Eles Vão Te Matar é daqueles filmes que chamamos de frontais. O diretor Kirill Sokolov deixa evidente, desde as primeiras cenas do longa, que busca por cinema de ação estilizada. O diretor, que já havia mostrado seu amor por violência coreografada em “Por que Você Não Morre?”, agora abraça de vez a herança de nomes como Quentin Tarantino, Robert Rodriguez e Sam Raimi. Se a premissa – uma mulher que aceita um emprego enigmático em um arranha-céu luxuoso e sombrio em Nova York e descobre um segredo maligno nas sombras – evoca imediatamente clássicos trash e do cinema de ação, incluindo nomes acima citados – o filme logo trata de colocar suas próprias cartas na mesa.
O cenário é o Hotel Virgil, um prédio que mais parece um personagem vivo, repleto de detalhes quase teatrais, trancas do lado interno da porta e iconografia demoníaca. É ali que Asia Reaves (Zazie Beetz) chega para trabalhar como governanta, apenas para ser atacada por um quarteto de figuras mascaradas que inclui Heather Graham e Tom Felton.

O que segue é uma primeira sequência de combate tão bem orquestrada quanto sanguinolenta, que culmina com os atacantes em pedaços – e, para espanto de Asia, se regenerando como lagartos. A chave de tudo: os moradores do Virgil são imortais graças a um pacto diabólico, o que libera Sokolov para levar o gore a níveis quase caricaturais.
É aqui que mora a primeira grande contradição do filme. Por um lado, a imortalidade dos vilões é uma desculpa perfeita para um festival de membros decepados, ferimentos grotescos e uma violência que não precisa se preocupar com consequências reais. Por outro, essa escolha drena qualquer senso de risco. Diferente de “Kill Bill”, onde cada golpe de espada de Beatrix Kiddo carregava o peso de uma jornada pessoal, aqui a ação, embora tecnicamente precisa, se torna numericamente entorpecedora, ecoando mais a lógica de um videogame do que a construção de tensão cinematográfica.

Ainda assim, há méritos que impedem o filme de desmoronar sob o peso de suas referências. O trabalho de câmera é ágil, mantendo a clareza mesmo quando a montagem abraça o caos. A cenografia do Virgil é um trunfo à parte: cada corredor, cada porta e cada sombra parecem desenhados para amplificar a sensação de labirinto infernal, conferindo ao espaço uma personalidade que o roteiro por vezes não consegue sustentar. E, no centro de tudo, está Zazie Beetz. Seja combatendo de calcinha ou ateando fogo a um machado antes de um golpe, a atriz demonstra não apenas preparo físico impecável, mas também uma capacidade de equilibrar o absurdo com a emoção genuína. É ela quem ancora a única camada dramática que realmente funciona: a busca por sua irmã, feita com entrega suficiente para nos fazer importar minimamente em meio ao caos instaurado.
O elenco, aliás, parece completamente alinhado com o tom proposto. Há um senso de diversão coletiva em cena, como se todos estivessem cientes de que participam de um exercício de estilo deliberadamente desmedido. Patricia Arquette, como a enigmática gerente Lilith, transita entre a elegância ameaçadora e o deboche com segurança. Já os vilões, incluindo um Tom Felton claramente se divertindo ao se distanciar de Draco Malfoy, funcionam como peças de um tabuleiro montado para ser constantemente revirado.
O grande problema de Eles Vão Te Matar é que, ao tentar ser uma colagem de influências tão declaradas – Tarantino, Raimi, o cinema oriental e quadrinhos –, o filme nunca encontra um ritmo próprio. As sequências de ação, embora bem coreografadas, se repetem em estrutura muito antes do terceiro ato, e os momentos de respiro entre um confronto e outro são frágeis demais para sustentar o peso narrativo que o próprio longa tenta construir. O exagero, que em alguns momentos funciona como charme e diferencial em um cenário de produções padronizadas, em outros se volta contra a obra, expondo suas limitações de roteiro e a superficialidade no desenvolvimento de temas apenas esboçados.

Eles Vão Te Matar é um filme que funciona melhor como experiência sensorial – de preferência compartilhada com uma plateia disposta a entrar na brincadeira – do que como narrativa coesa. É um grito agressivo, visualmente inventivo em partes e sustentado por uma performance que prova, mais uma vez, que Zazie Beetz está pronta para liderar sua própria franquia de ação. Falta ao filme, no entanto, a confiança criativa para matar seus próprios demônios e deixar de ser apenas um eco muito bem-intencionado – e ocasionalmente divertido – de obras que, estas, sim, souberam transformar influência em identidade.
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