Crítica | Ditto: Conexões do Amor junta um rádio velho e dois corações desafinados no tempo
Sato Company/Divulgação

Crítica | Ditto: Conexões do Amor junta um rádio velho e dois corações desafinados no tempo

Poucos sentimentos da vida adulta – sobretudo do jovem adulto que mora sozinho – é abrir a geladeira e perceber que tinha uma refeição muito gostosa lá que você nem lembrava. Assistir Ditto: Conexões do Amor me deu essa impressão, desse tipo de surpresa gostosa.

No longa, um rádio amador que conecta dois estudantes universitários – ele em 1995, ela em 2021. Não há Wi-Fi, não há smartphone, não há timeline que se entenda direito. E essa confusão temporal, que a princípio parece um defeito de sintonia, acaba virando o charme mais bonito da obra.

A diretora e roteirista Seo Eun-young (“Go Back”) tem como seu maior trunfo Yeo Jin-goo e Cho Yi-hyun, que interpretam Kim Yong e Kim Mo-nee, respectivamente. A dupla conduz nos ombros o filme com uma naturalidade que desarma com o quão fofos eles são.

Ele é daqueles rapazes que guardam as palavras como quem guarda moedas num pote. Ela tem a urgência de quem sabe que o tempo não espera. Juntos, constroem uma dinâmica torta, engraçada, às vezes meio desajeitada, exatamente como as melhores conversas de corredor de faculdade.

Crítica | Ditto: Conexões do Amor junta um rádio velho e dois corações desafinados no tempo
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E que ambientação, aliás. Os corredores vazios, os livros empilhados, as dúvidas sobre o amanhã que cabem dentro de um café requentado. O filme acerta em cheio nesse tom de coming-of-age disfarçado de comédia romântica com roupa de ficção científica.

O problema – e toda crítica que se preze precisa de um leve tom de reclamação regada a afeto – é que a lógica temporal demora a encontrar o próprio fio da meada. O roteiro parece ter medo de explicar demais e acaba explicando de menos. Em certos momentos, você se pega perguntando: “mas como assim esse rádio funciona?” – e o filme responde com um encolher de ombros simpático, mas que não cola totalmente.

Crítica | Ditto: Conexões do Amor junta um rádio velho e dois corações desafinados no tempo
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A boa notícia é que, quando Ditto finalmente desencana de ser inteligente e resolve ser sincero, a coisa flui. O último ato é uma pequena aula de como amarrar escolhas, destinos e arrependimentos sem cair no melodrama fácil. Há uma cena envolvendo uma tartaruga que rouba o filme. É fofo, é bobo, e funciona.

Ditto: Conexões do Amor se enquadra no que chamamos de filme “sessão da tarde” com aspirações de ficção científica indie, mas sem vergonha de ser o que é. Não vai mudar sua vida, nem redefinir o gênero. Mas vai te fazer pensar naquele amigo que você perdeu contato, naquela ligação que não fez, no tempo que passou rápido demais enquanto você estava distraído.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.