Vamos combinar: tem coisa mais cinematográfica do que um bando de homem mal resolvido tentando dar um último grande golpe? Pois é, Hollywood vive disso há décadas. Mas o que fazer quando, no meio do tiroteio e dos planos mirabolantes, o que realmente interessa é ver essas criaturas duronas tentando descobrir o que fazer com os próprios sentimentos? Caminhos do Crime entendeu o recado e entrega justamente isso: um filme de assalto que funciona como desculpa para falar de solidão, cansaço existencial e da dificuldade que certos homens têm de lidar com o próprio umbigo.
A trama é aparentemente simples, dessas que a gente já viu em dezenas de produções do gênero. Davis, interpretado por Chris Hemsworth é um ladrão de joias que opera nas estradas da Califórnia, mais especificamente na lendária Rodovia 101, aquela que corta Los Angeles margeando o oceano e serve de cenário para tanta gente perdida em filmes americanos.
Ele resolve que está na hora de pendurar as luvas, mas antes quer acertar a conta com um último grande golpe. O problema é que, no meio do caminho, ele cruza com uma corretora de seguros vivida por Halle Berry e com um detetive obstinado na pele de Mark Ruffalo – dois personagens que, cada um à sua maneira, também estão tentando sobreviver aos próprios fantasmas.
Dá para sentir logo nos primeiros minutos que tem algo diferente no ar. A câmera quer chegar perto, quase invadir o espaço dos personagens. O diretor, Bart Layton, um sujeito claramente apaixonado pelo cinema do Michael Mann, constrói cada cena com um cuidado incomum para filmes de ação. AS luzes da cidade refletidas no para-brisa, rostos iluminados pelo neon dos postes, corpos que ocupam o espaço com uma dureza que esconde fragilidades.
Só que, ao contrário do mestre americano, aqui a coisa é mais comedida, menos radical na forma, mas igualmente eficiente na intenção. É como se pegassem a estética do cara e misturassem com uma melancolia mais caseira, dessas que a gente reconhece no olhar do vizinho ou no balconista da padaria tarde da noite.

Hemsworth surge irreconhecível – não fisicamente, mas na maneira como esconde tudo atrás da testa franzida. Seu personagem é daqueles que resolvem problemas com eficiência assustadora, mas travam completamente quando o assunto é sentir alguma coisa.
Mark Ruffalo, por sua vez, carrega nos ombros caídos o peso de quem já desistiu de tanta coisa que nem lembra mais por onde começou. O ator tem esse dom de comunicar exaustão sem precisar abrir a boca, e aqui ele exercita isso como poucos. Já Halle Berry entra em cena e o filme muda de patamar, ganha uma densidade que até então vinha sendo construída lentamente. Imponente sem ser arrogante, delicada sem ser frágil – é um espetáculo à parte.

E aí entra Barry Keoghan para bagunçar tudo. O rapaz, que já mostrou em outros filmes que nasceu para causar desconforto, aparece como uma força descontrolada. Se o trio principal age com método e contenção, ele é puro instinto, um animal solto na sala tentando derrubar os móveis. O confronto entre ele e Hemsworth tem a tensão de dois mundos que não deveriam ocupar o mesmo espaço.
A montagem, aliás, é fundamental para entendermos o tipo de filme que ele quer ser. Ela costura as histórias com paciência, criando paralelismos que são às vezes temáticos, às vezes puramente visuais. O espectador vai entendendo aos poucos que aquelas vidas, aparentemente separadas, estão todas navegando o mesmo oceano de solidão.
Nem todas as subtramas funcionam igualmente bem – algumas morrem na praia, como a presença de Monica Barbaro, que surge prometendo tempestade, mas entrega apenas uma brisa passageira. Mas o conjunto segura firme, e quando a tensão finalmente explode, na longa sequência do carro e no clímax dentro de um hotel.
Visualmente, o filme tem duas sequências que merecem ser guardadas na memória afetiva de quem ama cinema de ação. A primeira é quando a câmera se vira de ponta-cabeça para filmar a paisagem urbana através do vidro do carro. A segunda é quando o olho mágico da câmera se levanta da cama com Hemsworth, como se também estivesse acordando para mais um dia de enfrentar o vazio. São escolhas discretas, mas que revelam o diretor pensou cada enquadramento como extensão do que seus personagens sentem.
Caminhos do Crime não veio para reinventar a roda. Aliás, se tem uma coisa que ele deixa claro é que conhece muito bem as rodas que já foram inventadas e sabe exatamente como as usar. O que importa aqui é o que ele faz com essa roda: coloca ela para girar na direção certa, na velocidade certa, e aproveita o trajeto para observar a paisagem humana que passa pela janela. O resultado é um filme de gênero que funciona como estudo de personagem, um thriller que respira nos momentos de calmaria e dispara quando nos momentos oportunos.
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