Matuê, desde que emergiu como o maior ídolo jovem da música brasileira, nunca se contentou em ser apenas um fenômeno de vendas. Sua trajetória, de “Máquina do Tempo” ao, até então, mais recente “333”, foi marcada por uma busca sonora quase filosófica, uma costura de referências que ia do reggae ao indie psicodélico, criando uma identidade fora da curva no cenário pop. Era um artista que ostentava, sim, mas cuja ostentação parecia carregada do peso da mudança de vida, servindo como ferramenta confessional. Com Xtranho, seu terceiro álbum, lançado com o estrondo de marketing que só um nome do seu calibre pode gerar – incluindo uma megaestrutura no Vale do Anhangabaú para uma audição coletiva –, a promessa era de um mergulho ainda mais profundo. Um manifesto pelo trap underground, disruptivo, conceitual, desafiador. Ouvindo as treze faixas do projeto, porém, a sensação que fica é a de um passo para o lado disfarçado de salto para frente. Um eco, alto e bem produzido, de um som que já é dominante em outros territórios.
O conceito visual e estético de Xtranho é, inegavelmente, seu ponto mais forte e coeso. Matuê não lança apenas um disco; ele inaugura uma “era”, com identidade visual agressiva, variações de capa que dialogam com a moda de vanguarda e performances que beiram a arte conceitual. Há uma narrativa construída para ser vista, sentida e, principalmente, debatida nas redes sociais. A estética remete a um cyberpunk destilado, com cores ácidas, distorções glitch e uma postura que beira o niilismo fashion. É um universo completo, pensado para transcender o streaming.

No entanto, é justamente nesse “conceito” que reside a primeira grande fissura. A ideia de classificar quem “não é do meio” como NPC – sigla para Non-Player Character, os personagens de fundo em videogames –, embora pretenda soar como uma demarcação de território underground, acaba soando como um adolescente de primeira viagem filosófica. É um edginess, uma afetação de rebeldia, que mais tenta esconder uma vacuidade do que de fato propõe uma crítica substancial. O projeto flerta com um anti-intelectualismo que se fantasia de conceituação profunda, mas que, nas entrelinhas das letras e nas escolhas sonoras, revela-se bastante superficial.
É na sonoridade que a desconexão entre o discurso e a prática se torna mais evidente. Matuê vende Xtranho como algo disruptivo, mas os ouvidos mais atentos ao cenário global identificarão imediatamente as referências. A produção, repleta de distorções saturadas, beats quebrados e atmosferas densas e imersivas, podem ser encontradas aos montes no trap experimental que domina a cena estadunidense, capitaneada por nomes como Playboi Carti, Ken Carson e Destroy Lonely.
Técnicas como a saturação extrema dos 808s (os graves característicos do gênero), os vocals (vocais) tratados como camadas texturais mais do que como veículos líricos, e a construção de ambientes sonoros caóticos e claustrofóbicos são executadas com maestria. A produção é polida, cara, eficiente. Mas não é nova. A sensação não é de estar diante de uma vanguarda, mas de uma importação de alta qualidade.
Isso fica claro em faixas como “Alterado”, em parceria com Phl Notunrboy. A letra “Não me vê, que o preto da minha Lamborghini é matte. O seu ex é broke, ele anda numa Smart” é um retrocesso lírico monumental se comparada às reflexões sobre fama e identidade de 333. A ostentação, outrora um elemento narrativo complexo, regride a um nível fútil e adolescente, sem a camada de autocrítica que antes a tornava interessante.
Pior ainda é a decisão infeliz em “Rei Tuê”, que incorpora, em tom de deboche, o áudio viral de uma menina relatando agressão em um show do rapper Don Toliver. A tentativa de ser “polêmico” ou “conceitual” nesse caso falha redondamente, revelando uma imaturidade artística gritante e um desrespeito que mancha o projeto.
Nem tudo, contudo, é emulação vazia. As colaborações femininas emergem como respiros valiosos. “Ícone Fashion”, com Kouth, e “Autobahn”, com Cashley, são momentos onde a proposta ganha frescor. Elas não apenas fortalecem o ainda negligenciado trap feito por mulheres no Brasil, como trazem perspectivas e flows que destoam positivamente da homogeneidade do resto do álbum. São faixas que sugerem que a verdadeira disrupção talvez estivesse ali, nas vozes marginalizadas, e não na reciclagem de uma estética estrangeira
Já “Facas e Machados”, com Fab Godamn e Okie, exemplifica outro problema crônico do projeto em si. Cria-se uma atmosfera intensa e agressiva, com uma produção interessantemente caótica, para abrigar uma letra simplória, que flerta a paródia – “Eu sou um mano muito revoltado, preciso fumar alguns baseados” –, cantada com um sotaque americanizado que soa mais como pose do que como personalidade.
Essa é a grande contradição de Xtranho; ele tenta se vender como um afastamento das fórmulas comerciais, mas adota à risca a fórmula do trap experimental de nicho que já é comercial e mainstream em seu país de origem. O álbum não é um rompimento; é uma adesão tardia a uma tendência global. A repercussão dividida – entre quem vê coragem e quem vê rascunhos mal finalizados – é sintomática. Ela coloca Matuê e sua legião de fãs em um lugar curioso: mais próximos da dinâmica de fandoms de ícones pop como da cantora Taylor Swift ou dos Idols do K-Pop, onde a defesa do ídolo e do “conceito” prevalece sobre uma análise desapaixonada da obra, do que do verdadeiro underground, que costuma ser mais crítico e menos reverente.
Resta saber se, após essa investida ruidosa, ele conseguirá reencontrar o próprio caminho, ou se seguirá como um NPC de altíssima definição dentro do próprio jogo que tentou supostamente hackear.
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