É propositalmente inquietante a imagem de um corpo que lentamente se transforma em pedra. Não apenas pela dimensão física dessa mutação, mas pelo que ela representa metaforicamente: o endurecimento da vida diante do medo, da doença, do abandono. Em Alpha, a diretora Julia Ducournau constrói sua obra mais paradoxal até aqui; um filme sobre petrificação que, ainda assim, pulsa com uma intensidade quase insuportável de vida.
Após o impacto visceral de “Titane” e do desejo selvagem de “Raw”, Ducournau abandona parcialmente o horror corporal explícito para explorar um território onde o corpo continua central, mas agora como metáfora social e memorial. Ao lado de cineastas como Coralie Fargeat e Lucile Hadzihalilovic, ela integra uma geração que tensiona as fronteiras entre o cinema de gênero e o arthouse — e Alpha talvez seja o exemplo mais equilibrado (e arriscado) desse cruzamento.
A trama gira em torno de Alpha (Mélissa Boros), uma adolescente de 13 anos que vive à deriva entre impulsos autodestrutivos e uma busca confusa por identidade. Sua mãe (Golshifteh Farahani), médica, enfrenta uma epidemia misteriosa transmitida pelo sangue, enquanto tenta manter a filha a salvo. O retorno do irmão, Amin (Tahar Rahim), um dependente químico em recuperação já infectado, desestabiliza ainda mais esse núcleo familiar frágil. A doença – um claro paralelo com a AIDS – transforma lentamente os corpos em estátuas de pedra, convertendo os mortos em monumentos involuntários de uma sociedade que preferiu rejeitá-los.
Desde seu título, Alpha se constrói como alegoria. O corpo é linguagem, e a pedra é sentença. Ducournau não está interessada apenas na doença, mas no que se deposita sobre ela: o estigma, o silêncio, a violência simbólica. Ao transformar os infectados em esculturas, a diretora subverte a lógica da memória – seus mortos não desaparecem, eles permanecem, pesados e incontornáveis, como acusações públicas.

Essa dimensão política atravessa o filme de maneira difusa, nunca didática. Em sala de aula, insultos homofóbicos ecoam; no hospital, olhares evitam contato; na escola, rumores transformam Alpha em pária, tudo isso numa montagem que recusa a linearidade narrativa tradicional; suas múltiplas linhas – a crise sanitária, o colapso familiar, o luto, o amadurecimento – não convergem de forma clara. Pelo contrário, tornam-se cada vez mais opacas, como se Ducournau deliberadamente sabotasse qualquer tentativa de controle racional da história.
Essa falta de foco, longe de ser uma falha simples, revela uma escolha estética. Alpha é menos uma narrativa e mais uma experiência emocional. O espectador não é conduzido, mas sim lançado. Entre o horror corporal, o drama social e o retrato íntimo de uma família em ruínas, o filme oscila constantemente, exigindo entrega total. Não por acaso, uma segunda visão parece quase necessária para apreender suas camadas – ainda que seu impacto inicial já seja avassalador.
Formalmente, Ducournau radicaliza sua linguagem. A câmera se aproxima obsessivamente dos corpos, desfocando o mundo ao redor, criando uma sensação claustrofóbica que aprisiona o espectador junto aos personagens. Há poucos respiros visuais, e mesmo os planos mais abertos não oferecem alívio real. Os efeitos especiais são econômicos, mas precisos, sugerindo mais do que mostram – estratégia que intensifica o desconforto.

Se a imagem sufoca, o som oprime. A trilha sonora – que dialoga com o espírito de “The Mercy Seat”, de Nick Cave and the Bad Seeds – não busca agradar, mas envolver. Ela se funde à imagem como uma parede sonora inescapável, transformando certas sequências em experiências quase físicas. Ducournau demonstra um grande domínio na condução dessa relação entre som e imagem, elevando a dimensão sensorial do filme a um ponto de exaustão calculada.
No centro desse turbilhão estão três performances que ancoram o filme. Boros equilibra vulnerabilidade e ferocidade, enquanto Farahani e Rahim constroem figuras profundamente humanas – falhas, exaustas, incapazes de cumprir plenamente seus papéis, mas ainda assim movidas por amor. Não há vilões em Alpha, apenas pessoas tentando não desmoronar completamente.
Apesar da frieza mineral que permeia sua estética, Alpha é, paradoxalmente, um filme sobre calor humano. Sobre tocar, beijar, dançar – gestos que resistem mesmo diante da morte iminente. Ducournau parece sugerir que o luto não é apenas perda, mas também a incorporação daquilo que se perde permanece, transformado, dentro de quem fica.
Ambicioso ao ponto da exaustão, o filme impõe desafios claros ao público. Sua estrutura fragmentada, suas mudanças constantes de tom e sua intensidade emocional podem afastar espectadores em busca de linearidade ou conforto. Ainda assim, há uma convicção inegável em sua proposta. Alpha não quer ser facilmente compreendido – quer ser sentido.

Em um momento histórico ainda marcado pelas reverberações de pandemias recentes – ainda que menos forte em 2026 – e pela persistência de velhos preconceitos, Ducournau entrega uma obra que recusa o esquecimento. Entre o corpo e a pedra, entre a vida e a memória, Alpha se ergue como um monumento incômodo.
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