Escrevo esta crítica depois da terceira – talvez quarta – audição de Cidadão Instigado. As duas primeiras aconteceram na semana passada, em um prédio no Centro de São Paulo, que algo se reorganizou: enquanto subia as escadas, um batidão grave atravessava os andares como se viesse de uma festa clandestina. Era “Insônia”. E fazia todo sentido. Poucas vezes o “centro sujo” da cidade combinou tanto com a música de Fernando Catatau.
O quinto álbum do Cidadão Instigado, homônimo, é talvez o trabalho menos homogêneo da trajetória do grupo – e isso não deve ser entendido como um defeito, mas como um deslocamento estético significativo. Se discos anteriores organizavam melhor suas tensões entre psicodelia, canção brasileira e ruído, aqui a lógica é outra. Cidadão Instigado, o disco se trata de um mosaico de experimentações que nem sempre buscam coesão, mas sim fricção.
Há uma mudança clara de eixo. A guitarra de Catatau – historicamente estridente, protagonista e quase narrativa – permanece barulhenta, mas menos central. Ela aparece como gesto, textura ou intervenção, e não mais como fio condutor. Em seu lugar, ganham protagonismo as programações eletrônicas lo-fi, as batidas quebradas e uma ambiência digital que reorganiza o espaço sonoro do disco. Esse deslocamento já vinha sendo ensaiado desde os primeiros trabalhos, mas aqui atinge um ponto de inflexão.
Nesse sentido, o álbum dialoga – guardadas as proporções – com os trabalhos solo de Kim Gordon, especialmente na forma como o rock é desconstruído em camadas de ruído, colagem e experimentação eletrônica. Não se trata de uma filiação direta, mas de uma aproximação estética; ambos operam na tensão entre o orgânico e o sintético, entre a sujeira do som e a frieza da máquina.
A gênese do disco – marcada pelo isolamento pandêmico e pelo uso intensivo do sampler Roland MV-8800 – é perceptível não apenas na textura sonora, mas na própria estrutura das composições. Muitas faixas parecem nascer de loops e células rítmicas que se expandem mais por acúmulo do que por desenvolvimento linear. “Consciência”, por exemplo, funciona como um ponto de suspensão: uma canção que reorganiza o caos ao redor em uma espécie de melancolia dançante, quase uma pausa reflexiva dentro do fluxo fragmentado do álbum.
As colaborações reforçam essa ideia de rede criativa e também contribuem para a heterogeneidade do trabalho. Vozes como as de Juçara Marçal, Jadsa e Ava Rocha, tensionam o repertório, deslocando ainda mais o centro gravitacional do disco. Em “Sangue no Chão” e “O grande vazio”, por exemplo, há uma dramaticidade contida que contrasta com a pulsação eletrônica; já “Tremendo” opera em uma chave mais espectral, quase etérea.
Para não deixar de mencionar, Jadsa, que fez um dos melhores discos do ano passado – pelo menos para quem vos escreve – consegue imprimir suas digitais num trabalho que sempre foi muito a cara de Catacau na canção “Nuvem movimento”. O ritmo, as repetições de palavras nas estrofes e a harmonia poderiam facilmente fazer dessa música uma faixa de qualquer disco solo da baiana.
“Insônia”, por sua vez, é o ápice rítmico do álbum – e talvez sua síntese mais eficaz. A faixa condensa o impulso corporal que atravessa boa parte do disco, traduzindo em som essa vontade “de dançar de forma esquisita” mencionada por Catatau enquanto conversávamos no intervalo entre a primeira e a segunda audição. É música de pista, mas de uma pista torta, irregular, perfeitamente alinhada à paisagem urbana que a cerca.
Ao longo das 13 faixas, o que se percebe é um artista menos interessado em reafirmar uma identidade consolidada e mais disposto a fragmentá-la. O Cidadão Instigado sempre foi um projeto de difícil classificação, mas aqui essa indeterminação se radicaliza. Resultando num álbum que pode soar disperso à primeira audição, mas que revela, aos poucos, uma coerência interna baseada justamente na instabilidade.
Trinta anos depois de sua origem, Catatau parece menos preocupado em definir o que é o Cidadão Instigado – e mais interessado em testar até onde ele pode deixar de ser. É um disco que exige escuta ativa, que recusa a zona de conforto e que, como aquele batidão ecoando pelas escadas no centro da cidade, pode inicialmente confundir, mas dificilmente passa despercebido.
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