Kokuho – O Preço da Perfeição é daqueles filmes que parecem determinados a nos convencer de que o talento não basta – e que talvez o esforço também não seja suficiente. Dirigido por Lee Sang-il, cineasta japonês de ascendência coreana já conhecido por revisitar tradições sob novas perspectivas, o longa mergulha no universo do teatro kabuki para contar a trajetória de um ator fictício ao longo de cinco décadas. O que poderia ser apenas uma cinebiografia inventada transforma-se, na verdade, em um épico e um estudo ambicioso sobre disciplina, herança e obsessão.
A narrativa começa em 1964, quando o jovem Kikuo Tachibana, interpretado na infância por Sōya Kurokawa, surge como um prodígio em formação. Filho de um líder da Yakuza, ele é acolhido pelo veterano Hanai Hanjiro II (Ken Watanabe), após uma tragédia familiar. A partir daí, Kikuo passa a treinar ao lado de Shunsuke (Keitatsu Koshiyama), filho biológico de Hanai, estabelecendo uma relação que oscila entre amizade e rivalidade. Essa dinâmica é o coração dramático do filme, ainda que nem sempre seja conduzida com a clareza necessária.
O roteiro de Satoko Okudera adapta um romance homônimo publicado por Shûichi Yoshida em 2018, e carrega consigo a densidade literária típica de obras que tentam abraçar décadas de história. O problema é que nem sempre o cinema responde bem a essa ambição. Ao optar por uma estrutura extensa – são quase três horas de duração – o filme cria espaço para desenvolver o universo do kabuki com cuidado, mas também se permite dispersões narrativas que enfraquecem o eixo central.
Há subtramas que surgem com potencial dramático e desaparecem antes de amadurecer. Relações familiares que deveriam aprofundar o conflito interno de Kikuo são introduzidas e, pouco depois, praticamente abandonadas. Quando retornam, já perto do desfecho, soam menos orgânicas do que deveriam. Essa sensação de artificialidade não está na premissa, mas na montagem. Fica evidente que algumas escolhas foram feitas para preservar reviravoltas futuras, sacrificando o desenvolvimento emocional no presente. Para o espectador, isso se traduz em um certo distanciamento: entende-se a importância do que acontece, mas nem sempre se sente o peso dessas decisões.
Por outro lado, se o roteiro tropeça na administração de suas próprias camadas, a direção encontra potência no que tem de mais concreto: o palco. Lee Sang-il opta por um olhar que respeita a tradição do kabuki sem a transformar em peça de museu. As sequências de apresentação são filmadas com um misto de reverência e dinamismo. A câmera não permanece estática como se estivéssemos apenas assistindo a uma gravação teatral; ela se aproxima dos rostos, percorre gestos e captura a tensão muscular dos intérpretes. Essa escolha revela ao público leigo o que muitas vezes passa despercebido: o kabuki não é apenas declamação estilizada, mas controle absoluto do corpo.

A fotografia trabalha com cores saturadas nos figurinos e uma iluminação que destaca a textura da maquiagem dos onnagata – atores especializados em papéis femininos, tradição que remonta ao período em que mulheres foram proibidas de atuar. O contraste entre o brilho do palco e a sobriedade dos bastidores cria uma divisão visual clara entre dois mundos: o da performance e o da intimidade. Quando estamos atrás das cortinas, os tons tendem a ser mais frios e discretos, reforçando a ideia de que a arte, ali, é construída com esforço e renúncia.
O desenho de som também merece destaque. A musicalidade do kabuki, seus ritmos e pausas, não servem apenas como acompanhamento, mas como pulsação dramática. Mesmo para quem não compreende plenamente o dialeto regional utilizado em cena, a cadência vocal e a intensidade das interpretações comunicam emoção. Em determinados momentos, a força performática é tão grande que transcende qualquer barreira linguística.
É impossível falar de Kokuho sem mencionar o empenho do elenco. Os protagonistas em suas fases adultas – Ryo Yoshizawa como Kikuo e Ryusei Yokohama como Shunsuke – demonstram preparo físico e técnico notável. A dedicação ao treinamento transparece na precisão dos movimentos e na naturalidade com que incorporam a tradição. Não se trata apenas de imitar um estilo, mas de internalizá-lo. O jovem Sōya Kurokawa, por sua vez, confirma o talento já percebido em trabalhos anteriores, trazendo uma mistura de vulnerabilidade e obstinação que dá base emocional à trajetória do personagem.

O grande conflito que atravessa o filme é a tensão entre talento e linhagem. No universo retratado, o sobrenome pesa tanto quanto a habilidade. Kikuo, vindo de fora da tradição familiar do kabuki, precisa provar seu valor em um sistema que privilegia a hereditariedade. Esse embate é fascinante porque dialoga com questões universais: quem pertence a determinado espaço? O mérito é suficiente para romper estruturas rígidas? O filme acerta ao não oferecer respostas, mas escorrega quando parece insinuar que nem todo o sucesso do protagonista é fruto de seu esforço. Ao flertar com a ideia de que fatores externos podem ter sido decisivos, a narrativa enfraquece a construção de um personagem que sempre foi definido por sua disciplina quase obsessiva.
Ao longo da projeção, é difícil não pensar em outras obras que abordam a entrega total à arte, mas Kokuho encontra identidade própria ao mergulhar tão profundamente em uma tradição específica. Ele emociona porque mostra o preço da excelência: relações deixadas para trás, afetos negligenciados, um corpo moldado pela repetição exaustiva. Ainda assim, deixa a sensação de que poderia ter sido mais conciso e, paradoxalmente, mais profundo. Cortes estratégicos talvez tornassem o drama mais incisivo, concentrando energia no que realmente importa.
No fim das contas, fica a sensação de ter acompanhado não apenas a história de um artista, mas a de alguém que escolheu transformar a própria vida em ensaio permanente. Como um atleta que treina para uma prova que nunca termina, Kikuo nos lembra que a perfeição pode ser menos um troféu e mais uma miragem que nos empurra sempre adiante.
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