Cyclone parece contar uma história que não chega a acontecer por completo. Ela se forma no ar, ensaia um gesto, mas é interrompida antes do aplauso. O filme de Flávia Castro nasce exatamente desse território instável, onde o sonho existe, mas não encontra espaço para se inscrever no mundo. Cyclone olha para 1919 não como quem folheia um álbum antigo, mas como alguém que abre uma janela e sente um vento familiar demais. Um vento que carrega papéis, empurra portas, desarruma certezas e lembra que o passado, quando mal resolvido, insiste em bater ponto no presente.
Desde o primeiro contato com Dayse, vivida por Luiza Mariani, percebe-se que Cyclone não quer contar a história de uma vitória, mas de uma tentativa. Dayse é operária, escreve peças, colabora no teatro, sonha com Paris. Mas nada disso se encaixa com facilidade. Ela existe entre frestas: trabalha onde não é respeitada, ama quem não a reconhece e escreve sem poder assinar. A força do filme está justamente nessa zona intermediária, onde tudo parece possível e, ao mesmo tempo, proibido. Não se trata de um retrato de época confortável; é uma sensação de deslocamento contínuo.

Flávia Castro constrói esse mal-estar com escolhas formais muito conscientes. A decisão de filmar em formato 4:3, por exemplo, não é um capricho estético. A imagem mais estreita funciona como um corpo comprimido numa sala pequena demais. Dayse ocupa raramente o centro do quadro com liberdade. Há sempre algo que a limita: uma parede, um batente, uma mesa, um homem. Para quem não está habituado a pensar o cinema nesses termos, basta observar como o filme raramente oferece planos abertos e arejados. O mundo é fechado porque assim também é a vida daquela mulher.
A fotografia acompanha essa lógica de clausura. A luz parece filtrada por uma camada de poeira, como se o ar carregasse o peso das regras sociais. Os interiores dominam a narrativa, e quando a rua aparece, ela não representa liberdade, mas transição, passagem, nunca destino. O Theatro Municipal, espaço que simboliza arte e prestígio, surge menos como palco de consagração e mais como território de espera. Dayse observa, anota, contribui, mas permanece à sombra de quem assina.
É nesse espaço que surge Heitor Gamba, interpretado por Eduardo Moscovis, figura-chave para entender a sutileza política do filme. Ele não é um antagonista evidente. Pelo contrário: é cordial, talentoso, desejável. E talvez por isso seja tão perigoso. Heitor se apropria do trabalho de Dayse com naturalidade, como se fosse algo óbvio, quase inevitável. O filme não o condena com discursos, mas o expõe por meio de gestos pequenos, silêncios e omissões. Moscovis constrói um personagem banal no sentido mais perturbador do termo: alguém que não se vê como opressor, mas que sustenta a opressão com eficiência.

Cyclone acerta ao não transformar essa relação em um melodrama convencional. Não há grandes explosões emocionais nem confrontos fáceis. O que existe é um acúmulo de frustrações, como gotas que caem sobre a mesma superfície até rachá-la. Essa opção narrativa exige atenção do espectador, mas também o recompensa. A violência aqui não grita; ela se repete.
O roteiro de Rita Piffer recusa a tentação de santificar sua protagonista. Dayse não é sempre generosa, nem sempre justa. Em alguns momentos, se cala quando deveria falar; em outros, prioriza o próprio sonho em detrimento de quem está ao redor. Essa ambiguidade é essencial para que o filme se sustente como obra adulta. Cyclone entende que mulheres também são atravessadas por contradições e que isso não diminui a legitimidade de suas lutas. Pelo contrário: as torna mais humanas.
Quando a gravidez indesejada entra em cena, o filme muda sutilmente de tom. Não há choque nem sensacionalismo. A câmera permanece próxima, quase respeitosa, acompanhando os limites que se fecham ainda mais em torno de Dayse. A burocracia estatal, que exige autorização masculina para uma simples viagem, revela como o controle sobre o corpo feminino é exercido com frieza administrativa. O aborto surge como escolha clandestina, solitária, e o filme se recusa a transformá-lo em debate moral. A questão não é o certo ou errado, mas a ausência de alternativas.
A montagem sustenta essa atmosfera de contenção. O ritmo é deliberadamente contido, como alguém que prende a respiração por tempo demais. Não há pressa em resolver conflitos, porque a própria vida da personagem é marcada pela espera. Espera por reconhecimento, por autorização, por uma chance que nunca chega inteira. O tempo, em Cyclone, não avança; ele pesa.
As relações entre as mulheres do filme ampliam esse retrato sem idealizações. Há apoio, mas também distância; há solidariedade, mas ela não é constante nem incondicional. Essa abordagem evita o conforto de respostas prontas e reconhece que a opressão também fragmenta alianças. Cada mulher encontra sua própria forma de sobreviver, e nem todas conseguem ou querem caminhar juntas o tempo todo.

Luiza Mariani carrega o filme com uma atuação que privilegia o gesto mínimo. Seu corpo fala antes da voz. O modo como se senta, como observa, como segura um papel diz tanto quanto qualquer diálogo. Há força em sua contenção, e também uma melancolia persistente. Dayse parece sempre um passo à frente de seu tempo, mas vários passos atrás do reconhecimento.
No fim, Cyclone não celebra uma conquista, mas registra uma tentativa. E talvez aí esteja sua maior potência. Ao contar a história de uma mulher que quase chegou lá, o filme questiona quantas outras ficaram pelo caminho. Não é uma obra sobre fracasso, mas sobre limites impostos. Sobre sonhos que não desapareceram, apenas foram empurrados para fora da cena.
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