Há um momento em Dois Procuradores, o novo trabalho do cineasta ucraniano Sergei Loznitsa, que sintetiza com uma precisão cruel o universo que ele se propõe a dissecar. O protagonista, o jovem promotor Kornyev (Aleksandr Kuznetsov), caminha pelos corredores de um edifício público quando, de repente, uma pasta de documentos se esparrama escada abaixo. Instantaneamente, como se um botão de pausa tivesse sido acionado, todos os funcionários ao redor congelam. Não é susto, não é surpresa – é um condicionamento. As pessoas param de ser indivíduos e se tornam extensões do mobiliário, engrenagens de uma máquina que funciona à base do medo e da desconfiança. Se Loznitsa quisesse resumir em uma única imagem o clima de paranoia que tomou conta da União Soviética durante o Grande Expurgo de 1937, dificilmente encontraria metáfora mais eloquente.
O filme, que acompanha a jornada de Kornyev a partir do momento em que recebe uma carta enviada de numa prisão. O remetente é Stepniak (Aleksandr Filippenko), um veterano da Revolução de 1917 que agora definha em uma cela, vítima das mesmas engrenagens que ajudou a construir. O que se segue é uma descida aos círculos mais sombrios do aparato estatal soviético, uma investigação que promete justiça, mas que, gradualmente, revela ao próprio protagonista a insustentável leveza de suas convicções.
A construção visual do longa é uma tradução das tragédias do leste europeu, que, por aqui, opta por um registro radicalmente rígido, quase como um montante de quadros estáticos, precisamente alinhados em seu enquadramento. A câmera dificilmente se move, e quando isso acontece, é para nos lembrar que estamos igualmente encurralados. O formato de tela reduzido, o velho e bom 4:3, funciona como uma viseira: o mundo ali é claustrofóbico por definição, e qualquer tentativa de escapar para as bordas da imagem é frustrada pela moldura que aperta os personagens.
É interessante notar como o diretor trabalha com a noção de tempo. As sequências se arrastam com a lentidão de quem não tem para onde correr – e isso não é um defeito, mas uma escolha. Quando Kornyev embarca em uma viagem de trem para apurar as denúncias, sentimos cada solavanco, cada estação que passa, cada minuto de espera. O percurso de ida e volta, em sentidos opostos, sugere uma circularidade trágica. O protagonista parte cheio de ideais e retorna num vazio de ilusões. A montagem de Danielius Kokanauskis costura esses deslocamentos criando uma tensão que nunca recorre ao susto ou à trilha sonora manipuladora. O suspense brota das entrelinhas dos diálogos, dos olhares trocados nos corredores, das portas que se fecham silenciosamente atrás de cada visita.
Em termos de fotografia, o trabalho merece destaque pela sobriedade. As cores são dessaturadas, o contraste é controlado, e a luz parece sempre vir de alguma fonte institucional – janelas de repartições, lâmpadas frias de corredores. Não há espaço para o expressionismo ou para grandes maneirismos visuais.

A câmera de Loznitsa observa como um funcionário público observaria: com distanciamento, mas com atenção aos detalhes que denunciam a falência do sistema. Os planos abertos do início, que nos inserem na imensidão dos espaços institucionais, vão progressivamente dando lugar a composições mais fechadas, como se o mundo estivesse encolhendo ao redor do protagonista. Quando finalmente chegamos ao ato final, a sensação é de sufocamento completo.
A atuação de Kuznetsov é o fio condutor dessa experiência. Com um rosto marcado por um nariz desenhado em antigos combates de boxe, ele carrega em cada ruga a história de alguém que já viu muito, mas ainda não havia enxergado o essencial. Loznitsa, confiante no material humano que tem em mãos, não tem pudor em manter a câmera fixada em suas reações por longos minutos.
É no olhar de Kornyev que lemos o desmoronar de um mundo: a cada depoimento, a cada nova prova das atrocidades cometidas pela polícia secreta, a NKVD, sua convicção no sistema trinca como gelo fino. Mas há ali uma camada adicional de tragédia que o filme explora com sensibilidade: mesmo diante da barbárie, o promotor persiste na crença de que Stalin nada sabe, de que o líder é bom e puro, enganado por subordinados corruptos. Essa incapacidade de reconhecer a origem do mal no topo da hierarquia é, talvez, a ferida mais profunda que a obra expõe.

Há paralelos inevitáveis com a obra de Franz Kafka – “O Processo” vem à mente em mais de uma sequência, especialmente quando Kornyev se perde em corredores burocráticos que parecem não levar a lugar algum. Mas Loznitsa não se contenta em apenas adaptar o clima kafkiano ao contexto soviético. Ele insiste em uma autenticidade que só o testemunho direto pode conferir: o livro que dá origem ao filme foi escrito por Georgy Demidov, um físico que sobreviveu há 14 anos nos gulags e transpôs para a literatura a experiência de quem viu o inferno por dentro. Essa origem empresta à narrativa uma densidade que transcende a ficção.
No entanto, há momentos em que a narrativa escorrega para o excesso de oralidade, para sequências expositivas nas quais a imagem se torna mero suporte para o discurso. O longo relato de Stepniak durante a viagem de trem, por exemplo, embora importante em termos de conteúdo, trava o ritmo e nos faz questionar se o cinema não estaria ali servindo apenas de ilustração para a literatura. A câmera de Loznitsa parece hesitar diante da palavra em excesso, como se não soubesse bem o que fazer enquanto os personagens falam, falam, falam.
Outro aspecto que merece reflexão é a novidade – ou a falta dela – na abordagem do período histórico. O Grande Expurgo stalinista, que teria ceifado mais de 1,2 milhão de vidas em três anos, já foi retratado pelo cinema em chaves diversas, algumas mais estimulantes, outras mais convencionais.
A proposta de Loznitsa de conduzir o espectador pelos olhos inexperientes de um jovem promotor é eficaz até certo ponto, mas há momentos em que a sensação de déjà vu se instala. As sessões de tortura, as delações, o medo generalizado, a burocracia como instrumento de extermínio – tudo isso já frequenta o imaginário cinematográfico há décadas. O que o filme acrescenta a esse repertório? Talvez a percepção de que o tempo não cura certas feridas, apenas as empurra para debaixo do tapete da história.

E é justamente aí que a obra encontra sua ressonância contemporânea. Impossível assistir a Dois Procuradores sem estabelecer pontes com o presente, seja na perseguição a adversários políticos em diferentes latitudes, seja na recente polêmica envolvendo o próprio diretor. Ao defender que cineastas russos não deveriam ser banidos de festivais após a invasão da Ucrânia, Loznitsa foi expulso da Academia Ucraniana de Cinema. O episódio, narrado nos jornais, ecoa ironicamente as engrenagens que seu filme denuncia: o impulso autoritário para calar o dissenso não escolhe geografia nem lado do front.
Dito tudo isso, Dois Procuradores não é um filme fácil, muito por conta de sua proposital aspereza formal, sua recusa em dramatizar os eventos, sua aposta na longa duração dos planos – tudo isso pode soar como barreira para espectadores acostumados a um cinema mais digerível. Mas seria um erro confundir exigência com pedantismo. O que Loznitsa propõe é uma meditação sobre a natureza do poder e sobre a dificuldade humana de reconhecer o mal quando ele vem vestido de ideal. E se no caminho o filme por vezes tropeça no próprio peso, se alonga em exposições desnecessárias ou revisita territórios já mapeados por outros, ainda assim mantém intacta a relevância de sua missão: lembrar que os expurgos não pereceram com Stalin, apenas mudaram de nome e de endereço.
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