Crítica | Em 'Alabama: Presos do Sistema' eles roubaram celulares para contar a verdade
HBO/Divulgação

Crítica | Em ‘Alabama: Presos do Sistema’ eles roubaram celulares para contar a verdade

Robert Earl Council, mais conhecido como Kinetik Justice, olha para a câmera – uma câmera de celular contrabandeado, diga-se – e faz uma observação tão óbvia quanto, mas não menos impactante: o público já está condicionado a não acreditar em quem está atrás das grades. Em Alabama: Presos do Sistema essa frase parece ecoar durante toda a projeção de 115 minutos não apenas como uma constatação sociológica, mas como a justificativa estética para o que estamos vendo. Afinal, se a palavra de um encarcerado não vale nada, que tal mostrarmos as imagens? Que tal provarmos, frame por frame granulados e pixelados, o que acontece quando o Estado resolve fingir que a lei não existe?

Dirigido por Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, Presos do Sistema nasce de um gesto simples: entregar a câmera a quem sempre foi filmado de fora. A proposta pode parecer apenas um recurso de linguagem, mas o impacto está justamente aí. Ao permitir que homens encarcerados registrem o próprio cotidiano ao longo de uma década, o documentário desmonta a ideia de mediação confortável. Não há narrador onisciente, não há especialista traduzindo o sofrimento alheio. Há vozes que tremem, imagens que vacilam e uma sensação constante de que aquilo que vemos não deveria estar acontecendo – mas está.

O filme constrói sua narrativa por meio de uma montagem que alterna registros íntimos com inserções de telejornais e declarações oficiais. Essa escolha formal é mais do que estética; é política. Ao intercalar a retórica institucional com o material bruto gravado dentro das prisões, Jarecki e Kaufman criam um contraste quase didático. De um lado, a normalização do discurso governamental. De outro, a crueza da sobrevivência diária. A montagem funciona como uma espécie de tribunal simbólico, onde as imagens falam por si e o espectador é convocado a julgar.

A fotografia – ou melhor, as fotografias – variam porque são feitas por múltiplas mãos. Essa irregularidade visual, longe de ser um problema técnico, reforça o sentimento de autenticidade. Câmeras improvisadas, enquadramentos instáveis e iluminação precária compõem um mosaico de precariedade que traduz visualmente a própria condição dos detentos. O documentário abraça o desconforto. E isso faz diferença. Ao não polir o horror, o filme evita a armadilha da estetização da dor.

Crítica | Em 'Alabama: Presos do Sistema' eles roubaram celulares para contar a verdade
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Há um momento particularmente incômodo quando as falas oficiais defendem a legitimidade das ações policiais e a suposta adequação das condições carcerárias. A governadora Kay Ivey aparece como símbolo desse discurso institucional que insiste em afirmar que tudo está sob controle. A estratégia narrativa de inserir essas declarações no meio dos relatos dos presos não é gratuita. Ela expõe a fratura entre o que se diz e o que se vive. O filme não precisa acrescentar comentários sarcásticos; a ironia já está posta pela própria estrutura.

O filme ecoa discussões já levantadas por obras como “A 13ª Emenda”, de Ava DuVernay, que analisava historicamente a formação do sistema prisional americano. A diferença é que Alabama: Presos do Sistema se concentra no presente, na carne viva da experiência diária. Se 13ª explicava como aquele país chegou até aqui, este documentário mostra onde “aqui” realmente está. E o cenário não é nada alentador. O trabalho forçado, a remuneração simbólica e a negação constante de liberdade condicional desenham um quadro que evoca práticas historicamente associadas à escravidão – ainda que sob uma roupagem legal.

É impossível ignorar o recorte racial. A maioria dos homens que aparecem na tela é negra ou latina. O filme não transforma isso em estatística fria, mas em presença concreta. Cada rosto, cada relato, reforça a dimensão estrutural da questão. A câmera, ao permanecer próxima, impede que o espectador transforme aquelas histórias em números abstratos. Esse é, sem dúvidas, o maior mérito do longa: o de humaniza sem romantizar seus personagens.

Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que o impacto do documentário não é uniforme. Há uma sensação de repetição em alguns trechos, como se determinadas denúncias retornassem sem um aprofundamento adicional. Isso pode gerar uma espécie de anestesia emocional. A insistência na brutalidade, embora coerente com a proposta, por vezes sufoca a possibilidade de respiro narrativo. Um contraponto mais estruturado – talvez acompanhando uma trajetória individual com maior continuidade – poderia fortalecer o envolvimento dramático.

Ainda assim, a obra carrega uma urgência que se espalha pela produção cultural recente dos Estados Unidos (EUA). Documentários como “Time” e ficções como “Sing Sing” também se debruçam sobre o encarceramento em massa. Não se trata de coincidência temática, mas de sintoma. Quando o cinema insiste em revisitar o mesmo problema ano após ano, é porque algo permanece sem solução. A institucionalização da lei como instrumento que pode tanto proteger quanto eliminar vidas emerge como questão central.

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O que mais atravessa é a percepção de que o Estado, estrutura criada para garantir direitos, aparece aqui como máquina de opressão. A sensação de impotência é quase palpável. Ao mesmo tempo, o documentário faz questão de registrar movimentos de resistência: presos organizados, sindicatos e legisladores que tentam pressionar por mudanças. São lampejos de esperança em um quadro predominantemente sombrio. A presença desses focos de luta impede que o filme se torne apenas um inventário de desgraças.

No campo técnico, a montagem é o grande motor. É ela que organiza o caos e constrói a tensão. Ao sobrepor relatos pessoais a discursos oficiais, cria um embate narrativo constante. A direção, por sua vez, demonstra maturidade ao saber quando intervir e quando recuar. Há uma confiança nas imagens captadas pelos próprios detentos que revela respeito pelo material. Não é um filme que tenta se sobrepor ao que mostra; ele funciona como amplificador.

Alabama: Presos do Sistema não é um documentário confortável. Ele exige do espectador disposição para encarar um retrato incômodo de uma engrenagem social que parece funcionar precisamente para manter certos corpos aprisionados. Pode não atingir todos com a mesma força – o impacto depende também do repertório e da disposição de quem assiste –, mas sua relevância é inegável. Se o cinema ainda serve para provocar reflexão, aqui ele cumpre esse papel com rigor.

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Resultado de uma experiência alquímica que envolvia gibis, discos e um projetor valvulado. Editor-chefe, crítico, roteirista, nortista e traficante cultural.