Crítica | Em 'A Graça', o silêncio revela um homem paralisado entre decisões públicas e fantasmas
Pandora Filmes/Divulgação

Crítica | Em ‘A Graça’, o silêncio revela um homem paralisado entre decisões públicas e fantasmas

Existe algo de curiosamente silencioso no poder quando filtrado pelo olhar de Paolo Sorrentino. Em A Graça, esse silêncio surge como uma espécie de ruído interno constante, quase ensurdecedor, que acompanha um homem acostumado a decidir destinos coletivos enquanto se revela incapaz de resolver as próprias inquietações. O cineasta italiano, frequentemente associado a um estilo exuberante e a um fascínio quase fetichista pela imagem, parece aqui interessado em reduzir o espetáculo ao essencial. Um corpo solitário em meio a espaços grandiosos, tentando encontrar algum sentido no eco de suas escolhas.

O protagonista, Mariano De Santis, atravessa seus últimos meses como chefe de Estado com a aura paradoxal de alguém que já foi central e agora se percebe periférico. Não há aqui a figura do líder carismático ou do estrategista brilhante. Trata-se de um homem marcado pela rigidez – apelidado de “Concreto Armado” – cuja vida política foi construída sobre a estabilidade, a previsibilidade e, sobretudo, a recusa ao risco. Essa postura, que lhe garantiu respeito institucional, cobra um preço elevado quando o mandato se aproxima do fim: o vazio deixado pela ausência de grandes gestos torna-se impossível de ignorar.

Sorrentino estrutura essa trajetória como um estudo de interioridade, afastando deliberadamente os elementos mais tradicionais do cinema político. Não há multidões, discursos inflamados ou disputas partidárias explícitas. O poder, aqui, é uma experiência íntima, quase claustrofóbica. O palácio onde De Santis circula funciona menos como sede governamental e mais como extensão de sua psique – um labirinto onde cada corredor parece conduzir de volta às mesmas perguntas não respondidas.

Crítica | Em 'A Graça', o silêncio revela um homem paralisado entre decisões públicas e fantasmas
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Entre essas perguntas, a mais persistente não diz respeito ao futuro do país, mas ao passado pessoal. A memória da traição da esposa, ocorrida décadas antes, assume proporções desmedidas, como se o tempo não tivesse sido capaz de diluir o impacto daquele episódio. Esse trauma, constantemente revisitado, contamina sua visão de mundo e infiltra-se em suas decisões políticas, criando uma tensão entre o homem público e o indivíduo ferido. O desejo de justiça, ou talvez de reparação, mistura-se a impulsos mais sombrios, revelando uma faceta menos controlada de alguém que sempre se definiu pela contenção.

É nesse ponto que o filme encontra um de seus eixos mais interessantes: a maneira como questões privadas se projetam sobre dilemas coletivos. O debate sobre a eutanásia, por exemplo, não surge como um embate ideológico amplo, mas como um espelho das próprias hesitações do protagonista diante da finitude, da dor e da possibilidade de intervenção sobre a vida. Ao mesmo tempo, pedidos de indulto e situações-limite invadem sua rotina, como se o mundo externo insistisse em traduzir, em termos concretos, os conflitos que ele prefere manter no plano abstrato.

A construção visual acompanha esse movimento de introspecção. Embora ainda reconhecível em sua assinatura estética, Sorrentino parece menos interessado em deslumbrar e mais disposto a observar. Há momentos de evidente estilização – como caminhadas em câmera lenta ou composições milimetricamente simétricas –, mas eles surgem pontualmente, quase como resquícios de um impulso que aqui é constantemente contido. O resultado é uma obra que, sem abandonar completamente o gosto pelo artifício, permite que a fragilidade dos personagens respire com mais liberdade.

Nesse contexto, a presença de elementos aparentemente deslocados – um astronauta em estado de gravidade zero, um cachorro robótico, uma trilha sonora que oscila entre o clássico e o contemporâneo — contribui para criar uma atmosfera de estranhamento. Não se trata apenas de ornamentação, mas de um esforço para traduzir sensações difíceis de nomear. A imagem do corpo flutuando, incapaz de se fixar, dialoga diretamente com a condição de De Santis; alguém suspenso entre o que foi e o que ainda não sabe ser.

Ao mesmo tempo, a música desempenha um papel decisivo na articulação desses contrastes. O protagonista, habituado à solenidade das composições eruditas, se vê confrontado com o impacto direto do rap e da música eletrônica. Esses momentos, por vezes discretamente irônicos, funcionam como pequenas rupturas em sua rotina controlada, sugerindo a existência de um mundo que escapa à sua lógica. Mais do que uma questão geracional, trata-se de um embate entre formas distintas de experimentar o tempo e o presente.

O roteiro, por sua vez, revela um rigor estrutural que pode ser lido de maneiras distintas. Há uma evidente preocupação em amarrar todos os elementos, em fazer com que cada símbolo encontre seu lugar num desenho maior. Para alguns, isso pode representar uma demonstração de domínio narrativo; para outros, uma limitação que impede a obra de se abrir ao acaso ou à ambiguidade mais radical. De todo modo, essa organização minuciosa reforça a sensação de que estamos diante de um universo cuidadosamente construído, onde até mesmo o inesperado parece previamente calculado.

Crítica | Em 'A Graça', o silêncio revela um homem paralisado entre decisões públicas e fantasmas
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Essa característica dialoga com uma das críticas mais recorrentes ao cinema de Sorrentino: a de que sua busca pela forma perfeita frequentemente se sobrepõe ao conteúdo. Em A Graça, no entanto, há indícios de um deslocamento. Ainda que o controle permaneça evidente, ele parece menos interessado em impressionar e mais inclinado a explorar as fissuras desse controle. O protagonista, afinal, é justamente alguém que construiu sua vida sobre a ordem e agora se vê confrontado com aquilo que escapa a qualquer tentativa de organização.

A atuação contida que sustenta esse percurso contribui decisivamente para o efeito do filme. Longe de gestos expansivos, o personagem se define por pequenas variações, por silêncios que dizem mais do que qualquer discurso. Essa economia expressiva encontra eco na própria encenação, criando uma coerência entre forma e conteúdo que nem sempre esteve presente na filmografia do diretor.

A Graça se apresenta como um exercício de observação sobre a solidão que acompanha o poder e sobre a dificuldade de conciliar diferentes dimensões da experiência humana. Entre a esfera pública e a privada, entre o passado e o presente, entre a razão e o afeto, o filme constrói um retrato que se recusa a oferecer respostas definitivas. Em vez disso, insiste em permanecer no território das perguntas, explorando as contradições de um homem que, mesmo cercado por privilégios e responsabilidades, parece cada vez mais distante de qualquer forma de certeza.

Ao transformar a política em um espaço de introspecção e ao deslocar o foco para os dilemas íntimos de seu protagonista, Sorrentino propõe um olhar que, longe de consensos, convida a pensar sobre os limites entre o indivíduo e a função que ele ocupa. E, nesse processo, deixa em aberto uma questão que atravessa toda a narrativa: até que ponto é possível exercer o poder sem se perder de si?

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.