bonitas. A única faixa inédita, “Um Pouco de Mim”, é uma boa composição, mas que não tem força para se sobressair diante dos clássicos que a cercam. Luísa consegue sim mostrar que é uma cantora de talento, mas ainda lhe falta ser uma interprete. Lhe falta imprimir sua personalidade nas canções, usar a voz como a ferramenta que molda a composição e a toma para si, principalmente quando ela se propõe a encarar músicas que foram brilhantemente interpretadas por algumas das maiores vozes da história brasileira.

Falta um tom de descontração, um grau a mais de intimidade com o repertório. “Águas de Março” se transforma em outra coisa com a voz tremulada pelo riso de Elis Regina. “Tarde em Itapoã” ganha um brilho a mais com a sintonia e a cumplicidade entre Vinícius de Morares e Toquinho. “O Barquinho” adquire novas camadas com o canto minimalista, mas subversivo de Nara Leão. Com Luísa, elas apenas são cantadas corretamente.

É claro que Sonza não poderia e nem deveria tentar imitar ou fazer algo parecido com o que esses medalhões fizeram. Mas ela também não tenta fazer nada de diferente, não tenta trazer essas composições para o seu próprio universo, utilizar as suas próprias referências para apresentar um novo olhar para a obra.

“Bossa Sempre Nova” é um disco bem feito e até cumpre bem o papel de apresentar esse legado para as novas gerações. Porém, ele não sai da zona de conforto em momento nenhum e soa pálido no quesito emoção. No âmbito indivudal, Luísa Sonza consegue dar um passo realmente diferente em sua trajetória, mas olhando para o plano geral, esse é um álbum que não tem muita força para marcar ou se sobressair diante de tantas outras propostas incríveis que a música brasileira oferece.

Leia também