Crítica | Em 'A Cronologia da Água', o excesso de dor dilui o próprio sofrimento
Filmes da Estação/Divulgação

Crítica | Em ‘A Cronologia da Água’, o excesso de dor dilui o próprio sofrimento

O sangue escorre cedo em A Cronologia da Água, e a sangria não estanca. Ele escorre, mancha, retorna em diferentes formas e contextos, como se o filme precisasse lembrar o tempo todo que aquela história nasce da dor física antes mesmo de chegar à emocional. Kristen Stewart, em sua estreia na direção de longas-metragens, não demonstra qualquer pudor em expor esse universo desde o primeiro plano. Pelo contrário, há uma determinação quase obstinada em fazer o espectador sentir o peso de cada trauma, mesmo que isso signifique repetir imagens, sensações, falas e choques. O filme impressiona pelo compromisso com a experiência sensorial, mas também revela, já nos minutos iniciais, um problema que o acompanhará até o fim: a crença de que intensidade constante equivale à profundidade.

Stewart parece ter abraçado essa missão com fervor quase religioso ao adaptar as duras memórias da escritora Lidia Yuknavitch. A Cronologia da Água é um mergulho profundo – muitas vezes literal – em um oceano de traumas, buscando não narrar uma vida, mas sim transmitir sua sensação caótica e fragmentada.

A diretora demonstra desde o início que não está interessada em fazer uma cinebiografia convencional. A escolha de filmar em película 16mm não é mero capricho estético. Esse formato, com seus grãos visíveis e cores que parecem desbotadas pelo tempo, é um convite para enxergarmos o filme como um álbum de memórias íntimas, ou como se estivéssemos espiando os recantos mais sombrios da mente da protagonista. A fotografia de Corey C. Waters é, de fato, um dos grandes trunfos da obra. Ela captura closes intensos, onde um olhar, a textura da pele molhada ou o padrão de um azulejo no joelho ganham uma dimensão quase tátil. São janelas microscópicas que, somadas, tentam compor um todo.

Crítica | Em 'A Cronologia da Água', o excesso de dor dilui o próprio sofrimento
Filmes da Estação/Divulgação

A montagem, por sua vez, abraça essa proposta de não-linearidade. A vida, como defende o filme, não é uma linha reta, mas um turbilhão onde passado e presente colidem. Vemos cenas de infância interrompendo a vida adulta, flashes de dor surgindo no meio de um momento banal. A editora Olivia Neergaard-Holm costura essas imagens com uma técnica que imita o fluxo de consciência – aquele monólogo interno desorganizado que temos dentro da cabeça. A ideia é brilhante em teoria: fazer o espectador sentir o Transtorno de Estresse Pós-Traumático na pele. Na prática, porém, essa fragmentação incessante, com raros planos que ultrapassam alguns segundos, cansa. É como se a diretora, desconfiada de nossa capacidade de interpretação, martelasse o mesmo ponto incessantemente.

E aqui chegamos ao grande nó do filme. A premissa parece ter sido: se a vida de Lidia foi uma sucessão de violências, o filme deve ser uma avalanche sensorial que reproduza essa agressão. Sangue no ralo, sangue nas pernas, sangue durante o sexo. As cenas de abuso sexual são repetidas com uma frequência que beira a liturgia do horror. A trilha sonora e o design de som se juntam ao coro: ruídos estridentes, chiados e rangidos surgem em volume máximo para sublinhar o óbvio, numa estratégia que mais parece um ataque aos nossos tímpanos do que uma construção de atmosfera. Toda essa parafernália técnica, embora executada com competência, cria um paradoxo. Ao tentar nos fazer sentir tudo, o filme acaba por anestesiar. A violência, apresentada de forma tão explícita e repetitiva, perde seu poder de corte e se transforma em um lugar-comum visual. A mensagem dilui-se na redundância, como o sangue no ralo da cena inicial.

Esse excesso de “contação” em detrimento da “sugestão” acaba por engessar o trabalho da talentosa Imogen Poots no papel principal. A atriz entrega um desempenho físico corajoso, expondo-se sem vaidade, chorando, gritando, sangrando. No entanto, seu personagem frequentemente se reduz a um corpo violentado, uma tela onde as luzes, os sons e a narração em off (cheia de frases como “Ninguém vai salvar você”) projetam significados. Falta a ela espaço para uma construção psicológica mais sutil, uma vez que tudo o que Lidia sente é dito ou mostrado de maneira explícita. Poots é uma âncora poderosa, mas muitas vezes parece nadar contra a corrente de uma direção que privilegia a plasticidade da sua imagem em detrimento da profundidade de sua atuação.

Crítica | Em 'A Cronologia da Água', o excesso de dor dilui o próprio sofrimento
Filmes da Estação/Divulgação

Curiosamente, o filme encontra seu respiro mais verdadeiro justamente quando abre mão um pouco dessa estética do choque. A segunda passagem de Lidia pela universidade e seu encontro com o escritor Ken Kesey, vivido por Jim Belushi, é um oásis no deserto de dor. Aqui, as palavras substituem os ruídos, o diálogo substitui a narração, e vemos a protagonista ser “vista” não como uma vítima, mas como uma artista. A cena em que Kesey, um tanto embriagado, rosna para ela “Você sabe ESCREVER, garota!” é um momento de catarse, conquistada pela interação entre atores e pelo texto, não por efeitos sensoriais. É uma pena que esse equilíbrio entre forma e conteúdo tenha sido tão curto.

A Cronologia da Água também escorrega ao tentar encapsular uma vida tão complexa em vinhetas, pulando de evento traumático para evento traumático. Relacionamentos importantes, como o segundo casamento de Lidia com Devin (Tom Sturridge), surgem e desaparecem da tela de forma abrupta, como se a montagem não soubesse o que fazer com eles. Essa irregularidade narrativa dá a sensação de que Stewart, em alguns momentos, perde o controle do ritmo do próprio filme, deixando-se levar pela correnteza das imagens de impacto.

Crítica | Em 'A Cronologia da Água', o excesso de dor dilui o próprio sofrimento
Filmes da Estação/Divulgação

O longa de estreia de Kristen Stewart é um projeto admirável pela coragem e pela paixão transbordante pelo material original. É um filme que quer ser mais sensação do que história, e nisso ele é, em parte, bem-sucedido. A fotografia é belíssima em sua aspereza, e a vontade de romper com a linearidade das cinebiografias tradicionais é louvável. No entanto, ao confundir intensidade com repetição e profundidade com excesso.

A Cronologia da Água acaba construindo um muro de sons e imagens entre o espectador e a personagem. Em sua tentativa quase masoquista de nos fazer provar cada gota de sofrimento de Lidia, o filme nos deixa, paradoxalmente, do lado de fora do dilúvio, observando uma tragédia que, por ser gritada a todo momento, acaba por sussurrar menos do que poderia.

Leia outras críticas:

Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.